Hudinilson Jr.: o diário fragmentado de um corpo queer e desejante

12 dez 2019, 14h35

Por Théo-Mario Coppola

 

Atualmente, a história oficial da arte contemporânea no Brasil vem sendo desafiada pela promoção de figuras pertencentes a um circuito alternativo dos anos 1970 e 1980, e até então marginais ao sistema de arte estabelecido. Alguns desses personagens são, de fato, personalidades inevitáveis de se prestar atenção. É o caso de Hudinilson Jr. cuja prática complexa e provocativa desafiou os artistas brasileiros de sua época. Este ano, ele ganhou uma individual na Galeria Jaqueline Martins, que ocupa lugar central na defesa dessa história plural e complexa da arte no Brasil, e, em 2020, será um dos homenageados no programa da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Também é um dos nomes brasileiros presentes na recente reformulação curatorial promovida pelo MoMA, em Nova York.

Figura importante no final das décadas de 1970 e 1980, Hudinilson Jr. refletiu por décadas sobre o status do artista, sua posição política e estética, não buscando fazer uma distinção entre elas. Seus numerosos experimentos testemunham uma autorreflexão formal sobre sua própria experiência artística. Também fazia parte do famoso grupo 3NÓS3, ligado a jovens agentes dispostos a intervir na cidade e a acadêmicos interessados em discutir novas tecnologias na arte e seu poder de convencer, alcançar e também violar regras comportamentais e políticas – tudo isso durante a ditadura militar brasileira. O artista nasceu em São Paulo em 1957 e morreu na mesma cidade em 2013, quando ainda produzia. Seu trabalho continua fazendo sentido e estimulando novas gerações de artistas dentro e fora do Brasil. Por tudo isso, podemos dizer que Hudinilson Jr. foi uma figura transgressora.



Embora o legado da abstração, do minimalismo e da arte conceitual pareça impor uma história oficial da arte no Brasil durante as décadas de 60, 70 e 80, algumas figuras, a exemplo de Hudinilson Jr., desenvolveram sua prática na intersecção entre diário pessoal, experimentos com novas mídias e ativismo político. Por exemplo, cada “Caderno de referências”, reúne, como um diário, páginas nas quais são organizados artigos de imprensa, fotografias, imagens eróticas e pornográficas homossexuais, capturas de cinema e vídeo, assim como resenhas críticas e documentos coletados.

O artista construiu relações com nomes de sua geração e recebeu o apoio de grandes críticos, porém a circulação de suas obras se manteve limitada até recentemente. Ainda assim, sua produção tem uma sintonia muito particular com o contexto político internacional. Era um ativista, além de ser um artista comprometido e singular, que desenvolveu a vida documentando-a. Criou multiplicando experimentos. Embora Hudinilson Jr. nunca tenha viajado para fora do País e, portanto, não tenha frequentado as principais cenas artísticas internacionais, era extremamente consciente sobre a arte de seu tempo e a herança da história da arte em suas obras – conhecimentos que ressoavam sensivelmente em sua prática.



A representação do corpo que deseja, a evocação da pele e a reprodução de cenas sexuais, combinadas com uma sensibilidade ao contexto social permanentemente presente em suas obras, testemunham um desejo de libertar o corpo. Este se torna a ferramenta essencial para a libertação de uma condição ameaçada pela moral burguesa, pela violência da ditadura e pelo legado do positivismo. A partir dessa linha de pensamento, Hudinilson Jr. se fotografou como Rrose Selavy (“Eros, c’est la vie” [Eros, essa é a vida]) – álter ego feminino de Marcel Duchamp – na obra “Marcel Duchamp, xeque-mate na arte do nosso século”. Essa apropriação de um gesto icônico de Duchamp é uma indicação do posicionamento político do artista, que desenvolve em seus cadernos, colagens e arte em xerox, uma representação do eu sensual e transgressor – uma inversão da imagem oficial do corpo masculino sob um contexto de ditadura e censura no Brasil.

Com uma reflexão pessoal sobre a representação do eu e a construção de uma identidade íntima, Hudinilson Jr. reinveste a figura de ‘Narciso’, que se torna uma força motriz da ação individual de resistência. O uso de documentos encontrados combinados com as imagens autoproduzidas convida a contemplar a autorrepresentação do corpo e sua intimidade como autoficção política.


Sobre o artista

Hudinilson Jr. é um dos artistas mais influentes de sua geração, inspirando, através de suas obras, toda a cena artística no Brasil, nas décadas de 1970 e 1980. Ele desempenhou um papel ativo como agente no cenário underground. Hudinilson Jr. é uma figura importante na arte contemporânea brasileira. Embora o reconhecimento crítico ainda seja limitado fora do Brasil, vários projetos internacionais estão e continuarão envolvidos no reconhecimento internacional do artista. Seus trabalhos são apresentados em importantes coleções públicas como MoMA (Nova York, EUA), Museu Reina Sofia (Madri, Espanha), Museu Migros (Zurique, Suíça), Museu de Arte Maga (Gallarate, Itália), Malba (Buenos Aires), Argentina), Masp (São Paulo, Brasil), Pinacoteca do Estado (São Paulo, Brasil) e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (São Paulo, Brasil).


Sobre o autor

Théo-Mario Coppola (França, 1990) é curador independente e crítico de arte. Em 2017 e 2018, foi diretor da Collezione Taurisano, coleção privada em Nápoles (Itália), com foco em arte política, e diretor artístico da Primo Piano & Intermezzo, em Paris (França), um programa de residência e exibição independente que apoia jovens talentos emergentes no cenário internacional. Em 2019, desenvolveu uma pesquisa com base no acervo da Coleção Moraes-Barbosa, em São Paulo, onde fez residência.


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