Artistas em movimento: por onde andam nossas apostas

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Beatriz Almeida

19 fev 2026

Acima: Juliana dos Santos, vista da 36a Bienal de São Paulo, 2025. © Erika Mayumi / Cortesia Galeria Luisa Strina

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De 2023 a 2026, a SP-Arte reuniu, por meio de editoriais publicados no início de cada ano, artistas para ficar de olho, selecionados por curadores, outros artistas e especialistas do circuito. A cada ano, esses nomes apontaram para trajetórias em formação que, pouco depois, passaram a ganhar visibilidade no Brasil e no exterior em exposições individuais e coletivas, residências artísticas e incorporações em acervos institucionais.


Neste editorial, revisitamos parte desse grupo para observar como essas histórias se desdobraram, acompanhando percursos que hoje se firmam no cenário contemporâneo. A seleção foi feita pela equipe SP-Arte e os artistas apresentados atendem a pelo menos quatro dos critérios a seguir: exposição institucional coletiva, exposição institucional individual, exposição individual em galeria, exposição coletiva em galeria, participação em uma bienal de arte, seleção para residência artística internacional e obra presente em coleção de museu.


Além dos destaques reunidos a seguir, o projeto também contemplou os artistas Arorá, arth3mis, Arthur Palhano, Ayla Tavares, Daniel Frota de Abreu, Daniel Jorge, Diego Mouro, Frank Baniwa, George Teles, iah bahia, Josi, Juan Casemiro, Kaya Agari, Larissa de Souza, Lucélia Maciel, Marcus Deusdedit, Mariana Rocha, Mayara Ferrão, Rafaela Kennedy, Renan Teles, Roxinha Lisboa e Siwaju Lima.

Retrato de Darks Miranda. © Katalin Deér / Cortesia Danielian

Retrato de Darks Miranda. © Katalin Deér / Cortesia Danielian

Darks Miranda (Fortaleza, CE, 1985)


Indicada em 2023 pela curadora Ana Roman como uma das apostas do ano, Darks Miranda transformou rapidamente a expectativa em um percurso de crescente reconhecimento institucional. Representada pelas galerias Sardenberg e Danielian, a artista passou a circular de forma contínua entre o Brasil e o exterior, com exposições em países como Suíça, Islândia, México, Reino Unido e Bélgica, além de integrar, em 2025, a 14ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.


Sua prática articula vídeo, escultura, performance e instalação a partir do imaginário da ficção científica, do uso de montagens e imagens de arquivo. Entre ficção e realidade performática, Darks constrói situações e ambientes que refletem sobre os limites das ideias modernas de futuro, progresso e transformação.


Em 2024, apresentou a individual “Aurora violenta” na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, e participou de uma residência artística na Stiftung Sitterwerk, em St. Gallen, na Suíça. No ano seguinte, foi uma das vencedoras do Prêmio PIPA e recebeu o “Grande Prêmio de Melhor Filme” no Cine Esquema Novo, em Porto Alegre, ampliando o alcance de uma produção que transita entre as artes visuais e o cinema.

Darks Miranda, performance "Equilíbrio de abacaxi enquanto a água subia", Sitterwerk / Kunstgiesserei, St. Gallen, Suíça, 2024. © Andri Vöhringer / Cortesia da artista

Darks Miranda, performance "Equilíbrio de abacaxi enquanto a água subia", Sitterwerk / Kunstgiesserei, St. Gallen, Suíça, 2024. © Andri Vöhringer / Cortesia da artista

"A indicação da Ana Roman em 2023 foi interessante especialmente porque veio de uma curadora que já vinha acompanhando o meu trabalho há um tempo. Nesse sentido, é super gratificante poder contar com interlocuções que podem se aprofundar ao longo da trajetória de uma artista. Desde então, posso dizer que a minha prática se desdobrou mais intensamente na direção da escultura em cerâmica - um material menos heterodoxo no meio. Ainda assim, tenho conseguido manter a experimentação com outros materiais e meios, como vídeo, instalação e performance, muitas vezes combinados. Percebi nos últimos anos que a mescla de materiais e linguagens é o que mais alimenta meu trabalho e meu desejo de continuar fazendo arte."

– Darks Miranda

Darks Miranda, "Por trinta dias, molhe com leite de vaca no qual três morcegos tenham se afogado", 2023. © Ana Pigosso / Cortesia da artista

Darks Miranda, "Por trinta dias, molhe com leite de vaca no qual três morcegos tenham se afogado", 2023. © Ana Pigosso / Cortesia da artista

davi de jesus do nascimento (Pirapora, MG, 1997)


Indicado em 2023 pelo curador Thierry Freitas como uma das apostas do ano, davi de jesus do nascimento, hoje representado pela Mitre Galeria, vem ampliando de forma consistente sua presença no circuito institucional. Em poucos anos, sua produção passou a ocupar espaços que vão do Museu Paranaense (PR) à Oficina Francisco Brennand (PE), além de exposições em cidades como Nápoles (Itália) e Copenhague (Dinamarca).

Retrato de davi de jesus do nascimento. © Caio Esgario / Cortesia Mitre Galeria

Retrato de davi de jesus do nascimento. © Caio Esgario / Cortesia Mitre Galeria

Atravessado pela experiência de viver às margens do Rio São Francisco, onde nasceu e foi criado, e por uma escrita que transita entre imagem e poesia — materializada também no livro “Aluvião” (Fósforo, 2025) —, seu trabalho constrói uma poética reconhecível na arte contemporânea brasileira. Em uma prática que mescla desenho, pintura, objeto, fotografia, instalação, vídeo, performance e escrita, o artista investiga questões ecológicas, sociais e subjetivas, evocando memórias da água, ciclos da terra e rituais da passagem.


Em 2026, esse percurso encontra um momento importante com sua individual no Inhotim, no aniversário de 20 anos da instituição, por meio de uma instalação inspirada nas margens do rio onde o artista nasceu, retomando elementos centrais de sua pesquisa em escala ampliada, além de realizar sua primeira individual na Mitre Galeria, em São Paulo.

davi de jesus do nascimento, "furor de peito e remela", 2022, "embarcações a vela com derranhos" da série "gritos de alerta". © Cortesia Mitre Galeria

davi de jesus do nascimento, "furor de peito e remela", 2022, "embarcações a vela com derranhos" da série "gritos de alerta". © Cortesia Mitre Galeria

“Continuo mergulhado no rio que banha minha obra e mantém acesa a força que sorve de toda correnteza. Ele, o rio, me mostra há uma década onde devo ir com o semblante de embarcações na cacunda. Nas últimas estações tenho experimentado navegar pra cima, furando o céu, enquanto crio escorpiões em meu quintal, junto com carrancas, fotografias de enchente, tamarindos temporão e caxumbas vazias.”

— davi de jesus do nascimento

davi de jesus do nascimento, "porto seco", 2019. © Bicho Carranca / Cortesia Mitre Galeria

davi de jesus do nascimento, "porto seco", 2019. © Bicho Carranca / Cortesia Mitre Galeria

Diambe (Rio de Janeiro, RJ, 1993)


Aposta de 2023 indicada pelo curador Victor Gorgulho, Diambe, artista com representação da Simões de Assis, rapidamente expandiu sua presença no circuito nacional e internacional. Desde então, apresentou exposições individuais em São Paulo, Nova Iorque e Zurique, participou de mostras coletivas como “Histórias da Diversidade LGBTQIA+”, no Masp; “Ensaio para o Museu das Origens”, no Itaú Cultural; e “Ancestral: As Afro-Américas”, com itinerância pelo Brasil. Foi selecionada para residências como a La Becque Résidence d’artistes, em La Tour-de-Peilz, Suíça, e passou a integrar coleções de instituições como o Masp, a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte do Rio e o El Espacio 23, em Miami.

Retrato de Diambe © Aurélien Haslebacher / Cortesia Galeria Simões de Assis

Retrato de Diambe © Aurélien Haslebacher / Cortesia Galeria Simões de Assis

Sua prática mistura instalação, pintura, filme, performance e escultura em pesquisas sobre transformação da paisagem, diáspora alimentar e arquivos antropológicos. A partir de matérias vivas, têxteis e referências a arquiteturas e coreografias, Diambe constrói ambientes e seres fabulosos que tensionam as relações entre natureza, memória e poder, propondo formas de existência que escapam às lógicas de dominação humana.


Em 2026, esse percurso ganha ainda mais projeção internacional com a individual “Bees beings beans”, na Kunsthalle Basel, Suíça, além do destaque na lista “11 Artists Having Breakout Moments in 2026”, da Artsy, confirmando Diambe como um dos nomes mais potentes de sua geração no circuito global.

Diambe, "Hot peace cold war", 2025.  © Estúdio em Obra / Cortesia Galeria Simões de Assis

Diambe, "Hot peace cold war", 2025. © Estúdio em Obra / Cortesia Galeria Simões de Assis

“As feiras de arte são importantes espaços de encontro entre pessoas, línguas e valores. A SP-Arte, como uma das principais feiras das Américas, ao destacar artistas proeminentes e artistas aposta, também atua como uma bússola para curadores e colecionadores de arte contemporânea, inclusive de fora do Brasil. Isso é muito importante para nós, enquanto artistas, pois ajuda a afirmar a trajetória e o esforço dedicados ao nosso trabalho.”

— Diambe

Diambe, "Carambola e milágrimas II", 2025. ©Estúdio em Obra / Cortesia Galeria Simões de Assis

Diambe, "Carambola e milágrimas II", 2025. ©Estúdio em Obra / Cortesia Galeria Simões de Assis

Juliana dos Santos (São Paulo, SP, 1987)


Indicada em 2024 por Lorraine Mendes, Juliana dos Santos vem se afirmando como uma das vozes de sua geração na investigação das relações entre cor, tempo e espaço. Representada pela Luisa Strina, apresenta atualmente a individual “Temporã”, na Pinacoteca de São Paulo (em cartaz até 15 de março de 2026), e integrou a 36ª Bienal de São Paulo, após participar do Programa Público de Residência Artística no Sertão Negro, no contexto da 35ª Bienal, em 2023.

Retrato de Juliana dos Santos. ©  Erika Mayumi / Cortesia Galeria Luisa Strina

Retrato de Juliana dos Santos. © Erika Mayumi / Cortesia Galeria Luisa Strina

Sua prática se constrói por meio de instalações imersivas e do uso de pigmentos naturais, aquarela, tecidos e elementos orgânicos, em especial a flor “Clitoria ternatea”, com a qual desenvolve um processo contínuo de experimentação e colaboração. A partir desses materiais, cria campos cromáticos e ambientes sensoriais que fazem do tempo e da transformação da matéria os eixos centrais de sua pesquisa.


Além de mostras individuais como “Como terminar uma tese: o tempo da cor” (GDA, São Paulo, 2024), também participou de exposições coletivas como “Fartura” (Luisa Strina, 2025). Suas obras integram os acervos da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Centro Cultural São Paulo.

Juliana dos Santos, "Temporã", na Pina Contemporânea, 2025. © Erika Mayumi / Cortesia Galeria Luisa Strina

Juliana dos Santos, "Temporã", na Pina Contemporânea, 2025. © Erika Mayumi / Cortesia Galeria Luisa Strina

“Eu me sinto feliz com o reconhecimento do trabalho e ver como ele tem tocado as pessoas e chegado nas instituições mantendo sua natureza efêmera é vital pra mim. E isso revela a força sensível que ele adquiriu.”

— Juliana dos Santos

Juliana dos Santos, "Sem título", série "Sopro Aragem Viração", 2025. © Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Luisa Strina

Juliana dos Santos, "Sem título", série "Sopro Aragem Viração", 2025. © Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Luisa Strina

Marina Woisky (São Paulo, SP, 1996)


Indicada em 2023 por Guilherme Teixeira como uma das apostas do ano, Marina Woisky tem consolidado sua presença no circuito institucional e comercial. Representada pela Almeida & Dale, realizou exposições individuais no Brasil e no exterior, com destaque para “Pedras e bichos d’água” (Millan, São Paulo, 2023) e “Through The Garden Bars” (L.U.P.O, Milão, 2024), além de integrar, em 2024, o 38º Panorama da Arte Brasileira, organizado pelo MAM São Paulo no MAC USP.

Retrato de Marina Woisky. © Victor Affaro / Cortesia Galeria Almeida & Dale

Retrato de Marina Woisky. © Victor Affaro / Cortesia Galeria Almeida & Dale

Sua produção parte de imagens de ornamentos e objetos decorativos de origem orgânica, que são distorcidas e transpostas entre diferentes suportes até se transformarem em animais e paisagens híbridas. Situadas entre a bi e a tridimensionalidade, a pintura e a escultura, suas obras tensionam noções de representação e artificialidade.


Em 2025, Woisky integrou a seção “Transe”, com curadoria de Lucas Albuquerque, na SP-Arte Rotas, além de ter trabalhos incorporados à coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Marina Woisky, "Grade com pássaro", 2025. © Julia Thompson / Cortesia Galeria Almeida & Dale

Marina Woisky, "Grade com pássaro", 2025. © Julia Thompson / Cortesia Galeria Almeida & Dale

“​​Agradeço ao Guilherme Teixeira pela indicação em 2023, pois isso ampliou a visibilidade do meu trabalho e fez com que novas conversas, exposições e parcerias surgissem, abrindo um campo de possibilidades que sigo desenvolvendo e aprofundando.”

— Marina Woisky

Marina Woisky, "Cavalos se abraçando", 2025. © Sergio Guerini / Cortesia Galeria Almeida & Dale

Marina Woisky, "Cavalos se abraçando", 2025. © Sergio Guerini / Cortesia Galeria Almeida & Dale

Talles Lopes (Anápolis, GO, 1997)


Indicado em 2023 pelo curador Thierry Freitas como uma das apostas do ano, Talles Lopes vem aprofundando um percurso marcado pela circulação internacional e pelo diálogo entre arte e arquitetura. Representado pela Cerrado Galeria, realizou residências no The Watermill Center (2024) e no Institute for Public Architecture (2023), ambos em Nova Iorque, além do Proyecto URRA, em Buenos Aires (2023).

Retrato de Talles Lopes. © Adrian Balseca / Cortesia Cerrado Galeria

Retrato de Talles Lopes. © Adrian Balseca / Cortesia Cerrado Galeria

Formado em arquitetura e cofundador do Barranco Ateliê, em Anápolis, Goiás, o artista desenvolve uma prática que tensiona os vínculos históricos entre design, arquitetura e colonialidade. A partir de arquivos, projetos e repertórios visuais do modernismo brasileiro, investiga os aspectos formais e sociopolíticos do projeto de modernidade, propondo leituras críticas sobre as heranças coloniais inscritas na paisagem construída.


Entre suas exposições recentes, destacam-se as individuais “O outro do outro” (Institute for Public Architecture, Nova York, 2023) e “Paisagem Aclimatada” (Cerrado Galeria, Goiânia, 2024), além de participações em mostras como “Constituinte do Brasil Possível” (Conselho Nacional de Justiça, Brasília, 2025), “Concretos” (MUSAC, Espanha, 2023) e “Brasília: a arte do planalto” (Museu Nacional da República, 2024).

Talles Lopes, exposição "Vaivém", 2019,  com curadoria Raphael Fonseca, no CCBB DF. © Joana França / Cortesia Cerrado Galeria

Talles Lopes, exposição "Vaivém", 2019, com curadoria Raphael Fonseca, no CCBB DF. © Joana França / Cortesia Cerrado Galeria

"A indicação em 2023 com certeza me tornou mais próximo da feira e do contexto de arte no sudeste, me fazendo perceber o programa da SP-Arte para além das dinâmicas de mercado, mas como uma plataforma possível para o intercâmbio com outros agentes do circuito de arte. Desde então tenho me interessado em acompanhar os ecossistemas de arte que vão sendo ativados em torno das atividades da SP-Arte."

— Talles Lopes

Talles Lopes, "Terra non descoperta", 2024. © Cortesia Cerrado Galeria

Talles Lopes, "Terra non descoperta", 2024. © Cortesia Cerrado Galeria

Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível. Bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade. Integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves. Há seis anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é Especialista em Comunicação da SP-Arte.