Panorama do mercado de arte brasileiro

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Eduardo Simões*

18 fev 2025

Acima: Individual de Gustavo Prado no espaço temporário da Athena, em São Paulo. Sócios Eduardo e Filipe Masini planejam abrir uma filial na cidade. Foto: Divulgação

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Foram praticamente oito anos de voo às cegas. Sem um estudo sobre seu desempenho desde 2018, o mercado de arte brasileiro teve dificuldade de elencar pautas, estabelecer pleitos, articular-se tendo dados como lastro para suas argumentações. Ao longo de 2024, por exemplo, concentrou sua forças nos eventuais impactos da Reforma Tributária. Terminou o ano com uma vitória: a inclusão do setor em um regime especial de tributação, com alíquotas reduzidas.


O êxito se deve em boa parte à atuação do Coletivo 215 junto a setores dos ministérios da Fazenda, a agentes dos poderes Executivo e Legislativo. O grupo reuniu as duas maiores feiras de arte do país, a SP-Arte e a ArtRio, e entidades que representam os setores primário e secundário do mercado de arte, a Abact (Associação Brasileira de Arte Contemporânea) e a Agab (Associação de Galerias de Arte do Brasil).


Outra pauta do Coletivo teve êxito: a finalização e divulgação da sétima edição da pesquisa setorial, realizada pela Abact em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), no âmbito do projeto setorial Latitude. Em termos absolutos, os resultados foram positivos: o mercado movimentou R$ 2,9 bilhões em 2023, um aumento de 21% em relação ao ano anterior.

Victória Zuffo, presidente da ABACT – Associação Brasileira de Arte Contemporânea e sócia-fundadora da galeria Lume. Foto: Ana Pigosso

Victória Zuffo, presidente da ABACT – Associação Brasileira de Arte Contemporânea e sócia-fundadora da galeria Lume. Foto: Ana Pigosso

Fernando Ticoulat, diretor da Act Arte, empresa que coordenou a pesquisa sobre o mercado de arte. Foto: Divulgação

Fernando Ticoulat, diretor da Act Arte, empresa que coordenou a pesquisa sobre o mercado de arte. Foto: Divulgação

Os resultados de ordem qualitativa


Em seu recorte qualitativo, a 7ª Pesquisa Setorial do Mercado de Arte no Brasil 2024 confirmou tendências artísticas relacionadas a políticas de diversidade, inclusão, reparação que já vinham sendo medulares nas curadorias e seleções de artistas em exposições individuais e coletivas, montadas dentro e fora do Brasil. Nesse sentido, o estudo apontou “uma valorização geral de pautas identitárias e discursos multiculturalistas”, de “um foco especial em artistas afrodescendentes, indígenas, mulheres e LGBTQIA+”.


Do ponto de vista formal, identificou-se mais interesse “em torno da arte figurativa e da interseção entre arte, ciência e tecnologia, com destaque para a influência da inteligência artificial”. Por fim, temas ligados à sustentabilidade e à ecologia ocuparam a atenção do mercado. Conclui a pesquisa: “A crescente valorização de temas ambientais reflete a urgência das questões ecológicas globais e coloca o Brasil, com sua biodiversidade singular e papel essencial na preservação ambiental, como um território de relevância única para explorar essas narrativas.”

Nova sede da Gomide&Co, do galerista Thiago Gomide, inaugurada em 2023. Foto: Divulgação

Nova sede da Gomide&Co, do galerista Thiago Gomide, inaugurada em 2023. Foto: Divulgação

O mercado, segundo os galeristas


Desde 1997 no mercado, Thiago Gomide, da Gomide&Co, considera que as galerias brasileiras vêm passando por uma evolução contínua e estável – apesar do soluço na pandemia –, com aberturas de mais espaços expositivos, a profissionalização dos negócios, mas as questões tributárias ainda são um entrave para que uma galeria brasileira represente artistas de fora do Brasil, tornando o mecado mais doméstico, “pouco globalizado”.


Numa retrospectiva, vale também salientar que, de 2023 para cá, também temos assistido a uma intensa movimentação nacional e internacional das galerias brasileiras. Em maio daquele ano, foi aberta a galeria Cerrado, em Goiânia, uma aposta no mercado potencial do Centro Oeste. Em janeiro de 2024 foi a vez da paulistana Galatea, que abriu uma filial em Salvador (BA). Sócia-fundadora, Antonia Bergamin conta que um dos fatores impulsionadores da expansão foi a representação de José Adário dos Santos, artista baiano que havia inaugurado o espaço paulistano, em novembro de 2022, com uma individual.


“Aconteceu uma paixão pela cidade, pelas pessoas”, argumenta Antonia. Para além do impulso subjetivo, a Galatea tinha o desejo – algo espelhado em seu programa – de buscar nomes fora dos eixos tradicionais da arte. E, nesse sentido, a Bahia representa um manancial, especialmente no que se refere à produção artística afro-diaspórica da chamada “Roma negra”.

Sem um estudo sobre seu desempenho desde 2018, o mercado de arte brasileiro teve dificuldade de elencar pautas

Sócios da galeria Galatea, Tomás Toledo, Conrado Mesquita e Antonia Bergamin abriram uma filial em Salvador em 2024. Foto: Divulgação.

Sócios da galeria Galatea, Tomás Toledo, Conrado Mesquita e Antonia Bergamin abriram uma filial em Salvador em 2024. Foto: Divulgação.

A capital baiana não tem exatamente um mercado interno aquecido, tanto que o plano inicial era abrir uma espécie de pop-up em Salvador, no verão, aproveitando o grande fluxo de turistas. Mas, por sua vez, logo se compreendeu que a cidade também funciona como ponto estratégico no Nordeste para a acolhida e circulação de talentos de outros estados da região. Algo que se comprova, por exemplo, nas recorrentes ações, de caráter institucional, como residências, que o Pivô Salvador – iniciativa da associação Pivô - Arte e Pesquisa, de São Paulo – realiza na capital baiana desde meados de 2023.


“A gente trata este espaço em Salvador não como uma galeria tradicional, mas como um project space [espaço para projetos, em tradução livre do inglês], dedicado a experimentos, a parcerias, como a que fazemos atualmente na coletiva com a Fortes D’Aloia & Gabriel”, salienta. “E em julho será a vez de uma nova colaboração desta vez com a Luciana Brito, numa mostra com a Regina Silveira”.


Também a galeria carioca Athena buscou estender seu território de atuação ao abrir, em novembro do ano passado, um espaço expositivo temporário nos Jardins, numa parceria com a MOS incorporadora. Com o êxito da experiência, que deve se prolongar até o início de junho, os sócios da Athena, os irmãos Eduardo e Filipe Masini já buscam um endereço fixo na capital paulista.

Sede da Galeria Athena, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Sede da Galeria Athena, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Nesse movimento de nacionalização, a Mitre Galeria, fundada em 2023, acaba de abrir sua filial paulistana nos Jardins. Representante de artistas com carreiras em franca ascensão, como Luana Vitra, Aline Motta e Davi de Jesus do Nascimento, Rodrigo Mitre chega a São Paulo com uma coletiva de seis de seus representados.


Desde a primeira edição da SP-Arte Mitre frequenta a feira, como vendedor e produtor da Manoel Macedo Arte, galeria mineira, sem falar de eventos de que participava no Clube Hebraica já no início dos anos 2000. O galerista afirma que São Paulo tem grande importância em sua formação pessoal e no metiê das artes, por conta de seus museus e centros culturais. E também na profissional:


“Eu praticamente acompanhei toda esta recente trajetória da profissionalização do mercado nacional, e São Paulo tem um papel preponderante nesse cenário”, afirma. “Há uma aderência muito boa do programa da galeria à clientela local, temos um grande proximidade com o colecionador daqui. Quase 50% de meu faturamento chegou a vir da cidade”.


Rodrigo Mitre também argumenta que a capital paulista ampliou seu acesso a colecionadores de fora do Brasil e, não à toa, ele caminha para a sua terceira participação na Frieze, em Nova York, numa aposta, segundo ele, no mercado norte-americano, que incluirá ainda sua presença na Art Chicago.

A propósito, promover a internacionalização do mercado também estava entre os objetivos da pesquisa setorial, tendo sempre em mente como a crescente valorização do dólar nos últimos anos vem impactando o setor (valores de estandes, logística, transporte etc.).


Thiago Gomide – que atribui “praticamente 80% de seu faturamento a receitas de exportações" – lembra que em 2024 teve estandes em seis feiras fora do Brasil, ao passo que em 2025 estão previstas participações em oito estrangeiras, com Freeze Los Angeles e Arco Madrid entre as novidades, sem falar em seu retorno à edição nova-iorquina da holandesa Tefaf.


Também a carioca Portas Vilaseca fez, no ano passado, sua primeira participação na Art Basel Miami Beach, embora já estivesse presente na cidade por sete anos na feira Untitled. A galeria também já esteve em Bogotá, México e Londres, entre outras praças.

Segundo Thiago Gomide, as galerias brasileiras vêm passando por uma evolução contínua e estável

Rodrigo Mitre, fundador da Mitre Galeria, criada em 2023, em Minas Gerais, e que abrirá sua filial paulistana, no bairro dos Jardins. Foto: Divulgação

Rodrigo Mitre, fundador da Mitre Galeria, criada em 2023, em Minas Gerais, e que abrirá sua filial paulistana, no bairro dos Jardins. Foto: Divulgação

Thiago Gomide, galerista da Gomide&Co. Foto: Bob Wolfenson

Thiago Gomide, galerista da Gomide&Co. Foto: Bob Wolfenson

O ‘efeito Veneza’

A 60ª Bienal de Veneza, com curadoria de Adriano Pedrosa, também gerou grande expectativa para o mercado brasileiro ao longo de 2024. Não à toa: em “Stranieri Ovunque - Foreigners Everywhere”, Pedrosa, primeiro latino-americano a assumir o posto máximo da exposição italiana, reuniu um grande contingente de artistas do Brasil, em especial de indígenas, a exemplo do coletivo MAHKU, autor do painel que cobriu a fachada do Pavilhão Central dos Giardini.


E não só isso: na seleção de 332 artistas, o curador listou um número expressivo de nomes históricos, o que abriu uma perspectiva muito positiva para quem atua no mercado secundário, com a apresentação de obras de Tarsila do Amaral, Judith Lauand e Rubem Valentim. Para Antonio Almeida, sócio da Almeida & Dale, relata que, durante a Bienal, recebeu contato de diversos clientes como consequência da presença expressiva de artistas brasileiros na mostra de Veneza.


Do ponto de vista mercadológico, no entanto, Almeida acredita que os resultados vão vir de forma paulatina. “São frutos que nós vamos colher nos próximos três, quatro, cinco anos”, pontua. “E a primeira parada que esses colecionadores potenciais terão após a Bienal naturalmente será a SP-Arte, neste ano. Nós vamos ter um reflexo muito positivo já na próxima edição”.


Já para Antonia Bergamin, da Galatea, a Bienal trouxe mais visibilidade, uma atenção renovada para a produção artística brasileira, visto que isso já havia acontecido em parte há alguns anos, em especial em torno dos neoconcretos, com exposições importantes no MoMA e no Guggenheim, em Nova York, na década de 2010.


Para ela, houve uma acalmada nos anos pré-pandêmicos, e a Bienal trouxe uma projeção internacional para outros artistas, não apenas históricos, mas também contemporâneos.


*O jornalista Eduardo Simões nos deixou em 2025.