Além do quadro na parede

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Karina Sérgio Gomes

29 jan 2026

Acima: Público na SP-Arte Rotas em 2025. © Divulgação

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O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu que o colecionador tenta salvar as coisas da dispersão do mundo, criando para elas uma ordem própria. Três colecionadores ouvidos pela SP–Arte mostram que essa ordem não precisa permanecer confinada ao espaço privado. Eles não se limitam ao gesto da aquisição e atuam em três frentes complementares: a mediação ativa com instituições, a troca direta com artistas e a abertura da coleção à experiência pública da arte.


“Colocar um quadro na parede não é colecionar”, afirma Beatriz Yunes Guarita. “Colecionar é atuar em uma gama de atividades que envolvem a arte.” Presente em programas de patronato no Brasil e no exterior, ela defende que essa função exige a suspensão do ego: quem ocupa conselhos de museus precisa abdicar do desejo individual em favor do interesse comum.

A colecionadora Beatriz Yunes integra o Conselho de Administração da Amis du Centre Pompidou, sendo a primeira latino-americana a ocupar o cargo. © Divulgação.

A colecionadora Beatriz Yunes integra o Conselho de Administração da Amis du Centre Pompidou, sendo a primeira latino-americana a ocupar o cargo. © Divulgação.

Já Georgiana Rothier escolheu aproximar-se dos artistas utilizando recursos que antes seriam destinados à compra de obras para o financiamento de processos criativos. “É claro que, ao adquirir uma obra, eu contribuo para a cena artística”, observa. “Mas queríamos ir além, contribuir de forma mais direta.”


A colecionadora não está sozinha em seu movimento. Segundo o Art Basel & UBS Survey of Global Collecting 2025, cerca de um quarto dos colecionadores (26%) esperava se envolver em outras medidas filantrópicas, como um prêmio para artistas ou um programa de mentoria.


As feiras de arte, aliás, de acordo com o relatório, vêm sendo cada vez mais percebidas pelos colecionadores como espaços que extrapolam a lógica da transação e como ambientes de experiência estética e sociabilidade.



Os colecionadores Georgiana Rothier e Bernardo Faria são fundadores da residência artística Ybytu. © Ding Musa

Os colecionadores Georgiana Rothier e Bernardo Faria são fundadores da residência artística Ybytu. © Ding Musa

No Brasil, esse fenômeno é particularmente expressivo: o país registrou a maior parcela de gastos realizados em feiras entre todos os mercados pesquisados — 18% do total. O país concentra também o maior número de colecionadores que planejam ampliar sua presença em eventos de arte em 2026, com 69% indicando intenção de frequentar mais feiras e encontros do setor.


O documento aponta ainda que cerca de 70% dos colecionadores esperam doar obras para museus ou instituições de caridade no futuro. Quando a coleção se abre ao público, o impacto se multiplica. Para Orandi Momesso, cuidar de um acervo é também cuidar da cultura de um país. “As obras são salvaguardadas pelo colecionador, mas transcendem a sua existência”, diz.


O que une essas três trajetórias é a compreensão de que colecionar não é um fim em si mesmo. Mais do que reunir objetos, esses colecionadores constroem pontes entre quem cria, quem preserva e quem encontra a arte pela primeira vez.

O colecionador Orandi Momesso criou o Parque Geminiani Momesso, em Ibiporã, no norte do Paraná, com o objetivo de disponibilizar sua coleção ao público. © Divulgação

O colecionador Orandi Momesso criou o Parque Geminiani Momesso, em Ibiporã, no norte do Paraná, com o objetivo de disponibilizar sua coleção ao público. © Divulgação

“O critério não é o meu gosto, mas o que é relevante para a instituição”


A primeira votação de Beatriz Yunes Guarita no patronato do Centre Georges Pompidou, em 2014, colocava em disputa duas obras: uma de uma artista brasileira e outra de uma artista paraguaia. A escolha parecia óbvia. Não foi.


“É claro que você votou na obra brasileira”, comentou Bernard Blistène, então presidente do museu. Beatriz respondeu sem hesitar: “Não votei. Não é porque sou brasileira ou porque tenho obras da artista na minha coleção que vou querer vê-la no museu. Se não for a obra mais importante daquela artista — a que melhor representa seu trabalho e faz sentido dentro do acervo —, eu não voto.”

A exposição "Atos Modernos", realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, contou com aporte financeiro da Coleção Ivani e Jorge Yunes para a contratação da curadora Horrana de Kássia Santos (de vermelho). © Levi Fanan/cortesia Pinacoteca do Estado de São Paulo

A exposição "Atos Modernos", realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, contou com aporte financeiro da Coleção Ivani e Jorge Yunes para a contratação da curadora Horrana de Kássia Santos (de vermelho). © Levi Fanan/cortesia Pinacoteca do Estado de São Paulo

Para Beatriz, atuar no patronato de uma instituição exige um exercício constante de distanciamento. “O critério não é o meu gosto, mas o que é relevante para a instituição”, explica.


A pergunta que frequentemente surge ao convidar alguém para integrar um patronato — “o que eu recebo em troca?” — revela, para ela, um equívoco. “O retorno está lá na frente: um país eticamente melhor, culturalmente mais preparado. Não é algo imediatista."


Além de dirigir a coleção de sua família — que leva os nomes de seus pais, Jorge e Ivani Yunes, e figura entre as mais relevantes do país —, Beatriz ocupa assentos em conselhos de instituições como o Centre Georges Pompidou, o Palais de Tokyo, o Malba, a Pinacoteca e o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Os convites se multiplicam, mas se não há espaço para participação efetiva, prefere recusar. “Se não for para estar presente participando, não faz sentido.”


Ao perceber que o olhar do Pompidou para a América Latina se restringia a artistas já legitimados pelo mercado, Beatriz interveio. Propôs financiar a atuação de um curador com experiência local, capaz de ampliar o espectro das aquisições. Após insistência, o curador Paulo Miyada foi comissionado para a função. Após a entrada do brasileiro, entraram para o acervo obras de nomes como Jaider Eisbel, Hudinilson Jr, Jonathas Andrade e Regina Silveira.

Em 2023, Beatriz Yunes Guarita doou uma obra de Arjan Martins ao acervo do Centre Georges Pompidou. © Divulgação

Em 2023, Beatriz Yunes Guarita doou uma obra de Arjan Martins ao acervo do Centre Georges Pompidou. © Divulgação

Colecionar é partilhar, e partilhar apenas no âmbito privado é muito pouco, resume Beatriz Yunes

Essa lógica se estende às doações. Recentemente, a família destinou obras e acervos a instituições como o Museu Oscar Niemeyer, o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, a Biblioteca da Unicamp e o Museu do Ipiranga. Em todos os casos, Beatriz acompanha os desdobramentos, sugere exposições e indica curadores. Uma coleção que permanece restrita à reserva técnica, argumenta, não circula — e não produz sentido. “Colecionar é partilhar”, resume. “E partilhar apenas no âmbito privado é muito pouco.”


A troca com os artistas é mais importante do que o objeto

Georgiana Rothier e Bernardo Faria sempre mantiveram relações próximas com galerias e instituições — foram patronos do Museu de Arte Moderna e da Pinacoteca de São Paulo. Ainda assim, sentiam que algo faltava: uma relação mais direta com os artistas.


“Nós colecionamos arte de artistas que estão vivos”, explica Georgiana. “O que nos interessa é a troca, a pesquisa. Esse tipo de relação não existia quando comprávamos uma obra na galeria.”


A ideia de criar um projeto voltado a esse diálogo tomou forma durante um período sabático em Nova York, entre 2017 e 2019, quando Georgiana atuou como voluntária no Annex B, residência que recebia artistas brasileiros na cidade.


“Pude acompanhar a transformação desses artistas”, conta. “Não apenas por estarem em outro contexto, visitando museus e ampliando referências, mas também pelo acompanhamento curatorial.”

A artista brasileira Maíra Dietrich participou da residência artística da Ybytu em 2025. © Ding Musa

A artista brasileira Maíra Dietrich participou da residência artística da Ybytu em 2025. © Ding Musa

As conexões são, de longe, o que temos de mais valioso para oferecer, diz Georgiana Rothier, da residência Ybytu

De volta ao Brasil, o casal decidiu transformar um imóvel vago em São Paulo em uma residência artística, inicialmente pensada para receber artistas estrangeiros. Assim nasceu a Ybytu — palavra em tupi-guarani que significa vento. O nome ecoa a lógica da própria coleção, formada por obras que operam entre materialização e desmaterialização, presença e passagem do tempo.


Quando tudo estava pronto para receber os primeiros residentes, em 2020, a pandemia impôs uma mudança de rota. Em vez de adiar o projeto, optaram por iniciar a residência com artistas brasileiros que já haviam demonstrado interesse.


Hoje, a Ybytu funciona em um modelo híbrido: artistas brasileiros participam por meio de chamada aberta, enquanto estrangeiros são convidados. Além de estadia, os residentes recebem uma verba para custear suas despesas básicas e acompanhamento curatorial de Luiza Teixeira de Freitas, curadora da coleção do casal.

A artista nipo-brasileira Asuka Anastacia Ogawa também participou da residência artística da Ybytu em 2025. © Ding Musa

A artista nipo-brasileira Asuka Anastacia Ogawa também participou da residência artística da Ybytu em 2025. © Ding Musa

O foco não está na produção do artista, que não precisa entregar qualquer peça ao final da residência; mas na criação de conexões com curadores, pesquisadores, colecionadores e outros agentes do circuito. “As conexões são, de longe, o que temos de mais valioso para oferecer”, diz Georgiana.


Parte do orçamento antes destinado à aquisição de obras passou a sustentar a residência, fazendo com que a coleção cresça em um ritmo mais lento. “Neste momento, o espaço de produção de pensamento e a troca com os artistas são mais importantes do que o objeto”, afirma.


“Vão-se os dedos, ficam os anéis”

Orandi Momesso costuma dizer que nasceu para viver entre obras de arte. Ainda criança, recortava imagens de revistas e as colava nas paredes do quarto. “Sempre fui muito curioso, gostava de visitar museus. Era um chamado”, relembra.


Hoje, esse chamado se materializa no P_Arte | Parque Geminiani Momesso, um território cultural de 1,6 milhão de metros quadrados, com 12 pavilhões, que reúne cerca de 7 mil obras e oferece um amplo panorama da arte brasileira em diálogo com a natureza — mais de 250 mil árvores da Mata Atlântica foram plantadas no local. O conjunto inclui trabalhos de artistas como Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Ângelo Venosa e Iole de Freitas.

Escultura de Siron Franco no Parque Geminiani Momesso. © Divulgação

Escultura de Siron Franco no Parque Geminiani Momesso. © Divulgação

Para Orandi Momesso, cuidar de uma coleção é cuidar da história do patrimônio do país

“A arte transforma as pessoas”, afirma Orandi. “Quando você se depara com uma obra que te arrebata, você se transforma. É isso que eu espero que aconteça com quem visita o parque.”


Desde 2025, a instituição, localizada em Ibiporã, no norte do Paraná, opera em regime de abertura gradual, com foco na recepção de escolas da região. A abertura ao público está prevista para o final de 2026.


Até o momento, cerca de 6 mil alunos já participaram do programa educativo. Para viabilizá-lo, foi estruturada a formação de um grupo de jovens educadores, preparados para acolher e informar os visitantes sobre o acervo. “Nós os preparamos para receber o público e falar sobre os artistas. Isso já tem provocado transformações visíveis na região”, conta.


A decisão de criar o parque nasceu de uma experiência de perda. Com a morte prematura do sobrinho Luciano Momesso, que o ajudava a cuidar do acervo, a questão sobre o destino da coleção tornou-se incontornável. “Sempre achei que eu era imortal”, diz. “Quando ele se foi, a ideia de finitude se impôs.”

Escultura de Marcello Nitsche no Parque Geminiani Momesso. © Divulgação

Escultura de Marcello Nitsche no Parque Geminiani Momesso. © Divulgação

Para evitar que o conjunto de obras se dispersasse, Orandi criou o Instituto Luciano Momesso, hoje responsável pela manutenção da coleção e pela continuidade de seu legado. Afinal, aquilo que foi reunido ao longo do tempo constitui a verdadeira obra de um colecionador.


“Ver as pessoas felizes diante da minha coleção sempre me deu uma alegria enorme”, afirma. Antes mesmo da criação do parque, seu acervo já circulava por meio de empréstimos a museus, prática que considera um dever. Recentemente, parte da coleção integrou a exposição Pintar o Brasil, de José Antonio da Silva, no Museu de Grenoble, na França — após ter passado pela Fundação Iberê, em Porto Alegre, a mostra está em cartaz no MAC USP, em São Paulo, até março de 2026.


Cuidar de uma coleção, para Orandi, é cuidar da história do patrimônio do país. “As obras são salvaguardadas pelo colecionador, mas transcendem a sua existência”, resume. “Como eu sempre digo: vão-se os dedos, ficam os anéis.”


Karina Sérgio Gomes atua como jornalista e pesquisadora de artes visuais. Mestre em Artes Visuais e doutoranda em Arte e Educação pelo Instituto de Artes da Unesp, é enciclopedista da Enciclopédia Itaú Cultural. Participou de curadorias no Ateliê 397, no MAM-SP e no CCSP. E já colaborou com Rádio Novelo Apresenta, Folha de S.Paulo, Metrópoles, Estadão, Claudia, Veja SP e Neofeed.