A arte como rota para o futuro

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André Alves

31 jul 2025

Acima: Charles Lessa, "Eu encontrei deus e todos os seus diabos dentro dela", 2025. © Jaque Rodrigues/cortesia Cave

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Tem algo estranho no ar. E faz tempo. A guerra e a tragédia vão sendo empilhadas num feed que é, ao mesmo tempo, irrespirável e irresistível. Euforia a toque de arrebatamento. Afinal, a crise tem andado em bando: ambiental, econômica, social, política, mental, relacional. E, para pilotar a carreta furacão da permacrise, a crise do pensamento. O cotidiano nos coloca diante de tanta dor e de tantos outros que me pergunto se até mesmo a Sontag (a Susan, sabe?) daria conta. Falta palavra, sobra inferno.


Nos tempos terminalmente online, os dias vão sendo vividos com uma estranha ânsia pelo fim, um apetite insaciável pela destruição. Algo que o curador e escritor Shumon Basar chama de endcore. Não é para menos; em 2025 o Relógio do Juízo Final passou a marcar 89 segundos para a meia-noite, o menor tempo já registrado na história.

Humberto Espíndola, da série "Bovinocultura", 1968. © Cortesia MT Projetos de Arte

Humberto Espíndola, da série "Bovinocultura", 1968. © Cortesia MT Projetos de Arte

Parece que existe um apreço mortífero por tratar o desastre como entretenimento. Um sintoma digital tem nome: doomscrolling, ou o ato de gastar uma quantidade excessiva de tempo de tela em conteúdos aflitivos e, geralmente, fatalistas.


Tão impressionante quanto o estado pessimista das coisas é a pressa para acabar. Fast-food, fast-fashion, fast-pass, fast-learning, fast-feed. Na Era do Presente Extremo, a vida é vivida em scroll infinito e desperdiçada em velocidade x2. Existiu um tempo em que os movimentos artísticos duravam décadas. Hoje, os memes mal duram algumas horas. A estética do colapso é mesmo magnífica.

Charles Lessa, "Anjas", 2025. © Jaque Rodrigues/cortesia Cave

Charles Lessa, "Anjas", 2025. © Jaque Rodrigues/cortesia Cave

A arte nos dá ideias de como desmontar o caos que nos cerca

— André Alves

Mas será que tem jeito?

Ou será que tem pelo uma saída que não seja um bilio-bunker ou um uber auto-dirigível para Marte? A resposta que parece cada vez mais popular é a do Aceleracionismo, uma vertente tecnocapitalista comprometida com a aceleração não importa o que aconteça. Uma crença que, na arte, parece se manifestar em um uso deslimitado de ferramentas de Inteligência Artificial. Como se a aposta fosse em consumir toda a água potável e muita energia suja para alimentar e resfriar os insaciáveis servidores da IA, fomentando a desigualdade digital global e o colonialismo tecnofeudal das Big Techs. Tudo em nome da criação de infinitos vídeos de pessoas — e pets, claro — abraçando Jesus Cristo.


Entre a escassez e o exagero, que saudade do futuro, não é mesmo? Mas é exatamente quando tantas narrativas do colapso global invadem nosso mundo interno, que surgem novas possibilidades de mundo. Algumas de repetição, é verdade, mas também rotas de reinvenção. É nessa encruzilhada de caminhos que nos encontramos. E é precisamente aqui que a arte se faz presente, contundente, tão urgente.

Gervane de Paula, “Arte é para quem não tem medo”, 2020. © Cortesia MT Projetos de Arte

Gervane de Paula, “Arte é para quem não tem medo”, 2020. © Cortesia MT Projetos de Arte

“Arte é para quem não tem medo”. Esse é o aviso-manifesto de Gervane de Paula (MT Projetos de Arte/Cerrado), artista que nos convoca a atravessar a paralisia do medo em uma obra que tem formato de uma placa de “PARE”. Um belo lembrete das infrações simbólicas que a arte é capaz de produzir.


O medo é o companheiro inseparável na estranha e perigosa experiência de estar vivo, mas é apenas atravessando o medo que podemos libertar nossa capacidade imaginativa de criar novas formas de viver, amar e até mesmo de sofrer. Como na frase da Clarice (Lispector): “Depois do medo, vem o mundo”.


E, no mundo da SP-Arte Rotas 2025, alguns caminhos de atravessamento inspiram e insistem:

Paulo Pires, "Sem título", 2024. © Sérgio Guerini/cortesia Cerrado

Paulo Pires, "Sem título", 2024. © Sérgio Guerini/cortesia Cerrado

Rotas: monumentalidades oníricas

Caminhos para o atravessamento da aridez do mundo se abrem com símbolos mágicos de artistas que insistem na poesia do gesto e nos mistérios dos sonhos. É como nos intermináveis abraços entrelaçados de Paulo Pires nos sertões da Cerrado. Ou ainda a Bovinocultura do Humberto Espíndola (MT Projetos de Arte) em toda a sua audácia de colocar a beleza dos bois nas paredes. O alumbramento das monumentalidades oníricas se revela quando, nas palavras da artista Rayana Rayo (Marco Zero), "a mudança é maior do que o medo da mudança".

Matheus Chiaratti, "Males e Meles: Duas Pérolas (Abetarda)", 2023. © Cortesia Quadra

Matheus Chiaratti, "Males e Meles: Duas Pérolas (Abetarda)", 2023. © Cortesia Quadra

Rotas: arruaças visuais

Obras convulsivamente belas e frequentemente debochadas, sem vergonha de invadir a paisagem pública, muito menos a privada. Nessa rota, artistas como Charles Lessa (Cave), Matheus Chiaratti e Blecaute vão criando crônicas cotidianas que apaziguam as estranhezas da vida e a seriedade que elas impõem. Afinal, se o brasileiro tem certeza que é o dono da internet, é porque o riso se torna um recurso de resistência. Enquanto muitas tragédias nos são impostas, o humor e/ou a esperança ninguém nos tira. São belos respiros para um mundo em que o otimismo se tornou um recurso tão escasso. Como diz Blecaute, “eh preciso acreditar que vai dar bom”.

Carla Santana, série "Construir em si um lugar para ser", 2023. © Estúdio em Obra/cortesia Quadra

Carla Santana, série "Construir em si um lugar para ser", 2023. © Estúdio em Obra/cortesia Quadra

Sagrado é quem vê. E quem vive. E, por isso mesmo, é preciso dessacralizar a arte

— André Alves

Davi de Jesus do Nascimento, "Enlace", 2018. © Cortesia Mitre

Davi de Jesus do Nascimento, "Enlace", 2018. © Cortesia Mitre

Rotas: maremotos mnêmicos

Em psicanálise, traços mnêmicos são as marcas ou registros deixados na memória por experiências, impressões sensoriais e percepções. Simplificando bastante, claro. Nessa rota, desbravadores do ancestral como Davi de Jesus do Nascimento (Mitre) e Carla Santana (Quadra) vão trançando raízes; ao mesmo tempo dizendo sobre o universo ao redor e também sobre autoteorias e infinitos particulares.


Assim como os enfrentamentos poéticos do Wallace Pato (Mitre), em toda a sua capacidade de pintar a dignidade como utopia. Entre subúrbios e sertões, os desassossegos sociais servem tanto para nos acordar quanto para resgatar sonhos e histórias perdidas. É o encontro das fortunas críticas com as exuberâncias visuais, tudo em ritmo de poema. Dá mesmo trabalho encontrar “quase-rios” no árido e, a partir deles, produzir maremotos para fazer transbordar não mais o desespero, mas sim a nossa sensibilidade.

Wallace Pato, "Carcará cego do peito", 2024. © Cortesia Mitre

Wallace Pato, "Carcará cego do peito", 2024. © Cortesia Mitre

Entre essas e tantas outras rotas, a arte vai nos dando ideias de como desmontar o caos que nos cerca, dobrando a aposta na audaciosa possibilidade de mover mundos a partir das margens. É como a coleção Karandash e seu barco-museu que nos apresenta a força vital do imaginário ribeirinho em toda sua fome de cores e formas. Tudo irremediavelmente brasileiro, honrando a tradição do nosso povo de criar rotas para adiar o fim do mundo. Só que sem a pressa de chegar logo. Como disse o artista Christoph Niemann, em seu perfil Abstract Sunday: “automatizar a criação de arte é como automatizar a arte, assim você consegue chegar ao fim da linha mais rápido”.


Os percursos de muitos desses artistas tão brilhantes vão nos convidando a experimentar outras temporalidades. O tempo para além do Presente Extremo, do endcore ou do apocalipse aceleracionista. Vamos experimentando o tempo que a arte leva. Para ser feita e também para ser sentida, vivida, quem sabe até elaborada. Ou mesmo (in)digerida. Parafraseando — ou distorcendo? — o poeta Sergio Vaz, sagrado não é quem escreve, pinta, monta, desmonta, escultura, esculpe, costura, tece, cria ou distorce; sagrado é quem vê. E quem vive. E, por isso mesmo, é preciso dessacralizar a arte. Uma rota de cada vez.

Barco-museu da coleção Karandash. © Divulgação

Barco-museu da coleção Karandash. © Divulgação

André Alves é escritor, psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento. É co-fundador do instituto floatvibes e co-apresentador do Vibes em Análise, podcast que faz uso da psicanálise para gerar reflexões sobre as mudanças do nosso tempo. André também é criador do Psicanálise Selvagem, uma série de videoanálises de personagens ficcionais que nos dão notícias do estado do mundo — interno, externo e tudo que tem no meio disso.