Residente na Delfina Foundation, Alice Shintani ressalta o movimento constante e imprevisível do fazer artístico

25.09.2017 – 16h55

Na próxima leva de residentes da Delfina Foundation, importante instituição londrina que acolhe e apoia artistas de todo o mundo, encontra-se a paulistana Alice Shintani. De setembro a dezembro, Shintani vai mergulhar na experimentação e nas potencialidades de sua atividade artística, que tem a pintura como ponto de partida para obras que extrapolam formas e dimensões planas. A residência é oferecida pela SP-Arte.

De Londres, Shintani enfatiza que fluxo é fundamental em seu percurso: “Entendo que uma trajetória artística não se sedimenta, porque o mundo está sempre em movimento – e ela o acompanha. Tento escapar dessa consolidação e também de uma certa ‘institucionalização’ da nossa prática. Por isso, acredito na necessidade de encontrar novos territórios”. Veja abaixo a entrevista completa! 

 

SP-Arte: Já é possível dimensionar a importância de uma residência artística na sua trajetória?

Alice Shintani: Não tenho a menor ideia do que virá a ser de fato a experiência da residência, mas estou bastante animada com a oportunidade. Esse tipo de deslocamento para uma situação nova, para um território desconhecido e, principalmente, para encontros com outras culturas também em deslocamento é talvez o que mais me faça sentir viva e querer compartilhar por meio do trabalho.

 

SP-Arte: Esse é um espaço de experimentação ou de sedimentar sua caminhada criativa? Por quê?

AS: Experimentar sempre, em qualquer situação, mas a vontade também é de estabelecer uma pausa para refletir sobre minha trajetória em um espaço acolhedor e propício para isso. Acho que só se consegue sedimentar o trabalho com experimentação, riscos e pausas. Mas, na verdade, entendo que uma trajetória artística não se sedimenta, porque o mundo está sempre em movimento – e ela o acompanha. Tento escapar dessa consolidação e também de uma certa “institucionalização” da nossa prática. Por isso, acredito na necessidade de encontrar novos territórios.

 

SP-Arte: Estar em Londres, num lugar afastado do seu ponto habitual de criação, influenciará de certa forma seu trabalho? Como costuma ser sua busca por inspiração e pesquisa em novos lugares?

AS: Certamente influenciará. Me formei em engenharia e durante alguns anos trabalhei com gestão de projetos de tecnologia antes de migrar para o campo artístico. Por aquela experiência, procuro hoje não definir projetos ou prever resultados a priori. Entendo que a gente precisa abrir mais espaço (muito mais) para essa dimensão indomável e imprevisível da investigação artística, incluindo as dúvidas e o risco. Em tempos de guerras culturais generalizadas, em que somos solicitados o tempo todo a afirmar identidades e assumir posições literalmente explícitas no trabalho, vejo Londres – um território efetivamente multicultural na prática – como uma oportunidade para maior aproximação com meu espaço de criação, que é interno e opaco.

 

SP-Arte: De que maneira você enxerga seu momento artístico? O que lhe interessa atualmente no campo da criação?

AS: Minha questão hoje é sobre como não permitir que a nossa subjetividade seja sequestrada por um contexto político, social e artístico-cultural de polarizações ideológicas agudas que, no fundo, apenas se espelham entre si.

 

SP-Arte: Sua linguagem é bastante permeada por elementos pictóricos. De que maneira isso traduz sua expressividade como artista?

AS: Minha base de formação é a pintura, uma linguagem com especificidades e limitações peculiares. Me interessa estressar essas especificidades e limitações para deslocar metaforicamente pressupostos – determinados e outorgados sabe-se lá por quem – do mundo em que vivemos.

 

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