Transe
SP-Arte Rotas 2025

Transe

Transe, com curadoria de Lucas Albuquerque, propõe uma imersão em um território ambíguo, onde a figuração se desfaz e o não-figurativo ganha corpo. Trata-se de um campo visual em constante desvio, onde gesto, corpo, memória e sensibilidade se entrelaçam de forma indisciplinada. A mostra reúne trabalhos inéditos de cinco artistas com diferentes origens e trajetórias: Caio Carpinelli (1993, São Paulo, Brasil), Emilia Estrada (1989, Córdoba, Argentina), Fernão Cruz (1995, Lisboa, Portugal), Marina Woisky (1996, São Paulo, Brasil) e Marlan Cotrim (1993, Goiânia / Recife, Brasil).


“Transe nasce da vontade de reunir artistas que problematizam tanto a figuração e a abstração, em algo que chamo de não-figuração, como uma dupla negação”, conta Lucas Albuquerque. “Os trabalhos presentes na seção não pretendem fixar formas ou sentidos. Pelo contrário, atuam como passagens. Como campos de energia onde imagem, corpo, história e matéria estão sempre em trânsito, fluindo para além da binariedade pendular, entre figuração e abstração”, explica o curador.


Retrato de Lucas Albuquerque. © Gabi Carrera

Retrato de Lucas Albuquerque. © Gabi Carrera

“Transe traduz o espírito do Rotas: provocar deslocamentos, promover encontros e imaginar futuros possíveis”, diz Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte.


Mais do que um projeto sobre estilo ou tendência, Transe se apresenta como um estado de atenção sensível, uma travessia. Ao reunir artistas cujas práticas fogem das categorias rígidas da arte contemporânea, Lucas Albuquerque propõe uma experiência visual e política que reverbera a própria proposta da SP-Arte Rotas: deslocar, transpor, reinventar.


“Esses artistas criam trabalhos que habitam zonas de ambiguidade, como um sussurro entre o que é dito e o que escapa. Essa é a potência de Transe”, conclui Albuquerque.

Os artistas e seus trabalhos


Caio Carpinelli (São Paulo, Brasil)

Yehudi Hollander-Pappi

Retrato de Caio Carpinelli. © Divulgação

Retrato de Caio Carpinelli. © Divulgação

Nascido em 1993 em São Paulo, é um artista cuja trajetória se desdobra na interseção entre pintura, desenho e física. Seu trabalho dialoga com a tradição metafísica e investiga os limites da linguagem abstrata, tendo o preto como elemento central; não como ausência, mas como matéria ativa que convoca luz e percepção. Carpinelli cria superfícies que absorvem e refletem, tensionando o olhar e provocando reações emocionais intensas. Seu domínio técnico, aliado a uma pesquisa poética profunda, transforma o gesto mínimo em experiência transcendente. Atualmente, o artista é representado pela galeria Yehudi Hollander-Pappi, em São Paulo.


Em Transe, Carpinelli apresenta uma pintura que se desdobra no espaço, incorporando elementos tridimensionais como colunas e vazios. A obra é inspirada no experimento da dupla fenda, que demonstra como a luz se comporta de forma diferente quando observada, e articula formas circulares, fendas e pigmentos pretos ancestrais em uma instalação que ativa o olhar. Ao explorar a ambiguidade entre presença e ausência, visível e invisível, sua proposta convida o público a uma experiência sensorial e reflexiva, em que o tempo e a percepção se deslocam continuamente.

Caio Carpinelli, "Sem título", 2025. © Estúdio em Obra

Caio Carpinelli, "Sem título", 2025. © Estúdio em Obra

Emilia Estrada (Córdoba, Argentina / Rio de Janeiro, Brasil)

Portas Vilaseca

Retrato de Emília Estrada. © Renato Mangolin

Retrato de Emília Estrada. © Renato Mangolin

Emilia Estrada, nascida em 1989 em Córdoba, Argentina, vive e trabalha no Rio de Janeiro desde 2014. Artista imigrante e descendente de palestinos, sua obra é atravessada por questões de deslocamento, ancestralidade e construção histórica. Formada em Artes Visuais pela Universidad Nacional de Córdoba e pela Universidade Federal Fluminense, foi também bolsista do programa de Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV Parque Lage. Sua produção questiona as lacunas da história oficial e se articula a partir da fricção entre arquivos, iconografias e cartografias, propondo leituras críticas da ciência e da representação. O modo como sua origem latino-palestina repercute em uma pesquisa que tensiona a colonização dos céus e da terra, insere sua poética em uma constelação maior de artistas que desconstroem hegemonias visuais. Atualmente, a artista é representada pela galeria Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro.


Em Transe, Emilia apresenta uma série de desenhos de observação da superfície lunar, realizados com carvão sobre linho, seda e veludo. As texturas desses tecidos ecoam paisagens sensoriais e simbólicas, que se desdobram em mapas visuais onde figura e abstração se confundem. As molduras em folha de ouro, inspiradas em cartografias antigas, não funcionam como ornamento, mas como estrutura narrativa que orienta a leitura da imagem. Suas obras instauram um ritmo contemplativo e poético, em que a Lua — esse território já colonizado por narrativas científicas e imaginárias — é revista sob um olhar migrante, fabular e político.

Emilia Estrada, "Observação à sombra alta n2", 2025. © Cortesia

Emilia Estrada, "Observação à sombra alta n2", 2025. © Cortesia

Fernão Cruz (Lisboa, Portugal)

Cristina Guerra

Retrato de Fernão Cruz. © Nuno Fox

Retrato de Fernão Cruz. © Nuno Fox

Nascido em 1995 em Lisboa, Fernão Cruz é uma das vozes mais proeminentes da nova geração de artistas portugueses. Licenciado em Pintura pela FBAUL, também estudou na Facultat de Belles Arts da Universitat de Barcelona. Sua prática se expande entre pintura, escultura, assemblage e instalação, com ênfase em temas como memória, desejo, luto e identidade. Seu trabalho integra coleções importantes como Fundação Calouste Gulbenkian e Culturgest, e tem sido exposto em instituições de destaque como o CAM Gulbenkian. O que marca sua produção é a potência de uma investigação íntima e sensível da condição humana, conduzida por meio de formas híbridas e materiais que habitam o cotidiano. Atualmente, o artista é representado pela galeria Cristina Guerra, em Lisboa.


Durante residência artística em São Paulo, Fernão Cruz desenvolveu para Transe um conjunto de esculturas que exploram o conceito de "caixa" como símbolo de deslocamento e contenção. Utilizando materiais como papelão, tecidos, objetos de brechós e elementos de construção civil, o artista ficcionaliza o próprio tempo ao expandir narrativas que mesclam suas experiências pessoais com as dos antigos donos de cada objeto recuperado. Suas caixas são ao mesmo tempo frágeis e densas, revelando histórias ocultas e afetos comprimidos. As esculturas propõem uma poética do transporte, evocando deslocamentos físicos e psíquicos, e questionando o próprio circuito da arte enquanto mercadoria e linguagem.

Fernão Cruz, "Queda", 2025. © Estúdio em Obra

Fernão Cruz, "Queda", 2025. © Estúdio em Obra

Marina Woisky (São Paulo, Brasil)

Almeida & Dale

Retrato de Marina Woisky. © Ana Pigosso

Retrato de Marina Woisky. © Ana Pigosso

Marina Woisky, nascida em 1996 em São Paulo, é artista visual e mestranda em Artes Visuais pela UNESP. Indicada pelo ArtReview como um dos nomes promissores da arte contemporânea em 2025, também participou do 38º Panorama da Arte Brasileira (MAM/SP) em 2024. Sua obra transita entre fotografia, escultura e pintura, a partir de uma técnica singular que transforma imagens de ornamentos antigos em corpos metamórficos, por meio de costura, impressão em tecido e preenchimento com argamassa, manta acrílica e bronze. Sua obra se destaca pela habilidade de evocar imagens vindas de um tempo e espaço indefinidos, em que realidade e imaginação se confundem. Atualmente, a artista é representada pela galeria Almeida & Dale, em São Paulo.


Em Transe, Marina apresenta obras que se desdobram como paisagens fantásticas, evocando criaturas e ambientes sem origem ou destino certos. As formas geradas a partir da compressão e distorção de imagens ornamentais ganham presença tátil e densidade simbólica. Em um jogo entre o bidimensional e o tridimensional, sua obra questiona o estatuto da imagem e propõe uma experiência visual que é também temporal: exige tempo de observação e disponibilidade do olhar. Em sua pesquisa, o tempo atua como agente de transformação estética e conceitual, gerando corpos que parecem suspensos entre memória, mito e matéria.

Marina Woisky, "Cachorros em C", 2025. © Estúdio em Obra

Marina Woisky, "Cachorros em C", 2025. © Estúdio em Obra

Marlan Cotrim (Goiânia / Recife, Brasil)

Amparo 60

Retrato de Marlan Cotrim. © Guilherme Allain

Retrato de Marlan Cotrim. © Guilherme Allain

Nascida em 1993 em Goiânia e atualmente vivendo em Recife, Marlan Cotrim é artista transdisciplinar com origem na dança e formação em Design de Moda. Sua obra transita entre pintura, performance, vídeo, vestimenta, têxtil e escultura, articulando uma poética do corpo em constante deslocamento. Após uma década dedicada à dança, Marlan iniciou sua produção visual com tapeçarias rasgadas como gesto de cura simbólica, expandindo depois sua pesquisa para pinturas que tremem, borram e se dissolvem. Inspirada por pensadores como Édouard Glissant e Nêgo Bispo, sua produção aborda temas como território, ancestralidade, transição e germinação. Atualmente, a artista é representada pela galeria Amparo 60, em Recife.


Para Transe, Marlan apresenta obras da série "Corpografias em trânsito", que problematizam a ideia de fronteira — geográfica, identitária e pictórica — por meio de borrões, rastros e gestos líquidos. Trabalhando com tecidos, tintas, estopas e carvão, suas pinturas evocam paisagens que se movem e se transformam. A obra "Nessa parte do caminho que viramos água" condensa sua proposta de uma pintura encarnada, que se desmancha e se recompõe em novas formas de existência. Marlan fabula imagens em trânsito, recusando definições fixas e propondo uma estética de afeto, fluidez e coexistência, em que o corpo é rio, floresta, sopro e silêncio.

Marlan Cotrim, "É na descida da ladeira tem água que molha pé", 2025. © Danilo Galvão

Marlan Cotrim, "É na descida da ladeira tem água que molha pé", 2025. © Danilo Galvão