A arte como construção coletiva

cover image

Beatriz Almeida

13 ago 2026

Acima: Integrantes Jatobá Nascente e Jatobá, 2026. © Jhony Aguiar/Cortesia Sertão Negro

e-mail icone-mail icon

“Sinto que não sou só. Meu povo está sempre comigo”, diz Sueli Maxakali, liderança do povo Tikmũ'ũn (mais conhecido como Maxakali). Cineasta e artista, Sueli é uma das idealizadoras da Aldeia-Escola-Floresta, no Vale do Mucuri (Minas Gerais), onde vive.


A palavra “comunidade” sugere um grupo que compartilha um território, interesses, valores ou experiências. Comunidades também são espaços nos quais os conhecimentos circulam, memórias são preservadas e novas ideias surgem.


Na SP-Arte Rotas, esse termo ganha forma concreta na presença de mais três projetos convidados, além da Aldeia-Escola-Floresta, cuja participação se dá em parceria com a Casa do Povo: a Galeria Ocupá, do Rio de Janeiro; a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea, de Boa Vista, Roraima; e o Sertão Negro, instituto de arte e cultura de Goiânia, Goiás.

Registros na Aldeia-Escola-Floresta. © Paula Berbert

Registros na Aldeia-Escola-Floresta. © Paula Berbert

Obra de Asmahen Jaloul. © Cortesia Galeria Ocupá

Obra de Asmahen Jaloul. © Cortesia Galeria Ocupá

Diálogos na Galeria Ocupá


Fundada por Jonathan Gomes, a Galeria Ocupá nasceu de sua aproximação com as artes visuais e do desejo de criar um local aberto a diferentes públicos. Jonathan começou vendendo obras de artistas da periferia do Rio de Janeiro e, a partir dessa experiência, criou a Ocupá, que fica na Gávea, Zona Sul carioca.


A galeria é focada em artistas periféricos, mas sem se fechar a outras propostas. Para ele, o diálogo entre pessoas de diferentes origens é positivo para todos. Essa ideia da galeria como palco de encontros aparece também nas exposições do programa. Uma delas, em dezembro de 2025, com obras em pequenos formatos, aproximou artistas consolidados, como Luiz Zerbini (Fortes D'Aloia & Gabriel) e Lenora de Barros (Gomide&Co), a artistas em ascensão e início de carreira, como Miguel Afa e Cela Luz.


Jonathan mantém ainda o Ocupá LAB, voltado à formação de jovens e à aproximação com instituições culturais e galerias de arte. Para ele, ampliar o acesso é fundamental: “A arte transforma, salva vidas”.


No Rotas pela primeira vez, a Ocupá apresenta “Geometria do afeto”, seleção de sete artistas mulheres: Asmahen Jaloul, Beta Azevedo, Guilhermina Augusti, Iahra, Isa Campanelli, tayná uràz e Thaís Iroko.

Obras de Iahra. © Cortesia Galeria Ocupá

Obras de Iahra. © Cortesia Galeria Ocupá

Obra de tayná uràz. © Cortesia Galeria Ocupá

Obra de tayná uràz. © Cortesia Galeria Ocupá

O legado de Jaider Esbell


A Galeria Jaider Esbell, criada em 2013 pelo próprio Jaider Esbell (1979-2021), tem como objetivo dar visibilidade à arte indígena contemporânea por meio de exposições, do apoio a novos talentos, da construção de um acervo e da perpetuação da obra de Esbell.


Em sua estreia no Rotas, a galeria apresenta obras de dois jovens artistas indígenas de Roraima: Kaiwino Wiz, dos povos Makuxi e Wapixana, e Pedro Macuxi, da comunidade Maturuca, além de trabalhos de Isaías Miliano, Bartô Macuxi e Mário Flores Taurepang — estes têm obras na exposição coletiva “Macunaíma é Duwid”, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo.


“Fortalecer e expandir as artes indígenas contemporâneas resume o alicerce central da galeria”, afirma Lêda Martins, diretora de projetos da instituição. Esta é a primeira participação da GJE em uma feira nacional desde o falecimento de Esbell, em 2021.

Mario Flores Taurepang, "Makunaima em pedaços", 2025. © Reprodução Instagram/Pinacoteca de São Paulo

Mario Flores Taurepang, "Makunaima em pedaços", 2025. © Reprodução Instagram/Pinacoteca de São Paulo

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

A força da cultura e do território Maxakali


Na Aldeia-Escola-Floresta, comunidade criada com a retomada de terra pelos Maxakali em 2021, território e conhecimento são inseparáveis. “O território para nós é uma escola. Nós aprendemos na beira do rio, dentro da mata”, explica Sueli Maxakali, liderança do povo Tikmũ'ũn.


Nas oficinas, crianças, jovens, professores e pajés pintam e desenham juntos. Para os Maxakali, a arte é memória viva e fortalece os conhecimentos tradicionais que atravessam gerações. É desse trabalho que nasce “Pukkutok, Filho da Abelha”, série que será apresentada no Rotas em parceria com a Casa do Povo, de São Paulo, e curadoria de Jacopo Crivelli Visconti.


As pinturas foram produzidas por artistas e pajés com base nos cantos e histórias relacionados às 33 espécies de abelhas que existiam no Vale do Mucuri. Muitas desapareceram com a devastação da Mata Atlântica, mas “nos nossos cantos, as abelhas não sumiram”, afirma Sueli.

Sueli Maxakali na oficina da Aldeia-Escola-Floresta. © Paula Berbert

Sueli Maxakali na oficina da Aldeia-Escola-Floresta. © Paula Berbert

Sueli Maxakali, "Pukkutok mãhã [Filho da Abelha-Espírito comendo filhote de abelha verdadeiro]", 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta e Casa do Povo

Sueli Maxakali, "Pukkutok mãhã [Filho da Abelha-Espírito comendo filhote de abelha verdadeiro]", 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta e Casa do Povo

O crescimento do Sertão Negro


Em 2021, em Goiás, o Sertão Negro nasceu da vontade do artista Dalton Paula (Cerrado e Martins&Montero) e da pesquisadora Ceiça Ferreira de construir uma escola que abrigasse diferentes saberes. O que começou no ateliê de Dalton, cresceu até se tornar uma instituição organizada em quatro pilares: arte, educação, agroecologia e território. Antes autodenominado ateliê e escola de arte, hoje o Sertão defende ser um instituto de arte e cultura.


“É um gesto radical de imaginação de mundos”, define Beatriz Lemos, diretora artística da instituição. Invenção que se concretiza na formação de alunos, nas residências artísticas e nas relações interpessoais. Hoje, o instituto recebe cerca de 200 alunos e tem 40 colaboradores.


Na SP-Arte Rotas, o Sertão Negro apresenta a Associação Jatobá Nascente, um braço do instituto que reúne os artistas Lucélia Maciel, Genor Sales (Cerrado), Abraão Veloso (Cerrado), William Maia, Xica e Tor Teixeira (Cerrado), cujos trabalhos estarão à venda na feira. Todos vêm de uma trajetória no Sertão e propõem um modelo de emancipação artística baseado na autonomia coletiva, com ateliê, moradia, educação e gestão compartilhada.


Depois de cinco anos financiado integralmente por Dalton Paula, o Sertão agora busca novas formas de sustentabilidade. Para Beatriz, a participação em feiras é uma oportunidade de comunicar a potência do projeto e encontrar recursos para que ele continue crescendo. “Convocamos a sociedade para ajudar na sustentação desse sonho”. É nesse movimento que a comunidade deixa de ser apenas contexto e passa a ser também forma de fazer.

Integrantes do Jatobá Nascente, 2026. © Jhony Aguiar/Cortesia Sertão Negro

Integrantes do Jatobá Nascente, 2026. © Jhony Aguiar/Cortesia Sertão Negro

Vista do Jatobá Nascente, ateliê e moradia, 2025. © Paulo Rezende/Cortesia Sertão Negro

Vista do Jatobá Nascente, ateliê e moradia, 2025. © Paulo Rezende/Cortesia Sertão Negro

Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível. Bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade. Integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves. Há sete anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é Especialista em Comunicação da SP-Arte.

Autor

  • Beatriz Almeida

    Beatriz Almeida

    Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível. Bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade. Integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves. Há sete anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é Especialista em Comunicação da SP-Arte.