Afinal, o que é uma bienal de arte?

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Yan Catuaba

10 jun 2026

Acima: A entrada da Bienal de Veneza, do álbum de recortes de Isabella Stewart Gardner, 1895. © Isabella Stewart Gardner Museum / Bridgeman Images

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Ano sim, ano não, agentes do sistema global da arte marcham pelas pontes e pelos canais de Veneza, na Itália, unidos por um mesmo propósito: apreciar a maior e mais antiga mostra internacional de arte do mundo: La Biennale di Venezia. Neste ano, ela alcança a sua 61ª edição e, aberta em maio, acontece durante 7 meses, até 22 de novembro de 2026. Considerada a “mãe” das bienais, ela concebeu um modelo de exposição que se replicou mundo afora, não apenas a cada dois anos, mas também trienal ou quinquenal, como a Documenta, que acontece em Kassel, na Alemanha.


De Veneza à São Paulo, passando por Lyon, Nova York, Sharjah, Havana e inúmeras outras cidades, as bienais de arte são órgãos vitais do ecossistema artístico mundial. Mas quais são suas origens? Como são organizadas? E quais são suas razões de existir? Para refletir sobre estes aspectos, a SP-Arte convidou Ana Gonçalves Magalhães, pesquisadora e professora do MAC USP, Jacopo Crivelli Visconti, curador e crítico de arte, e o artista Eustáquio Neves, representado pelas galerias Vermelho e Cavalo, que participa da mostra principal da Bienal de Veneza neste ano. Em entrevistas, eles sugerem pistas para responder a pergunta: “Afinal, o que é uma bienal de arte?”.

As armas do “soft power”


Nem sempre é claro para o público não especializado o que distingue os diferentes tipos de mostras que garantem o funcionamento do circuito de arte contemporânea. Enquanto em feiras e galerias de arte as obras possuem uma finalidade comercial mais evidente, os trabalhos em museus e bienais não atendem às lógicas mercadológicas diretamente no interior desses espaços. Este caráter institucional assegura que as obras estão ali para serem vistas e prestigiadas pelos frequentadores.


Dessa forma, as bienais de arte são, antes de tudo, exposições. Mas não de qualquer tipo. A ideia de reunir obras de diversos artistas de distintas nacionalidades em uma mostra de larga escala tem ligação direta com os objetivos das chamadas “exposições universais” do século 19. Nelas, dentre as quais as mais célebres são as de Londres, Paris e Viena, artefatos e dispositivos ligados à tecnologia, arte e cultura, buscavam demonstrar a força das sociedades modernas industrializadas e o poder da ciência. “É seguindo a lógica dessas exposições que a Itália, após o processo de unificação, projeta um evento capaz de colocá-la como uma nação moderna diante do mundo, e cria, assim, a Bienal de Veneza, em 1895”, descreve Ana Gonçalves Magalhães.

Cartaz da exposição universal de Paris, 1889. © Technische Universität Darmstadt

Cartaz da exposição universal de Paris, 1889. © Technische Universität Darmstadt

O nascimento das bienais está circunscrito em relações geopolíticas e econômicas

— Yan Catuaba

Em sua gênese, La Biennale buscava então representar o que era considerado como o melhor da produção artística entre as potências da época. Magalhães destaca também como, a partir da 7ª edição, em 1907, a criação dos primeiros pavilhões nacionais no Giardini deu força ao uso do evento como uma estratégia política de afirmação e conexão dos Estados-Nação que surgiam.


A análise de Jacopo Crivelli Visconti vai no mesmo sentido. Ele foi curador geral da 34ª Bienal de São Paulo, em 2021, e, no ano seguinte, do Pavilhão do Brasil na 59ª Bienal de Veneza. Visconti reforça como o nascimento das bienais está circunscrito em relações geopolíticas e econômicas. “Os pavilhões que vemos em Veneza são como embaixadas dos países participantes. Eles são inclusive geridos pelos ministérios das relações exteriores ou mesmo pelos ministérios da cultura dessas nações”, diz.

“Seaworld Venice”, trabalho de Florentina Holzinger que integra o Pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza 2026. © Andrea Avezzù / La Biennale di Venezia

“Seaworld Venice”, trabalho de Florentina Holzinger que integra o Pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza 2026. © Andrea Avezzù / La Biennale di Venezia

O caso brasileiro ilustra bem como as bienais de arte podem ser usadas pelos países para demonstrar sua relevância no cenário internacional, exibindo ao mundo os arsenais ligados a seu soft power. “O surgimento da Bienal de São Paulo, em 1951, mostra um Brasil que quer se apresentar como um país de excelência em diversos âmbitos. Ela é a ponta de lança de uma diplomacia cultural em direção à Europa e aos Estados Unidos”, afirma Visconti.

Vista da galeria da Itália durante a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

Vista da galeria da Itália durante a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

Vista de instalação na galeria especial “Maria Martins", durante a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

Vista de instalação na galeria especial “Maria Martins", durante a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

É justamente essa dimensão das bienais como políticas de Estado que as recentes polêmicas em torno dos pavilhões da Rússia, Israel e EUA na mostra veneziana sublinharam. Para Magalhães, isso se vê, por exemplo, “nas mudanças do regime Trump na representação estadunidense, que alterou o sistema de seleção dos artistas antes baseado em chamadas e editais. Por isso a importância do questionamento sobre o que um país mostra e quem decide o que será apresentado", afirma.

O sistema da arte


Se, do ponto de vista estrutural as bienais repousam nos jogos de poder das nações modernas, no eixo prático revelam-se como agentes centrais na solidificação do ecossistema da arte. “O cenário artístico que conhecemos hoje em São Paulo deve muito à bienal da cidade. Ela alimentou e fortificou instituições. A diversidade de público que atualmente vemos em museus, por exemplo, já era uma característica da bienal", argumenta Visconti. Magalhães sugere algo semelhante: “Em Veneza, as primeiras coleções cívicas derivaram das premiações da bienal. Quase dois terços do acervo do MAC USP, que vieram do MAM São Paulo, têm a bienal idealizada por Ciccillo Matarazzo como ponto de partida".

As bienais também são plataformas imprescindíveis na catalisação das carreiras dos artistas

— Yan Catuaba

Cartaz da 1ª edição da Bienal de São Paulo, em 1951, criado por Antônio Maluf (1926-2005). © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

Cartaz da 1ª edição da Bienal de São Paulo, em 1951, criado por Antônio Maluf (1926-2005). © Cortesia Fundação Bienal de São Paulo

Por serem “vitrines” a níveis regionais ou globais, as bienais também são plataformas imprescindíveis na catalisação das carreiras dos artistas. “Elas vão muito além das trocas comerciais. Elas conectam e reconectam pessoas. São espaços privilegiados para o debate e discussões de modos de estar no mundo”, afirma o fotógrafo Eustáquio Neves. Em sua terceira participação em uma bienal – as primeiras foram em Havana (1997), e em São Paulo (2023) –, o artista destaca a importância deste tipo de exposição na propagação de narrativas como as apresentadas em suas obras, que discutem o passado escravocrata brasileiro e suas ligações com a ancestralidade, a espiritualidade e a memória. Duas de suas séries, “Arturos” (1992–1993) e “Cartas ao mar” (2015), compõem a Mostra Internacional da 61ª Biennale di Venezia, que teve a curadoria idealizada por Koyo Kouoh, que faleceu em 2025. Após sua morte, o projeto foi continuado pela equipe curatorial.

Vista de Eustáquio Neves, série “Arturos”, 1993-1994. © Marco Zorzanello / La Biennale di Venezia

Vista de Eustáquio Neves, série “Arturos”, 1993-1994. © Marco Zorzanello / La Biennale di Venezia

Eustáquio Neves, "Arturos #01 (Rei)", da série “Arturos”, 1993-1994. © Filipe Berndt / Galeria Vermelho

Eustáquio Neves, "Arturos #01 (Rei)", da série “Arturos”, 1993-1994. © Filipe Berndt / Galeria Vermelho

São muitos os impactos de uma bienal na cidade ou país que a abriga. Magalhães destaca a ligação desse tipo de mostra com a indústria de eventos culturais, que repercute diretamente no Terceiro Setor. “Uma bienal alimenta a economia local em diferentes níveis. Ela desenvolve empregos e incita especialidades. É possível sentir isso no cada vez mais profissionalizado ramo de produção de exposições, mas também nos setores editorial e educativo”. Ela reforça inclusive como as bienais influenciam práticas curatoriais e o colecionismo de arte. “Estamos vendo as feiras e galerias cada vez mais valerem-se de modos sofisticados de apresentação dos artistas, como as curadorias assinadas. Hoje, com maior frequência, as obras de uma dada bienal são irradiadas para coleções privadas”, conclui.

Vista do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2026, com obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão e curadoria de Diane Lima. © Andrea Avezzù / La Biennale di Venezia

Vista do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2026, com obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão e curadoria de Diane Lima. © Andrea Avezzù / La Biennale di Venezia

Como nunca antes, as bienais sublinham o seu papel como a principal plataforma que o sistema da arte contemporânea dispõe no sentido das mudanças sociais. A recorrente presença de temas trabalhados por artistas como Neves confirmam isso. “As bienais se tornaram protagonistas na abordagem de assuntos os quais a sociedade contemporânea clama por reparação”, indica Visconti. A visão de Magalhães é parecida: “O que vemos é uma dissolução do modelo de delegações estrangeiras. A Bienal de São Paulo abandonou esse formato a partir de 2006 e outras mundo afora surgem nessa lógica". Algumas, inclusive, têm recortes mais específicos, como a Bienal das Amazônias e a Bienal do Mercosul. "Há hoje uma preocupação em representar visões de mundo que não estavam nas narrativas tradicionais, por mais que o DNA das exposições universais ainda esteja ali".

Yan Catuaba integra a equipe de Comunicação da SP-Arte. É bacharel e licenciado em História pela USP e pesquisador nas áreas de Cultura Material e Cultura Visual.