Matéria como linguagem de design

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Regina Galvão

02 abr 2026

Acima: Coleção "Sobrepor", de Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz, 2026. @ André Klotz

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Nestes dez anos em que a SP-Arte introduziu o setor de design em seu evento, o segmento, voltado principalmente para colecionadores, ganhou força e expressividade. Na edição de 2026, chama a atenção a relevância que os materiais conquistaram na produção de muitos estúdios, sobretudo entre a nova geração. Vidro, madeira, metal, plástico, fibras naturais e até porcelana e papelão deixam de ser apenas suporte para assumir protagonismo. Nessas peças, processos, origens e estruturas tornam-se visíveis em conceitos que transitam entre o industrial e o artesanal. Selecionei criações de treze autores que evidenciam essa abordagem na cena do design-arte brasileiro.

Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz conversam no ateliê de Tótora, em Maria da Fé (MG). @ Diogo Dahia

Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz conversam no ateliê de Tótora, em Maria da Fé (MG). @ Diogo Dahia

A capacidade de transformação dos materiais orienta a parceria entre o designer paulista Gabriel De La Cruz e o artista mineiro Domingos Tótora, uma afinidade adquirida ao longo de anos de diálogo e convivência. “Ele é razão e eu, intuição”, sintetiza Tótora. Na série "Sobrepor", de forte apelo tátil, a pesquisa que marca a trajetória de Tótora, baseada no reaproveitamento de papelão coletado em Maria da Fé (MG), é reconfigurada pelo desenho de De La Cruz e pelo processo construtivo em camadas. O resultado é um conjunto de peças moldadas a partir de uma massa de papelão, cola e água, nas quais as fronteiras entre arte e design se revelam de modo sutil. São mais de dez criações: buffet, armário-bar, mesa, banco e luminárias. “Nossa intenção foi chegar a um índice superior a 90% de materiais reciclados. Até os parafusos já foram usados”, afirma De La Cruz.

Arandelas "Coria", de Lucas Recchia, 2025. © Ana Pigosso

Arandelas "Coria", de Lucas Recchia, 2025. © Ana Pigosso

Em seu segundo ano na feira como estúdio independente, o catarinense Lucas Recchia concentra sua pesquisa na iluminação. Desenvolvidas ao longo de 2025, as luminárias mantêm a vocação escultórica de sua mobília, feitas com vidro e bronze. Nos diferentes modelos, a luz se revela difusa, indireta, quase secreta. São objetos que marcam presença e criam atmosferas, como o pendente "Cirrus", formado por uma fita suspensa de bronze de dois metros, na qual a luminosidade surge de concavidades internas. Já na arandela "Coria", a luz se insinua pela superfície de bronze texturizada, dando a impressão de que o brilho nasce do interior. Em ambos os casos, Recchia recorre a uma poética em que luz e corpo se confundem.

Vasos "Vestígios", de Anna Machado, 2026. © Divulgação

Vasos "Vestígios", de Anna Machado, 2026. © Divulgação

Das matérias-primas mais emblemáticas do nosso tempo, o plástico oferece infinitas possibilidades. E é pelo olhar sensível da carioca Anna Machado que ele ganha dimensão artística: o que antes era resíduo adquire significado. Na série "Plasticidad"e, destaco "Vestígios", primeira linha integralmente manual do estúdio, composta por obras únicas. Fragmentos de peças impressas em 3D de sua produção são aquecidos e incorporados a novas formas. “Cada objeto traz em si o que foi perdido. E me pergunto: o que permanece quando tudo se quebra?”, questiona ela - essa coleção, ela dedica aos familiares que se foram, mas ainda se mantêm nos vestígios que a constituem.

Mesa "Trama", de Pedro Luna, 2026. © Estúdio Pedro Luna

Mesa "Trama", de Pedro Luna, 2026. © Estúdio Pedro Luna

Estreando na SP-Arte 2026, Pedro Luna traz para a feira sua pesquisa sobre o fazer artesanal. A coleção "Linha Trama" é criada a partir da prática de tecelagem manual em palha de taboa para o metal fundido. O projeto mescla técnica vernacular e produção contemporânea, fazendo com que tapetes tradicionais sirvam como matriz para moldes que registram a textura da fibra natural em alumínio ou latão. As superfícies metálicas se apoiam em bases de madeira sucupira, caso da mesa de centro" Trama". “O que antes era flexível torna-se rígido; o que era leve ganha peso; o que era utilitário transforma-se em plano estrutural”, afirma o designer paulista. A coleção inclui ainda um aparador, mesas laterais e bancos, levando o repertório de memória doméstica para o campo do design.

Escrivaninha "Master", de Vinicius Siega, 2026. © Guilherme Jordani

Escrivaninha "Master", de Vinicius Siega, 2026. © Guilherme Jordani

A série "Jacarandá" do gaúcho Vinicius Siega nasce de um lote limitado dessa madeira nobre e rara. O projeto estabelece uma relação de respeito entre matéria e criador: “Trabalhar com o jacarandá tornou-se um exercício de precisão e responsabilidade. Busquei revelar sua importância e evitar desperdícios”, afirma. Símbolo do mobiliário modernista brasileiro, a matéria-prima de tom escuro evidencia a marcenaria detalhada na escrivaninha "Master", com tampo irregular e uso de metal na estrutura de apoio.

Conjunto de peças com cipó titica, do estúdio Sette7, 2025. © Ruy Teixeira

Conjunto de peças com cipó titica, do estúdio Sette7, 2025. © Ruy Teixeira

Na Sette7, sob direção criativa da arquiteta capixaba Vivian Coser, a coleção se organiza em três eixos: mineral, orgânico e sensorial. Entre eles, o elemento que surpreende é o cipó titica, fibra amazônica trabalhada manualmente e agora incorporada ao repertório da marca. Ao ser entrelaçado, o material estabelece um contraponto à presença mineral que caracteriza o estúdio. Bancos e estante assumem uma nova leitura nesse conjunto que convida a sentir com as mãos.

Estante da linha "Castanhão", de Érico Gondim, 2025. © Divulgação

Estante da linha "Castanhão", de Érico Gondim, 2025. © Divulgação

O estúdio do cearense Érico Gondim volta sua atenção para o que permanece invisível: a infraestrutura urbana. Tubos e conexões descartados de sistemas de saneamento são reconfigurados em mobiliário de caráter orgânico e único. Estantes, aparador, mesas e banquinho reposicionam a matéria industrial no design contemporâneo e sustentável. A coleção contextualiza a pesquisa de Gondim desenvolvida, em 2025, pelo projeto RegeneraLab em parceria com a Cagece – Companhia de Água e Esgoto do Ceará. “Essa série é um convite a repensar o futuro a partir do que já existe”, afirma ele.

Móveis do estúdio Fahrer com os têxteis da Punto & Filo, 2026. © Divulgação

Móveis do estúdio Fahrer com os têxteis da Punto & Filo, 2026. © Divulgação

Reconhecido pelo uso de madeira multilaminada curvada, o estúdio Fahrer, com sede em São Paulo, apresenta peças de linhas orgânicas e presença escultural que extrapolam o mobiliário e integram a instalação têxtil "Inflorescências", em colaboração com o paisagista Marcelo Faisal. Inspirado nas texturas da Serra da Mantiqueira, o espaço constrói uma paisagem de volumes, cores e sombras, tendo como elemento central a tapeçaria da Punto & Filo, produzida com náilon proveniente de resíduos oceânicos e industriais.

Detalhe do tampo da mesa de jantar "Dominó", do Assimply Studio, 2026. © Divulgação

Detalhe do tampo da mesa de jantar "Dominó", do Assimply Studio, 2026. © Divulgação

Com foco na reutilização, o carioca Assimply Studio, da dupla Victor Xavier e Søren Hallberg, apresenta a linha "Dominó". A mesa de jantar modular, de 3,60 m por 1,20 m, é produzida em granilite com resíduos cerâmicos que formam no tampo composições pictóricas. Dividida em três partes, a peça, fabricada artesanalmente, pode ser usada de forma conjunta ou independente.

Poltrona "Boia", do Alva Design, 2026. © Leonardo Finotti

Poltrona "Boia", do Alva Design, 2026. © Leonardo Finotti

O couro reveste a coleção "Boia", dos irmãos Marcelo Alvarenga e Susana Bastos, do estúdio mineiro Alva Design. Trabalhado de forma mais solta, o material confere um caráter despojado às peças. Além da poltrona circular, a série inclui banco-mesa e banquetas. “Gostamos muito de trabalhar com couro e, em nossas primeiras peças, fomos influenciados a usá-lo por causa da nossa pesquisa sobre a indústria de selas América, na cidade de Perdões, no sul de Minas”, diz Alvarenga.

Banco de porcelana e esmalte cerâmico, de Nicole e Luiza Toldi, 2026. © Divulgação

Banco de porcelana e esmalte cerâmico, de Nicole e Luiza Toldi, 2026. © Divulgação

Habituadas a produzir objetos de arte e utilitários em porcelana, Nicole e Luiza Toldi, dupla formada por mãe e filha, expandem essa prática para o mobiliário colecionável. Mantendo o mesmo material, apresentam peças únicas feitas à mão, representadas na feira pelo Designers Group. Bancos, mesa lateral e placas escultóricas de parede formam o conjunto tingido com esmaltes cerâmicos. “Transformar obras de arte em peças utilizáveis implicou enfrentar limites estruturais até encontrar o equilíbrio desejado”, afirmam.

Cadeira "Luna", de Jay Boggo, 2026. ©Will de Carvalho

Cadeira "Luna", de Jay Boggo, 2026. ©Will de Carvalho

A sofisticação das pedras brasileiras norteia a série "Ritos", do estilista e designer gaúcho Jay Boggo. Inspirado por uma cena de infância, em que os vizinhos se reuniam nas calçadas das casas para curtir o luar, Boggo idealizou uma cadeira com dois blocos circulares de pedra sabão smoke, formando encosto e assento. A peça recebeu uma camada de selante para escurecer a cor natural da matéria-prima de veios sutis e textura aveludada.

Aparador da coleção "Garatuja", do estúdio Prosa, 2026. © Guilherme Amaral

Aparador da coleção "Garatuja", do estúdio Prosa, 2026. © Guilherme Amaral

O estúdio PROSA, fundado por Júlia Rovigo e Gabriel Pesca em Itajaí (SC), reafirma o valor do fazer artesanal ao investigar a madeira como elemento primordial. Influências da carpintaria naval aparecem nas peças da coleção "Garatuja". Os designers combinam razão e sensibilidade ao unir formas geométricas com traços orgânicos. Encaixes manuais acentuam a linguagem do trabalho, que se materializa no aparador de tampo curvo e bases esculpidas. A combinação entre a muirapiranga, madeira amazônica, e a imbuia, da Mata Atlântica, cria contrastes cromáticos e táteis.


Regina Galvão é jornalista. Foi editora das revistas Casa Claudia e Casa Vogue e dirigiu o conteúdo da revista Habitare de 2023 a 2025. Atualmente, é curadora da primeira edição do Prêmio Renova, promovido pela Casa de Metal, e da segunda edição do Prêmio Design da Movelaria Nacional, organizado pela Abimóvel.