Ser artista negra: o olhar de Rosana Paulino sobre passado, presente e futuro

18 nov 2019, 9h51

Por Marina Dias Teixeira

 

Artistas afro-brasileiras são as homenageadas da SP-Arte em uma série de entrevistas conduzidas por ocasião do Mês da Consciência Negra. Para fechar a sequência, ouvimos o que Rosana Paulino tem a dizer sobre sua produção e inserção no sistema de arte contemporânea.

A artista paulistana ilustra como o desafio de ser artista triplica para uma mulher negra. Hoje referência nacional reconhecida para além do Brasil, Rosana Paulino conta que demorou 21 anos para ver sua obra exposta em uma instituição tradicional como a Pinacoteca de São Paulo, e que passou a ter uma presença consolidada no mercado de arte apenas nos últimos cinco anos.

Por outro lado, ela exalta a importância de produções vindas de circuitos alternativos, que “contaminam, de maneira muito positiva, esferas mais conservadoras da criação artística”. A artista afirma ainda que “vem vindo uma moçada nova muito, muito boa que eu quero conhecer mais”. Confira a entrevista na íntegra.



Quais os desafios de ser uma artista mulher e negra no Brasil?

Rosana Paulino: Os desafios de ser artista em um país que desconsidera e, ultimamente, chega a demonizar a educação e a cultura, são enormes para qualquer pessoa. E, quando se trata de mulheres negras, esse desafio triplica. Primeiramente, a dificuldade de acesso a boas escolas no campo das artes é maior no nosso caso. Isso inclui o menor contato com outras línguas que abrirão portas para residências formativas, por exemplo. Segundo, temos muitas vezes o ônus da casa, dos filhos para as que têm, de ter que trabalhar muito cedo para pagar nossa formação. E, quando superamos isso, temos que enfrentar um mercado de arte ainda muito masculino, branco e eurocêntrico. Ou seja, no nosso caso os desafios, que são grandes, acabam por ser no mínimo triplicados.

Como se deu a inserção do seu trabalho no mercado de arte?

A inserção da minha obra tem sido bastante lenta. Levou 21 anos para que um trabalho importante, o “Parede da memória”, entrasse em uma instituição de porte, no caso a Pinacoteca do Estado de São Paulo, e 25 anos para que eu tivesse uma grande individual na mesma Pinacoteca. Temos que considerar que a entrada de um trabalho em uma grande coleção e uma exposição de peso chancelam a produção do artista e ajudam nas vendas. Por aí vemos como o processo foi lento no meu caso. Em relação às vendas, comecei a vender, de fato, há alguns anos. Não mais que cinco, talvez. Antes vendia uma peça e demorava anos para vender outra.

Quais são as referências e influências que permeiam a sua obra?

Creio que as principais referências conceituais e estéticas são ligadas à cultura afro-brasileira. Nos últimos anos, tenho pesquisado bastante a questão do racismo científico também. Quando estudante, olhei com muita atenção o barroco, a arte africana e dos aborígenes australianos. Infelizmente, em relação a artistas que me influenciaram, não tenho muitas referências porque, como estava interessada nesta questão afro-brasileira, não encontrava muito material. Temos que lembrar que minha formação se dá num período pré-internet. O mesmo ocorre em relação à arte feminina. As artistas que tomei contato, como Louise Bourgeois, Kiki Smith, Belkis Ayon, por exemplo, não têm uma influência formativa porque ocorrem em um momento quando já tinha finalizado a faculdade e avançado muito na construção de uma poética. Nesse caso, embora haja admiração, a influência é menor.



Curadorias decoloniais vêm ganhando espaço nos ambientes institucionais brasileiros mais tradicionais, como você enxerga isso? Quais caminhos ainda temos que percorrer?

Estamos entrando com muito atraso neste tipo de curadoria e meio à força, para dizer a verdade. Já há algum tempo, o Brasil vem sendo criticado, de dentro para fora e de fora para dentro, pelas curadorias que privilegiam somente uma visão de arte. De dentro para fora: com a entrada de novos agentes produtores nos campos das artes. Produtores negras e negros, mulheres, pessoas LGBTQI vem tensionando essa área. E de fora para dentro, a partir das feiras de artes, exposições internacionais, universidades e outros, que vêm questionando a falta de variedade e inclusão da produção brasileira. É comum, por exemplo, que eu chegue em universidades fora do país e seja questionada sobre onde está a produção dos afro-brasileiros, quantos professores têm no departamento de arte afro-brasileira, quais são os/as artistas mais representativos… e sei por pessoas que tem contato intenso com feiras de artes e museus que o panorama é o mesmo. Então, existe e existiu essa cobrança sobre o país. Esses dois fatos levaram o Brasil a, muito lentamente, começar a avançar na aceitação dessas produções e a pensar em curadorias decoloniais que irão considerar, inclusive, a questão da arte indígena. Mas insisto que isso está ocorrendo com grande atraso e está distante de ocorrer em todo o país. Não podemos esquecer que São Paulo funciona meio como uma “bolha” quando pensamos em determinadas questões, e essa é uma delas.  

Como você vê a importância do circuito artístico fora das galerias e instituições, e como você acha que isso influencia a prática artística?

É um circuito de grande importância porque tende a ser mais experimental, é ele quem tensiona, quem questiona com mais veemência o que está estabelecido. É um erro achar que somente o circuito artístico convencional dá conta de todas as demandas da arte contemporânea. Muitas vezes é o contrário. Por temer arriscar perder posições e prestígio, artistas podem ser mais comedidos em suas criações do que aquelas/aqueles que estão “à margem” do circuito oficial, se podemos dizer dessa maneira. Essas produções tendem a expandir o rol das questões abordadas na arte e “contaminam”, de maneira muito positiva, esferas mais conservadoras da criação artística.

Você tem artistas negras para indicar?

Geralmente não gosto de indicar nomes porque sempre acabo sendo injusta e esquecendo alguém, mas sem dúvida nenhuma podemos citar artistas como Renata Felinto, Priscila Rezende, Michelle Mattiuzzi, Juliana dos Santos, Charlene Bicalho, Janaína Barros, Lidia Lisboa, Sonia Gomes, Aline Motta, Mariana de Matos, também conhecida como Maré, Ana Lira e Kika Carvalho, dentre outras. E essas são as mais conhecidas, as que estão a mais tempo na batalha. Vem vindo uma moçada nova muito boa que eu quero conhecer mais, mas que, certamente num futuro não tão distante, também serão citadas.


SOBRE A ARTISTA

Rosana Paulino (São Paulo, 1967). Artista visual, pesquisadora e educadora. Sua produção tem como foco questões sociais, étnicas e de gênero, destacando-se a discussão sobre o local simbólico social ocupado pelas mulheres negras no Brasil. É doutora em Artes Visuais e bacharel em Artes pela ECA-USP. Possui obras em importantes museus tais como MAM-SP, Masp e UNM – University of New Mexico Art Museum (EUA). Participou de diversas exposições no Brasil e no exterior.


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