Como moda, arte e design se entrelaçam na trajetória de Jay Boggo

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Jay Boggo

21 mai 2026

Acima: Modelo veste a coleção “Oxímoro”, de Jay Boggo. © Divulgação

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Meu primeiro contato com estética não veio dos objetos. Veio das pessoas.


Antes mesmo de entender o que era moda, arte ou design, eu já observava o ser humano com atenção. Sigo assim até hoje: meu maior laboratório é vivo. A maneira como alguém se arrumava para sair, como um tecido mudava a postura de uma pessoa, como certos gestos carregavam atitudes. Cresci em ambientes onde muitas vezes faltava uma unidade estética clara nos espaços, mas existia beleza nas pessoas. Cheguei a ser repreendido diversas vezes por ficar olhando demais para alguém, mas eu não sabia o que estava acontecendo. Hoje, percebo que era como se eu fosse me abastecendo de códigos humanos para entender o que fazia sentido para mim ou não. São memórias antes dos 5 anos. Foi ali que comecei a entender, ainda criança, que estética não era sobre excesso, mas sobre intenção.


A moda entrou na minha vida antes mesmo de eu saber nomeá-la. Quando criança, eu me escondia dentro do guarda-roupa da minha mãe e provava suas roupas. Era uma experiência de transformação. O guarda-roupa era um lugar de imaginação, textura, cheiro e volume. Era um cubo mágico onde eu criava atitudes e posturas. Replicava trejeitos para registrar tudo dentro de mim. Aquele foi o meu primeiro espaço expositivo.

Retrato de Jay Boggo. © Divulgação

Retrato de Jay Boggo. © Divulgação

Ao mesmo tempo, eu reorganizava a casa dos meus pais constantemente. Mudava objetos de lugar, alterava composições e criava atmosferas do meu jeito. O curioso é que ninguém desfazia o que eu fazia. Tudo permanecia. Existe algo muito simbólico nisso para mim, porque antes de existir qualquer validação institucional, já existia uma percepção intuitiva de direção estética dentro de casa.


Mais tarde, isso naturalmente desembocou na moda. Primeiro produzindo para grandes marcas, entendendo tecidos, construção, acabamento e percebendo que minhas criações sempre caminhavam para um lugar de maior refinamento. Depois vieram as minhas próprias roupas, os desfiles, os fashion films e, sem que eu percebesse totalmente naquele momento, a arte já estava atravessando tudo.


Hoje olho para o desfile “Oxímoro” — realizado de forma online em setembro de 2025 — e percebo que aquilo já era quase uma instalação. Existia uma relação muito forte entre corpo, vazio, silêncio e ocupação do espaço. As roupas quase se mimetizavam com a atmosfera. Não era apenas sobre vestir alguém. Era sobre criar presença. Escultura.

Modelo veste a coleção “Oxímoro”, de Jay Boggo.  © Divulgação

Modelo veste a coleção “Oxímoro”, de Jay Boggo. © Divulgação

Por isso, nunca consegui separar completamente moda, arte e design. Para mim, os três sempre partiram do mesmo lugar.


Em algum momento, a pintura também passou a fazer parte da minha trajetória de maneira muito natural. Na verdade, ela nunca me pareceu distante do restante do meu trabalho. Assim como nas roupas, nos objetos e nos espaços, sempre existiu uma busca por atmosfera e construção de linguagem. Agora ela também ocupa galerias, exposições, acervos e projetos internacionais dentro deste mesmo percurso.


Houve um momento simbólico em que tudo isso se encontrou de maneira explícita: um desfile na Pinacoteca de São Paulo em março de 2026 com roupas produzidas em madeira. Ali desapareceu qualquer necessidade de fronteira. O corpo finalmente virou escultura, a roupa virou objeto, o espaço institucional virou extensão da narrativa. Foi um daqueles raros momentos em que todas as linguagens pareciam existir ao mesmo tempo.

Desfile de Jay Boggo na Pinacoteca de São Paulo em março de 2026 com roupas produzidas em madeira. © Divulgação

Desfile de Jay Boggo na Pinacoteca de São Paulo em março de 2026 com roupas produzidas em madeira. © Divulgação

Desfile de Jay Boggo na Pinacoteca de São Paulo em março de 2026 com roupas produzidas em madeira. © Divulgação

Desfile de Jay Boggo na Pinacoteca de São Paulo em março de 2026 com roupas produzidas em madeira. © Divulgação

Eu me escondia dentro do guarda-roupa da minha mãe e provava suas roupas

— Jay Boggo

Com o passar dos anos, comecei a entender que aprendemos diferentes técnicas ao longo da vida, exercemos profissões distintas, experimentamos caminhos aparentemente separados, até que um dia tudo encontra um significado comum. Paris me fez compreender isso com clareza. Quando apresentei meu trabalho no antigo apartamento de Karl Lagerfeld, em janeiro de 2026, entendi que todas aquelas linguagens que me acompanharam desde cedo estavam finalmente ocupando o mesmo lugar. Moda, mobiliário, matéria, arte e atmosfera apontavam para uma mesma direção.

Peças de Jay Boggo no antigo apartamento de Karl Lagerfeld durante a Paris Experience em janeiro de 2026. © Divulgação

Peças de Jay Boggo no antigo apartamento de Karl Lagerfeld durante a Paris Experience em janeiro de 2026. © Divulgação

E inevitavelmente o Brasil aparece em tudo isso.


Não apenas por meio das matérias-primas, mas da própria construção de olhar. Existe no Brasil uma mistura de referências, ancestralidades e repertórios que convivem de maneira muito própria. Somos um país formado por inúmeros mundos coexistindo ao mesmo tempo.


Vem daí essa sensação constante de deslocamento que também existe no meu trabalho. Existe um olhar brasileiro muito evidente em tudo o que faço, mas ao mesmo tempo nunca me interessou uma ideia folclórica ou regionalizada de Brasil. Sempre me interessou um Brasil capaz de dialogar com o mundo sem perder complexidade, sofisticação ou identidade.

Cantor Jota.pê veste criação de Jay Boggo para o Prêmio Multishow 2025.  © Divulgação

Cantor Jota.pê veste criação de Jay Boggo para o Prêmio Multishow 2025. © Divulgação

Há uma certa despadronagem na nossa cultura que sempre me interessou profundamente. O brasileiro tem uma capacidade rara de criar ordem dentro do caos, de transformar excesso em identidade, mistura em linguagem.


Isso aparece muito no meu trabalho, mesmo quando não tento colocar de maneira consciente.


A poltrona “Itamarã”, da coleção Ritos, talvez seja um dos exemplos mais próximos da moda dentro do meu design, mesmo sem ser roupa. Ela fala sobre pessoas que vivem acima de tendências, acima de coleções, acima de estações. Pessoas que transformaram estética em modo de existir. Sempre me interessou mais esse lugar da presença do que o da tendência.

Nunca enxerguei a arte como algo distante do cotidiano

— Jay Boggo

Coleção "Ritos", fruto da parceria entre Jay Boggo e Bruno Rodrigues, apresentada no estande J Boggo+, Maqstone & Bref durante a SP-Arte 2026. © Divulgação

Coleção "Ritos", fruto da parceria entre Jay Boggo e Bruno Rodrigues, apresentada no estande J Boggo+, Maqstone & Bref durante a SP-Arte 2026. © Divulgação

Nunca enxerguei a arte como algo distante do cotidiano. A moda toca o corpo antes de qualquer explicação racional. O design convive com as pessoas diariamente. E a arte, para mim, acontece justamente quando um objeto, uma roupa ou um espaço consegue alterar a percepção de presença de alguém no mundo.


No fim, percebo que minha trajetória nunca foi sobre migrar entre moda, arte e design. Foi sobre entender que todas essas linguagens sempre existiram juntas dentro de mim.

Bolsa de Jay Boggo usada pela atriz Alice Carvalho, de "O Agente Secreto", na cerimônia do Oscar em 2026. © Divulgação

Bolsa de Jay Boggo usada pela atriz Alice Carvalho, de "O Agente Secreto", na cerimônia do Oscar em 2026. © Divulgação

Jay Boggo é um artista multiplataforma, empresário e autodidata, com 27 anos de experiência na indústria têxtil. Natural de Blumenau, vive em São Paulo desde 2017. Sua produção atravessa moda, mobiliário escultórico e pintura, com obras presentes em coleções privadas e acervos institucionais no Brasil e no exterior.