Didi, um Mestre Alapini e Assogba

Didi, um Mestre Alapini e Assogba
“gégé aro aso lemon
A ko mo baba
estamos vendo, mas não estamos sabendo”
Alapini e Assogba são dois cargos ritualísticos do Candomblé ocupados por Mestre Didi em vida, ambos relacionados com os ciclos vitais de transformação na Terra e a dimensão ancestral da vida. O universo simbólico no qual se baseia sua produção coloca a morte num contexto filosófico que supera os debates sobre mercado secundário de arte e a relação desse mercado com artistas falecidos. Mestre Didi é neto de Oba Tossi, uma das fundadoras do Ilê Axé Airá Intilé, conhecido como Terreiro da Barroquinha – o primeiro terreiro de candomblé fon/yoruba do Brasil. É importante mencionar que tal organização lógica e filosófica se deu inicialmente através da Irmandade da Boa Morte – sociedade a qual Oba Tossi também integrava. Essa organização foi central na abolição da escravatura e na independência do Brasil – movimento que se iniciou em Cachoeira, BA. A Irmandade da Boa Morte é a primeira organização brasileira a reivindicar a humanidade sob a perspectiva das matrizes africanas, seu caráter exclusivamente feminino e feminista deu origem ao matriarcado que observamos nos terreiros. Esse grupo é a parte feminina do culto a Baba Egun, sociedade masculina que tem na figura do Alapini sua maior liderança. Por outro lado, Assogba é uma função associada ao vodoun Omolu, originalmente Ewe/Fon, que no Brasil foi incorporado ao panteão Yoruba, assim como os vodouns Nanã e Oxumarê – essas divindades são chamadas de panteão da terra ou da palha. De forma geral, eles se relacionam com a morte e os ritos de transformação, que são centrais à noção de humanidade presente nos povos de matriz africana. Essas dimensões éticas estruturam a proposta estética de Mestre Didi e sua relação com as estratégias de manutenção da humanidade para povos afro-brasileiros.
Para a cultura Yoruba, o mundo visível é chamado de Aye, enquanto o invisível é intitulado Orun. Nesta perspectiva, a existência a partir de um corpo visível é compreendida como uma passagem pelo mercado. A terra seria um local onde os indivíduos realizam as trocas necessárias para regressar ao Orun, onde vivem uma existência de natureza não palpável. Por este motivo, a morte é uma questão tão central para os povos de matriz africana: através dela se estabelece o processo de ancestralização. Neste sistema, as próximas gerações herdam a força de realização (asè) daqueles que, após passarem pelo mercado e realizadas suas trocas, voltam a sua existência invisível. Neste sentido, a conexão com os ancestrais possibilita ao indivíduo realizar de maneira mais assertiva suas trocas e exercer sua função histórica. Logo, a verdadeira morte consiste na quebra entre ancestral e indivíduo vivente. Nas comunidades afro-brasileiras, a manutenção entre esses dois lados da existência ocorre principalmente através do culto a Baba Egun e através das relações com a tríade de divindades vodouns incorporadas aos ritos yorubas como panteão da palha.

"Eran L'okun - O polvo com 4 tentáculos" (s/d) na exposição “Mestre Didi – Panteão da Terra”, na Simões de Assis (SP). (Foto: Estúdio Em Obra)

Detalhe de "Ope Awo Ibo - Palma misteriosa do mato" (2011) na exposição “Mestre Didi – Panteão da Terra”, na Simões de Assis (SP). (Foto: Estúdio Em Obra)

Detalhe de Sem título (1966) na exposição “Mestre Didi – Panteão da Terra”, na Simões de Assis (SP). (Foto: Estúdio Em Obra)
Durante os anos 70, Mestre Didi posicionou-se no meio da arte contemporânea a partir de uma lógica não-hegemônica. Didi estava totalmente alinhado com o movimento político e intelectual pan-africanista global, cujos maiores expoentes foram as independências africanas e os movimentos de liberação racial nos EUA. De forma geral, a possibilidade de reconstruir leituras de mundo a partir de éticas e estéticas africanas deu origem a dois grandes eventos no continente africano: O 1# Festival of Negro Arts em Dakar/Senegal e o Festak 77 ne Nigéria (que contou com participações como Abdias Nascimento e Gilberto Gil). Frequentemente ignorados pelas narrativas racistas de história da arte, esses eventos foram fundamentais para o estabelecimento do nkrumaismo como uma vertente de produção estética baseada em éticas locais dos países outrora colonizados. Este nome é inspirado em Kwame Nkrumah, filósofo e primeiro presidente do Ghana após sua independência do domínio britânico. As iniciativas decoloniais desse chefe de estado serviram de referência para os demais países a tornarem-se independentes posteriormente. Suas políticas propunham a substituição de estéticas e lógicas europeias por expressões e fundamentos filosóficos locais, no intuito de entender um projeto civilizatório a partir das cosmovisões dos países africanos. Para além de um movimento nacional, o nkrumaismo tornou-se uma agenda artística, política e intelectual pan-africanista. Nomes como Ana Mendieta, Belkins Ayon e Ynka Shonibare são exemplos de produções diretamente influenciadas por este movimento, voltado para produção a partir de sistemas filosóficos não-hegemônicos.



Exposição “Mestre Didi – Panteão da Terra”, na Simões de Assis (SP). (Foto: Estúdio Em Obra)

"Opa Nilé - Cetro da terra" (1996) na exposição “Mestre Didi – Panteão da Terra”, na Simões de Assis (SP). (Foto: Estúdio Em Obra)
No Brasil, Mestre Didi e Abdias do Nascimento (que eram amigos próximos desde a juventude) são grandes expoentes desta agenda ética e estética, assim como Rubem Valentim, Agnaldo Santos e outros da mesma geração. Ao aplicarmos a lógica ancestral a este movimento artístico, podemos perceber que Mestre Didi emprega sua força vital (asè) ao trazer para o ambiente da arte contemporânea ferramentas rituais associadas ao Panteão da Terra. Com isso, ele também restaura o sentido de humanidade para demais artistas negrxs que o sucedem, ao assegurar-lhes a possibilidade de recorrer ao universo simbólico de matriz africana como uma fonte de recurso ético e estético.
A poética de Mestre Didi fundou uma linhagem ancestral que inclui seu próprio neto Antonio Oloxede. O artista ocupa atualmente um cargo central no Ilê Asipa, em Salvador, a comunidade de matriz africana de culto a Baba Egun fundada por Mestre Didi. Para além de terreiro, o Asipa é também o atelier de Antônio que atualiza e dinamiza a técnica do avô. Entretanto, o marco poético e político de Mestre Didi estende-se para além dos laços familiares, e atualizando questões para além do período de vida do ancestral. Dialoga com este marco temático a produção de Nadia Taquary, Ayrson Heráclito, Castiel Vitorino Brasileiro, Moisés Patrício, além da minha própria produção artística e intelectual.


Uma vez que as obras de Mestre Didi são desdobramentos de ferramentas rituais relacionados com os vodouns da ancestralização e transformação, elas atualizam a força vital (asè) do artista, principalmente diante de sua ausência física. Se a morte é o grau mais alto de iniciação, a presença das ferramentas produzidas pelas mãos do Assogba após seu retorno ao invisível expande e reafirma seu projeto ancestral, cuja manifestação material consiste nas próprias obras.
