O “estalo” de Raphael Fonseca na Bienal do Mercosul

Gabriela Valdanha
07 fev 2025
Acima: Curador Raphael Fonseca assina a 14a edição da Bienal do Mercosul. Foto: Thiele Elissa
Estale os dedos. O som ecoa no tempo: sete milissegundos, uma fração de instante. O bastante para capturar a força de um gesto, para condensar o pensamento em conceito.
“Estalo” é o título da 14ª Bienal do Mercosul, que acontece de 27 de março a 1º de junho de 2025, em Porto Alegre. O termo reverbera entre a efemeridade do som e a permanência do impacto, definindo uma edição guiada pela ideia de metamorfose.
A curadoria, que promete fazer barulho, está nas mãos de Raphael Fonseca, um dos nomes mais atuantes no circuito internacional.
Nascido no Rio de Janeiro e radicado nos Estados Unidos, onde é curador de arte moderna e contemporânea latino-americana no Denver Art Museum, Fonseca transita entre contextos e geografias. Seu trabalho atravessa museus e bienais, repensando as dinâmicas da arte contemporânea e a circulação de narrativas.
Com curadorias premiadas e reconhecimento internacional — incluindo sua presença na lista da ArtReview entre as cem personalidades mais influentes das artes visuais em 2023 e 2024 —, Fonseca segue questionando fronteiras e redefinindo espaços.
A seguir, os principais trechos da conversa de Raphael Fonseca com a SP-Arte.

No Denver Art Museum, a exposição "Sandra Vásquez de La Horra: The Awake Volcanoes" (2024), com curadoria de Raphael Fonseca. Foto: Eric Stephenson
1) O tema da Bienal do Mercosul é “Estalo”, que em 2025 completa sua 14ª edição. Qual conceito guiou você e a equipe na concepção desta Bienal?
O nome Estalo veio de uma fala muito orgânica, pensando inicialmente em uma Bienal que teria um caráter pós-pandêmico e seguiria um fluxo da vida diante de todas as mudanças políticas do Brasil e do mundo nos últimos anos. Como fazer uma Bienal que pensa a noção de transformação e que talvez encare a vida numa chave mais construtiva e menos destrutiva? Essa era a nossa pergunta. O nome Estalo fez sentido porque é um conceito amplo, um guarda-chuva que abriga diferentes interpretações. Cada pessoa pode “estalar” a palavra de maneiras diversas. Não é uma Bienal que aponta para uma única direção. É como um asterisco que indica múltiplos caminhos. Cada artista e cada pessoa do público consegue imprimir uma noção de estalo muito particular a partir do seu nome.

Obra "Sem título", de Antonio Tarsis, em exibição no Cais do Porto durante a 13ª Bienal do Mercosul (2022), em Porto Alegre. Foto: divulgação
2) Temos percebido um movimento de olhar para dentro, entendendo que o regional também é universal. Essa ideia estará refletida na curadoria?
Acredito que tudo é regional e, ao mesmo tempo, universal. Eu sou do Rio de Janeiro, fui criado em Jacarepaguá e, se alguém quiser me ler pelo viés regional, pode fazê-lo. Mas essas categorizações se interseccionam. Com a capacidade de conexão proporcionada pela internet, conseguimos pesquisar e acessar artistas que antes não alcançávamos sem necessariamente viajar. Há uma atenção crescente para narrativas contra-hegemônicas, vindas de lugares vistos como periféricos. Isso permite que o Brasil realize projetos cada vez mais amplos, como o Fullgás, que inclui artistas do país inteiro, muitos dos quais nunca haviam exposto no eixo Rio-São Paulo. A Bienal do Mercosul reflete essa perspectiva, trazendo também artistas da Tailândia, da China, de Taiwan, que anos atrás talvez não estivessem nesse circuito devido às limitações de pesquisa. Mas essa discussão não é nova. O que vem acontecendo é um esforço mais consciente nas exposições e projetos artísticos para embaralhar narrativas e repensar fronteiras.

Exposição "Fullgás" (2024), com curadoria geral de Raphael Fonseca, no CCBB RJ. Foto: Lua Morales
3) Esta Bienal foi adiada pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. A emergência climática estará presente nesta edição?
A emergência climática é um dos tópicos da Bienal, mas não o único. É importante destacar que essa discussão já fazia parte da Bienal antes das enchentes. Claro que a catástrofe nos fez rever algumas obras e espaços expositivos, levando os artistas a repensarem suas propostas. É impossível não falar de mudanças climáticas e das tragédias que surgem na nossa vida, nos engolindo num estalar de dedos. Tivemos enchentes no Brasil, assim como houve incêndios florestais na Califórnia. São tragédias anunciadas que resultam de pequenos estalos que, com o tempo, culminam em eventos catastróficos. Esse trágico está presente na Bienal de diferentes formas, e não apenas em relação ao clima.

Obra "Ar", de José Bento, em exibição no Cais do Porto durante a 13ª Bienal do Mercosul (2022), em Porto Alegre. Foto: divulgação
4) Como curador residente fora do Brasil, atuando no Denver Museum e participando da trienal de artes Counterpublic, no Missouri, como você percebe o intercâmbio cultural entre o Brasil e o exterior? Ainda existem estereótipos associados ao brasileiro ou latino nessa arena global?
Eu sempre acho que o Brasil poderia trocar mais, mas, por ser um país gigantesco e com artistas incríveis, às vezes se fecha em si mesmo, como acontece com outras nações de grande território, como os EUA, a Rússia e a Índia. Ganhamos muito quando trocamos com outros lugares, não apenas na América Latina, mas em qualquer parte do globo.
Faltam oportunidades para artistas, curadores, galeristas e colecionadores saírem do Brasil e receberem pessoas de fora. Quem não vem de um meio privilegiado enfrenta mais dificuldades. Faltam bolsas e investimentos públicos e privados.
Quanto aos estereótipos, eles existem. E é curioso colocar brasileiro e latino na mesma frase, pois nem sempre o Brasil se identifica como parte da América Latina. No discurso político estadunidense, por exemplo, latino geralmente se refere aos hispânicos. O Brasil ocupa um lugar muito peculiar. Na arte, há uma expectativa de que artistas brasileiros falem explicitamente sobre o Brasil. Um pintor abstrato pode encontrar mais dificuldade para se firmar do que um artista que trabalha com narrativas sociais. Sim, há muitos estereótipos, mas acho que a vida é longa e as oportunidades são variadas. Precisamos mostrar para um público estrangeiro que muitas coisas compõem essa noção de Brasil. E que é possível conectar a produção brasileira a questões globais, aproximando-a de discussões de lugares como os Emirados Árabes, a China, o Paraguai ou as periferias dos Estados Unidos.

No Denver Art Museum, a exposição "Sandra Vásquez de La Horra: The Awake Volcanoes" (2024), com curadoria de Raphael Fonseca. Foto: Eric Stephenson
5) Em 2023 e 2024, você foi reconhecido como uma das cem pessoas mais influentes nas artes visuais pela revista ArtReview. O que esse reconhecimento significa para você?
Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Venho de um contexto de classe trabalhadora e, embora sempre tenha acompanhado a ArtReview, jamais cogitei estar ali. Foi uma surpresa e o fruto de muito trabalho. Por outro lado, é uma grande miragem. As pessoas acham que esse tipo de reconhecimento assegura muitas oportunidades. Claro, abre portas, mas a realidade é que você precisa continuar trabalhando, conectando-se e se movimentando. Eu sigo sendo uma pessoa que não vem de um privilégio familiar ou de contatos. Sou a primeira pessoa da minha família a fazer universidade. Ser incluído na lista é gratificante, mas não é uma linha de chegada. É um trampolim para novos projetos.

Exposição "Raio que o Parta" (2022), no Sesc 14 Bis, com curadoria geral de Raphael Fonseca. Foto: Rafael Salim.
6) Quais foram as motivações do projeto "1 curadxr, 1 hora"? Pretende retomá-lo?
O projeto surgiu do tédio e da solidão pandêmica, mas também da percepção de que curadores no Brasil têm poucas oportunidades de troca. A profissão é precária e o mercado nacional é restrito. Era um projeto sobre querer aprender com os outros e entender as biografias das pessoas. Aprendi muito e fiz até amigos nesse processo. Entrevistei 106 curadores, mas ainda tenho uma longa lista de pessoas que gostaria de entrevistar. Foi uma experiência enriquecedora e transformadora, que gerou um arquivo de pesquisa usado até hoje. Adoraria retomar o projeto se tivesse tempo. Talvez um dia.