Sonia Gomes reflete sobre desafios e conquistas enquanto artista, negra e mulher

4 nov 2019, 16h16

Entrevista e texto POR MARINA DIAS TEIXEIRA
Fotos por Alexandre Drobac

 

Por ocasião do Mês da Consciência Negra, a SP-Arte conversou com artistas negras sobre sua produção e seu lugar dentro do sistema de arte contemporânea.

Para abrir a série, visitamos o ateliê de Sonia Gomes e entrevistamos a artista representada pela galeria Mendes Wood DM. A mineira se estabeleceu a nível nacional e internacional e hoje vive e produz em São Paulo, onde já se tornou referência para jovens artistas negros e negras. Gomes nos lembra que: “A gente não faz uma arte negra, a gente é negra, e trabalha com arte, porque a arte é muito maior do que esses rótulos.” Confira abaixo a entrevista na íntegra.



Quais os desafios de ser uma artista mulher e negra no Brasil?

Sonia Gomes: Quando se fala sobre ser mulher e negra, eu me coloco primeiro como negra. Essa é a dificuldade. Vejo mulheres conquistando espaços de privilégio que a mulher negra e o homem negro ainda não conquistaram. É o negro que não conquista, portanto, a dificuldade de inserção é muito maior. Meu trabalho tem uma grande carga que chamo de “genética”, por trazer essa identidade, com muitas cores e referências. A primeira leitura de quem olha para minha produção é de que ela é feita por uma “mulher”, uma “mulher negra”. No Brasil, onde principalmente arte europeia e eurocêntrica são mais valorizadas, por ser negra e ter um trabalho que carrega essa identidade, encontro muita dificuldade. 

Como se deu a inserção do seu trabalho no mercado de arte?

A carreira do artista é difícil para qualquer pessoa no mundo inteiro. Mas para quem é negro, é mais complicado ainda. Por isso, eu tive muita dificuldade. Sou de Belo Horizonte e nunca fui representada por uma galeria de arte lá. Quem acreditou no meu trabalho foi a Sandra e Márcio Objetos de Arte, mais especializada em antiguidades. Foi a partir deles que eu me aproximei do mercado de arte mais formal e cheguei onde estou. Na Mendes Wood DM, minha atual galeria, entrei primeiro como artista convidada para fazer uma exposição individual. Só depois eles começaram me representar formalmente.

Quais são as referências e influências que permeiam a sua obra?

Não comecei fazendo o que faço pensando em arte. Foi uma necessidade: comecei a desconstruir coisas, fazer acessórios para mim, e isso foi tomando uma dimensão cada vez maior, até ser chamado de “arte negra”, “arte contemporânea” ou, para diminuir, “artesanato”. Não estava preocupada com esse rótulos, isso é o que eu sabia fazer. 

Meu trabalho é vida, é movimento de vida. Desde quando eu fazia meus acessórios, buscava pelo movimento e o tridimensional. Gosto muito de dança, e esse movimento aparece no meu trabalho, como uma vez que fiz dança afro e isso se refletiu na minha obra. Além dessa influência, tem a que existe em nosso país: a diversidade. Muita mistura, o popular com o erudito, a rua, a conversa com a natureza, tudo contribui. 



Curadorias decoloniais vêm ganhando espaço nos ambientes institucionais brasileiros mais tradicionais, como você enxerga isso? Quais caminhos ainda temos que percorrer?

Estou sentindo que tem um movimento crescente de inclusão. Na exposição “A nova mão afro-brasileira”, do Museu Afro Brasil, em 2013, eu fui a única mulher e isso foi muito cobrado pelas artistas na época. Hoje isso não aconteceria. Minha galeria, por exemplo, tem mais quatro artistas negros além de mim. Mas, se levarmos em conta que nós negros somos mais que a metade da população, essa proporção ainda está errada. 

É importante dizer que nossa inserção no mercado não se deu graças a algum “padrinho”, mas pela resistência. É uma conquista. Eu ouço muito perguntarem sobre quando vai passar “a onda do negro”. Isso não é uma onda, isso veio pra ficar, e os artistas bons, eles ficam. Não tem como falar em arte brasileira sem o negro. Nós estamos aí e não tem volta. Esse processo de conquista vai daqui pra frente. Quando eu era jovem, não se falava a respeito. Agora vejo os jovens com bastante atitude: eles falam, gritam, colocam o cabelo lá em cima, eu fico até arrepiada, acho isso maravilhoso. Esse movimento jovem está sendo uma contribuição muito importante. 

Como você vê a importância do circuito artístico fora das galerias e instituições, e como você acha que isso influencia a prática artística?

O circuito alternativo tem que existir, e é um movimento importante. Não dá para depender apenas das galerias. A necessidade do artista é mostrar o trabalho, seja onde for. Já cheguei a mostrar meu trabalho em qualquer espaço que estivesse aberto para mim, que fosse um restaurante ou qualquer outro lugar. Não tenho esse preconceito de querer mostrar meu trabalho só em galeria ou instituição. 

Há muitas outras reações à minha produção acontecendo para além do mundo da galeria. Muitos livros didáticos, escolas públicas, arte-educadoras fazendo releituras dos trabalhos com as crianças. Eu sinto que estou dando essa contribuição. Claro que todo artista quer vender, porque é um ofício, um trabalho como outro qualquer, mas essas respostas são muito boas e nos alimentam. 

É bom também ficarmos atentas e darmos força umas às outras. Mesmo a gente que é negro, às vezes não consegue lembrar dos negros. É tão estrutural. Por isso, busco ficar atenta e já indiquei a Janaina Barros e a Fabiana Lopes para escreverem sobre o meu trabalho em duas exposições internacionais. São pessoas competentes, não estamos fazendo uma assistência social.



Em 2015, você participou da Bienal de Veneza. Em 2018, você teve suas primeiras grandes mostras institucionais monográficas no Brasil, no Masp – Museu de Arte de São Paulo, e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Pode nos contar um pouco sobre esses marcos na sua carreira?

A Bienal de Veneza realmente foi um marco. Eu nunca tive a pretensão de ser uma grande artista, de participar dessa exposição internacional. Quando fui convidada, pensei até que fosse um trote: “Bienal de Veneza, como assim?”.

A assistente do curador entrou em contato comigo a partir da minha participação na exposição “Feito por brasileiros”, sob curadoria do Marc Pottier, na Cidade Matarazzo, em 2014. Me pediram para comentar a minha instalação no espaço e por muito tempo não falaram mais nada. Eu pensei: “não vai ser dessa vez”. A confirmação do convite veio enquanto eu estava na África do Sul para uma exposição. Foi uma experiência que marcou minha vida. Quando eu estava voltando de Veneza pensei: “Nossa, minha carreira está consolidada, é isso aqui. Não vai acontecer mais nada.” 

O convite para uma exposição individual no Masp também foi uma surpresa, nunca tinha sido convidada para participar nem de uma coletiva no Museu. Os curadores Adriano Pedrosa e Amanda Carneiro acreditaram e me deram liberdade para fazer o que eu quisesse. Eu estava começando uma série nova que queria apresentar, me apropriando de galhos e troncos encontrados. Uma das coisas que eu queria fazer era abrir todas aquelas cortinas do Masp e deixar a natureza entrar. O jardim é lindo, então eu queria essa conversa entre os jardins de Lina Bo Bardi e o meu trabalho. Foi uma visibilidade muito boa e me senti muito respeitada como artista. 

As coisas acontecem primeiro lá fora: antes, a Bienal de Veneza, depois, as grandes instituições brasileiras. Mas ainda bem que tudo isso está acontecendo. Cada experiência é um fator que agrega. As pessoas vêm acreditando no meu trabalho e lá fora continua acontecendo muita coisa. Estou recebendo isso do universo na maior gratidão. 

Você tem artistas negras para indicar?

Eu não tive muito contato com artistas lá em Belo Horizonte. O meu trabalho era muito eu, sozinha. Aqui em São Paulo esse leque ampliou. E essas artistas jovens me procuram muito. Procuro indicar artistas mais emergentes: Lidia Lisboa, Janaina Barros, Priscila Rezende e Renata Felinto. Além de Rosana Paulino, que também é uma referência, e Marga Ledora, que convidei a expor comigo na exposição “Casas e Bichos” da Mendes Wood DM no fim do ano passado. 


SOBRE A ARTISTA

Sonia Gomes (Minas Gerais, 1948) vive e trabalha em São Paulo.
Em 2018 a artista teve suas primeiras grandes mostras institucionais monográficas no Brasil, no MASP – Museu de Arte de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

Seus trabalhos também foram inclusos em mostras coletivas institucionais como 56ª Biennale di Venezia, Veneza, Italia (2015); “Entangled”, Turner Contemporary, Margate, Reino Unido (2017); “Revival”, The National Museum of Women in the Arts, Washington, EUA (2017); “Art & Textiles – Fabric as Material and Concept in Modern Art”, Kunstmuseum Wolfsburg, Alemanha (2013); “Out of Fashion. Textile in International Contemporary Art”, Kunsten – Museum of Modern Art Aalborg, Dinamarca (2013).


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