A arte diante da inteligência artificial

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Livia Benedetti

05 jun 2025

Acima: Holly Herndon e Mat Dryhurst em colaboração com Serpentine Arts Technologies, "The Call", 2024. Foto: Leon Chew

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Cerca de três anos após a popularização de tecnologias baseadas em prompts, como ChatGPT, Dall-E, Midjourney e Sora, quais são as interações entre arte e inteligência artificial (IA)? E qual a relação entre o meio de arte e o cenário tecnológico contemporâneo? Seja entre leigos ou especialistas, há o entendimento comum de que adentramos uma nova era da inteligência artificial, em que muito se especula e pouco se sabe sobre toda sua potência.


Quando falamos em IA, geralmente nos referimos a modelos que são desenvolvidos partindo de infraestruturas de base (foundation models) construídas por poucas corporações de tecnologia baseadas nos Estados Unidos. São elas que desenvolvem o grosso dos sistemas (bastante caros e dispendiosos de recursos naturais) que depois serão vendidos para desenvolvedores menores não começarem seus projetos do zero.


Em seu livro Art and Cosmotechnics, o filósofo Yuk Hui alerta para o risco de considerarmos a IA como neutra e universal. Segundo ele, a IA não é apenas um projeto técnico, mas também metafísico, baseado em uma visão cartesiana que reduz a inteligência humana a algo mensurável e reproduzível por máquinas. Para Hui, a IA pode ser desenvolvida de forma diferente, inspirada em cosmologias não ocidentais, para que amplie a criatividade humana e promova a interconexão, em vez de se limitar à busca por eficiência.

Falar da história da arte é também falar sobre a história do desenvolvimento de tecnologias e mídias


— Livia Benedetti

William H. Mumler, "Mary Todd Lincoln", circa 1870

William H. Mumler, "Mary Todd Lincoln", circa 1870

Entre as incursões da arte no campo da tecnologia digital, há cerca de cinco anos o NFT e o metaverso foram anunciados exageradamente como novos paradigmas, para pouco depois serem escanteados. Por outro lado, a inteligência artificial já se alastrou de maneira incontornável. Em um tempo de hiperconsumo de imagens na internet, rapidamente conteúdos deepfake gerados por sistemas autônomos se misturaram sem distinção ao fluxo de imagens — são mais pessoas subindo arquivos quase impossíveis de discernir entre “verdadeiros” ou “falsos”. Dualidade que não existe há muito tempo, pois as imagens vêm sendo manipuladas praticamente desde a criação da fotografia. Desde as “fotografias de espírito” analógicas do século 19, que forjavam a captura de manifestações paranormais por meio da exposição de luz, até softwares como Photoshop, usados há mais de trinta anos, há tempos temos motivos para desconfiar do que vemos.


Fato é que, neste momento, a noção geral de que a IA imita a realidade e o fazer humano desencadeia sentimentos de apreensão e repulsa amplamente registrados nas mídias sociais. Apesar de ser uma tecnologia extremamente avançada, um texto que “parece ter sido escrito pelo ChatGPT” hoje é sinônimo de um texto medíocre, ruim ou pouquíssimo original. Recentemente, vimos surgir os primeiros trabalhos de arte gerados por prompt em IAs como o Midjourney. Inicialmente, essas obras causaram deslumbramento com o avanço da tecnologia, mas, em poucos meses, à medida que o acesso se expandiu, rapidamente se tornaram banais.

"Hollyplus, a building that looks like Holly Herndon oil painting". Foto: Herndon Dryhurst Studio criado com OpenAI DALL-E 2

"Hollyplus, a building that looks like Holly Herndon oil painting". Foto: Herndon Dryhurst Studio criado com OpenAI DALL-E 2

Um dos nomes mais interessantes para observar na interseção da arte com a inteligência artificial é a artista e compositora Holly Herndon, que, junto a seu parceiro Mat Dryhurst, vem explorando o uso do Machine Learning na arte, especialmente na música. Em 2019, em seu álbum PROTO, apresentou Spawn, um algoritmo de voz sintética que interagia com ela nas composições. Herndon enxerga a IA não só como ferramenta, mas como uma parceira criativa em potencial. Recentemente desenvolveu o Holly +, um algoritmo treinado com sua voz que pode performar cantando músicas de terceiros sem sua presença. Essas criações poderiam ser consideradas colaborações com Herndon? Com esses experimentos, ela desafia e expande noções de autoria e singularidade artísticas e também eleva o antigo debate sobre apropriação e consentimento dos artistas a outras proporções. Ampliando essa discussão, Dryhurst e Herndon criaram um website chamado Have I Been Trained?, no qual artistas podem descobrir se suas obras são usadas para treinar IAs e, assim, proceder para proibir o uso desses dados.


Outro trabalho de arte incontornável gerado por IA é a obra "Unsupervised" (2022), de Refik Anadol, fenômeno de público e mídia apresentado no MoMA em Nova Iorque. Trata-se de uma grande tela de LED instalada no lobby, na qual imagens em movimento são geradas através de um algoritmo que interpreta dados de obras do acervo do museu. Trata-se de uma hipnose imagética que o crítico de arte Jerry Saltz apelidou sarcasticamente de “MoMA’s Glorified Lava Lamp” em uma resenha para a revista Vulture, denotando certo ceticismo nos experimentos artísticos com inteligência artificial. Com esse trabalho específico, Anadol alavancou sua carreira de artista e idealizou o Dataland, primeiro museu dedicado à arte feita com IA, previsto para inaugurar neste ano em Los Angeles.

Vista de Refik Anadol, "Unsupervised", no MoMA, em Nova Iorque. Foto: Refik Anadol Studio

Vista de Refik Anadol, "Unsupervised", no MoMA, em Nova Iorque. Foto: Refik Anadol Studio

Diante do predomínio das tecnologias digitais, nos últimos anos é possível notar uma busca crescente por artesanias


— Livia Benedetti

Falar da história da arte é também falar sobre a história do desenvolvimento de tecnologias e mídias. O surgimento dessas, desde as mais rudimentares até as mais digitalmente avançadas, sempre impactaram a criação artística: a tinta a óleo deu mobilidade para pintores impressionistas trabalharem melhor ao ar livre; o surgimento da fotografia interferiu no entendimento sobre a pintura; o uso do computador no lugar da máquina de escrever possibilitou o copy paste e novas formas de escrita, como observado por Kenneth Goldsmith; são muitos os exemplos.


Na arte, não foram poucos os momentos em que os valores associados à produção industrial passaram a ser celebrados em detrimento das técnicas e tradições artesanais. Podemos pensar em alguns movimentos que se deram em momentos distintos, como o Futurismo, a Bauhaus e o Minimalismo estadunidense. Atualmente, não seria exagero afirmar que a direção é inversa. Diante do predomínio social das tecnologias digitais, nos últimos anos é possível notar uma busca crescente por artesanias, manualidades, linguagens e cosmologias ancestrais. Um exemplo disso é a valorização meteórica da cultura indígena no mercado de arte brasileiro. Não deixa de ser uma resposta aos tempos distópicos intensificados pela internet e oligarquias digitais. Se um dos maiores fantasmas atuais é a substituição de setores de atividade humana pela IA, o campo da arte tende a não ser um deles.


Livia Benedetti é curadora de arte, pesquisadora e cofundadora da plataforma aarea.co. Cursou mestrado em mediação de arte na Université Paris VIII e Artes Visuais na Universidade de São Paulo. Desde 2007 vem atuando em projetos curatoriais e educativos em instituições culturais como Sesc, Pivô e Centro Cultural São Paulo. Em 2016 foi curadora associada da Bienal dinamarquesa FotoBiennale, no Brandts Museum, e em 2019 integrou o programa Emerging Professionals do Para Site, em Hong Kong. Como escritora, vem publicando seus textos em revistas, livros e catálogos de arte.

Giacomo Balla, "Espansione dinamica + velocità", 1913

Giacomo Balla, "Espansione dinamica + velocità", 1913