A arte indígena contemporânea

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Jacopo Crivelli Visconti

31 jul 2026

Acima: Artistas na Aldeia-Escola-Floresta Maxakali em 2026. © Benjamin Seroussi

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No Brasil, a tomada de consciência coletiva da importância das vozes dos povos indígenas para a sociedade como um todo tem sido lenta e incerta. Afortunadamente, seu ritmo tem aumentado ao longo dos últimos anos, principalmente pelo trabalho incansável de inúmeras pessoas que preservam, estudam e divulgam esse pensamento, seja a partir de dentro ou de fora das comunidades indígenas.


No âmbito específico da produção artística, um autêntico divisor de águas foi a introdução há alguns anos, por parte de Jaider Esbell (artista Macuxi, nasceu em Normandia, RR, em 1979, e faleceu em São Paulo, em 2021) da definição Arte Indígena Contemporânea. Aparentemente inofensiva, essa definição se contrapõe frontalmente à visão ocidental que valoriza as criações artísticas dos povos indígenas apenas na medida em que elas se contentam em ficar relegadas no passado, na tradição, na repetição de fórmulas já conhecidas e assimiladas.


A Arte Indígena Contemporânea é arte que não se distancia de suas raízes, porque é concebida e realizada no âmbito de comunidades que preservam e mantêm sua cultura, mas isso não quer dizer que não seja, também, sintonizada com as demandas e as necessidades da sociedade contemporânea, de um ponto de vista cultural, social e até tecnológico.

Retrato de Jaider Esbell. © Agência Ophelia/Itaú Cultural

Retrato de Jaider Esbell. © Agência Ophelia/Itaú Cultural

Jaider Esbell, "Makunaimî cria o espelho universal", 2021. © Filipe Berndt/Cortesia Almeida & Dale

Jaider Esbell, "Makunaimî cria o espelho universal", 2021. © Filipe Berndt/Cortesia Almeida & Dale

No âmbito de uma produção que é, por sua própria natureza, coletiva e social, Jaider investiu na consolidação do seu nome, de uma “assinatura” reconhecível e respeitada, sabendo que isso, pela maneira como o circuito e o mercado estão estruturados, lhe garantiria uma posição de força nas inevitáveis e urgentes negociações com o “sistema”.


A Arte Indígena Contemporânea, contudo, é muito maior do que Jaider Esbell, e tão diversa quanto as posições e as propostas de cada um dos e das artistas que a integram. A presença dessa produção no âmbito do sistema da arte brasileira é cada vez mais incontornável e central: é esse sistema que precisa da Arte Indígena Contemporânea, e não vice-versa, porque a produção artística não pode ser considerada completa e relevante se ela não incluir todas as vozes de uma sociedade e todas as visões de mundo, mais ainda se essas visões carregam uma sabedoria que, hoje mais do que nunca, sabemos ser essencial para a sobrevivência, tanto coletiva quanto individual.

Obra de Isaias Miliano. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Isaias Miliano. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Isaias Miliano. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Isaias Miliano. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

A introdução da definição de Arte Indígena Contemporânea por Jaider Esbell foi um divisor de águas

— Jacopo Crivelli Visconti

Tive a sorte de conhecer Jaider por ocasião da 34ª Bienal de São Paulo (2020-21), da qual fui curador geral, e o encontro com ele foi essencial para que essa edição da mostra se tornasse, nas palavras dele, a “Bienal dos índios”. Desde então, a Arte Indígena Contemporânea tem ganhado cada vez mais visibilidade e, o que talvez seja ainda mais importante, mais presença e peso institucional.


É extremamente significativo e merece ser celebrado, nesse sentido, que na 5ª edição da SP-Arte Rotas a presença indígena seja, de novo, robusta. Provavelmente mais do que nas edições anteriores e, esperemos, menos do que nas futuras, com a participação de projetos de cunho institucional, como a Galeria Jaider Esbell e o projeto Aldeia-Escola-Floresta Maxakali.

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Kaiwino Wiz. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Fundada e dirigida pelo artista ao longo de vários anos, até seu falecimento, com o propósito de divulgar e comercializar as criações de vários artistas indígenas, a Galeria Jaider Esbell foi, e continua sendo, uma iniciativa pioneira de institucionalização dessa produção.


Mais recente, o projeto Aldeia-Escola-Floresta, cuja participação na feira acontece em colaboração com a Casa do Povo, é um exemplo instigante de ação que busca gerar através da arte e da visibilização da sua cultura recursos para sustentar um projeto de longo prazo de formação, educação e preservação da cultura Maxakali.

Obra de Pedro Macuxi. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Pedro Macuxi. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Bartô Macuxi. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

Obra de Bartô Macuxi. © Jorge Macedo/Cortesia Galeria Jaider Esbell

É o sistema da arte brasileira que precisa da Arte Indígena Contemporânea e não o contrário

— Jacopo Crivelli Visconti

Os Tikmũ’ũn, também conhecidos como Maxakali, são um povo indígena originário de uma região compreendida entre os atuais estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Após inúmeros episódios de violências e abusos, os Tikmũ’ũn chegaram a beirar a extinção nos anos 1940 e foram forçados a abandonar suas terras ancestrais para sobreviver. O que distingue os Maxakali é a prática de cantos rituais de extraordinária riqueza simbólica e poética, que têm lhe valido a definição de “povo dos cantos”.


Os cantos organizam a vida nas aldeias, constituindo quase um índice de todos os elementos que estão presentes em seu cotidiano – plantas, animais, lugares, objetos, saberes – e envolvendo sua rica cosmologia. Grande parte desses cantos, muitas vezes destinados à cura, é executada coletivamente. O ato de cantar se torna, entre os Tikmũ’ũn, parte integral da vida, porque é através do canto que se preservam as memórias e se constitui a comunidade.

Isael Maxakali, "Pukkup" (Árvore da abelha), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Isael Maxakali, "Pukkup" (Árvore da abelha), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Sueli Maxakali, "Pukkutok mãhã" (Filho da abelha-espírito comendo filhote de abelha verdadeiro), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Sueli Maxakali, "Pukkutok mãhã" (Filho da abelha-espírito comendo filhote de abelha verdadeiro), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Cada membro da aldeia é depositário de uma parte dos cantos, que por sua vez pertence a um espírito – chamado Yãmîy, palavra que também designa os cantos –, convocado e alimentado durante o canto ritual. Todos os cantos, juntos, compõem o universo tikmũ’ũn, que é constituído por tudo que esse povo vê, toca, colhe, acolhe, mata, come e sente, mas também pela memória de plantas e animais que não existem mais, ou que ficaram nos lugares de onde os Tikmũ’ũn tiveram que fugir para sobreviver. Como comunidade, vivem na língua que ainda praticam e defendem vigorosamente.


Assim como numa floresta cada elemento é essencial para a sobrevivência dos outros e para o equilíbrio do todo, cada conjunto de cantos é indispensável para que a totalidade seja sempre reavivada e reafirmada. Nenhum dos entes desse rico cosmos pode ficar para trás, a não ser ao custo de perder algo insubstituível – num mundo doente, no qual a necropolítica impera e consolida a indiferença e o descaso como instrumentos de governo, essa lição ressoa de maneira urgente.

Marcinho Maxakali, "Mõnãyxop yãy hã mõgmõgka xeka" (Antepassado virou mõgmõgka grande), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Marcinho Maxakali, "Mõnãyxop yãy hã mõgmõgka xeka" (Antepassado virou mõgmõgka grande), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Cassiano Maxakali, "Tihik Mõgmõgka" (Indígena gavião), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Cassiano Maxakali, "Tihik Mõgmõgka" (Indígena gavião), 2025. © Laura Viana/Cortesia Aldeia-Escola-Floresta Maxakali

Jacopo Crivelli Visconti (1973, Nápoles, Itália) é curador e crítico de arte radicado em São Paulo. Doutor em Arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP), foi curador geral da 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto (2020-2021). Colabora regularmente com publicações de arte contemporânea, arquitetura e design, além de escrever para catálogos de exposições e monografias de artistas.