O modernismo colecionável

16 jul 2019, 11h23

Inovação sintática, contraste entre luz e sombra, exaltação de formas geométricas, experimentação de técnicas, uma visão peculiar da industrialização brasileira. Essas são algumas das características que tornam a fotografia modernista brasileira, produzida entre os anos 1940 e 1960, tão peculiar. Os que se interessam em colecionar ou simplesmente apreciar um conjunto de imagens que carregam esses elementos não podem perder a exposição “Fotografia moderna 1940–1960”, realizada pela Luciana Brito Galeria, em parceria com a Isabel Amado Fotografias.

Em cartaz até 25 de agosto, a mostra reúne trabalhos de Gertrudes Altschul, Geraldo de Barros, Thomaz Farkas, Mario Fiori, Gaspar Gasparian, Marcel Giró, Ademar Manarini, Paulo Pires e Eduardo Salvatore. As obras são apresentadas em dois momentos: enquanto o interior da casa que abriga a Luciana Brito Galeria é ocupado por ampliações vintage agrupadas por autor, no Anexo, ao fundo, encontram-se edições contemporâneas, reunidas por temas.

Fotoformas ilustres de Geraldo de Barros podem ser vistas ao lado de ampliações contemporâneas de seus desenhos sobre negativo com ponta-seca e nanquim, ou, ainda, as fachadas que beiram a abstração de Thomaz Farkas são acompanhadas não apenas por seu trabalho de interesse documental como também por experimentações surrealistas. De forma semelhante, fotogramas, estudos de composição e até naturezas-mortas vintage, além de ampliações contemporâneas de seus estudos arquitetônicos, representam a ampla gama do corpo de trabalho de Gertrudes Altschul em exposição.

Algumas das fotografias presentes na mostra integram importantes acervos do mundo. Por exemplo, o Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, possui em sua coleção as reproduções vintage de “Divergentes” (1949), por Gaspar Gasparian, e de “Os bancos” (c. 1960), por Eduardo Salvatore. Já entre as reedições, cujas ampliações de época também figuram na coleção do MoMA, encontram-se “Linhas e tons”, (1950/2017; edição 1/10), de Gertrudes Altschul, assim como “Fachada lateral do Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro” (1945/2013), de Thomaz Farkas. Em 2021, o museu norte-americano organiza uma exposição dedicada a essas peças emblemáticas do modernismo brasileiro.



Comece sua coleção

Para Isabel Amado, uma das curadoras da exposição, as edições contemporâneas são uma oportunidade única para quem quer começar uma coleção de fotografia modernista. “As reimpressões são mais baratas, em geral um quinto do preço das ampliações vintage. Com elas, é possível montar, a um valor mais acessível, um conjunto que compreenda esse período da fotografia no Brasil,” afirma. Amado destaca ainda um respeito profundo às intenções originais do autor nessas reproduções: “No caso da Gertrudes Altschul, por exemplo, todas as ampliações foram feitas em gelatina e prata – técnica usada pela fotógrafa –, a partir de negativos de imagens indicadas por ela mesma.”

Outro ponto positivo, ressalta a curadora, é que essa produção tem atributos bem delimitados. Sendo assim, a construção de um recorte significativo para uma coleção iniciante fica mais fácil. “Diferente do fotojornalismo, ou de outra vertente da fotografia, na fotografia moderna você consegue identificar claramente a linguagem fotográfica aplicada,” afirma Amado. “Na exposição, há uma imagem de Ademar Manarini: um menino envolto por bandeiras formadas por sombras. Essa fotografia é claramente moderna, no sentido do recorte, das sombras e luzes, da geometria. A figura humana ali não é predominante, é um elemento gráfico que indica a presença humana de forma abstrata.”



Modernismo brasileiro

Todas as imagens que constroem a exposição têm a sintática marcadamente modernista, conhecida por romper com uma lógica imagética até então valorizada no Brasil: o pictorialismo. Nesse movimento, o belo estava dado, e ao artista-fotógrafo bastava capturar a paisagem de uma maneira objetiva, respeitando certa pureza da imagem. “Os modernos inverteram isso. O que os interessava era o aparato da câmera. A partir disso, eles construíam a imagem para dizer algo além do objeto em si. Eles se amparavam não apenas no equipamento que tinham em mãos, mas também sobrepondo e intervindo no negativo,” explica Amado.

“Em que pesem as diferenças individuais entre os fotógrafos a ideia de construção parece unir todas as imagens aqui apresentadas. O verbo ‘construir’, como explicam os dicionários, é sinônimo de edificar, erigir e arquitetar. Tais ações se materializam de diferentes modos nessas fotografias, que ora resultam de um olhar rigoroso sobre o mundo, ora são frutos de um embate criativo com a matéria, por meio das manipulações”, ressalta a pesquisadora Helouise Costa, no texto crítico da exposição.

Muitas dessas mudanças formais na produção brasileira se deram no interior dos fotoclubes. Não à toa, todos os nove artistas que integram a exposição tiveram envolvimento com essas associações. Em uma parte da mostra, é possível ver o verso das fotografias, com selos e carimbos que esses clubes conferiam às imagens que participavam de suas exposições.

Oitenta anos depois da fundação do Foto Cine Clube Bandeirante – o mais famoso deles –, a mostra exibe esse pensamento marcadamente moderno em uma casa cuja arquitetura segue o mesmo paradigma. Projetada em 1958 por Rino Levi, a Residência de Castor Delgado Perez, na qual funciona a galeria, é um imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo. “A montagem da exposição foi muito harmônica, e certamente isso foi favorecido pela arquitetura do local – totalmente em consonância com o pensamento dos fotógrafos ali expostos,” relembra Amado.


obras vintage

Confira abaixo as reproduções vintage presentes na exposição:







Reedições

A exposição apresenta edições contemporâneas das seguintes obras:














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