Corte retumbante

22 fev 2019, 18h59

por Felipe Molitor

 

O prédio do MAC Niterói flutua solene no mirante de Boa Viagem. Em um plano plongée, o prédio lembraria uma escultura maciça instalada no contorno de montanhas e praias à beira da Baía de Guanabara. Em si, o museu coincide certos traços históricos, simbólicos e estéticos que montam um cenário não por acaso oportuno e sedutor para sublinhar parte da trajetória de Luiz Roque, que apresenta agora uma de suas mais relevantes exposições individuais, chamada “Televisão”.

Não há afronta e tampouco comprometimento do videoartista com os códigos formais do cinema clássico. Mesmo deslocando energia em grande parte para o mise-en-scène, Roque recorda em sua prática que o ato elementar de fotografar-cortar deve permanecer livre e experimental. Ele demarca um outing voluntário daquela produção que é definida pelo artista e teórico André Parente como Forma Cinema, um dispositivo de três dimensões: arquitetônica (a sala escura), tecnológica (sistema de captação e projeção da imagem) e discursiva (o modelo representativo hegemônico).

Se tentássemos posicionar Roque numa linha da história do cinema, ele estaria em algum terreno aberto I) pelas artistas plásticas pioneiras na “videoarte” nos anos 1960 – Letícia Parente, Anna Bella Geiger, Regina Silveira e Lygia Pape, para citar algumas – que através do super-8 e do vídeo gozaram da portabilidade na criação experimental de imagem em movimento; II) pela absoluta interferência da linguagem televisiva no imaginário coletivo, principalmente durante o boom do videoclipe, que nas décadas de 1980 e 1990, puxou uma linha de desenvolvimento técnico, discursivo e plástico do audiovisual, embaralhando os âmbitos promocionais e artísticos do vídeo; III) pela aceleração desenfreada na produção e circulação de imagem com a popularização da internet na virada do século. Se o cineasta britânico Peter Greenaway disse que o controle remoto matou o cinema, hoje sabemos então que o YouTube anabolizou a videoarte.

A mostra no MAC ressalta um mapa pouco variável de elementos que singulariza a prática do artista: o uso versátil do digital e da película, a curta duração, poucos personagens fortemente expressivos, o corte cirúrgico e talhado concomitante ao som. Roque domina o clímax e anticlímax e gosta de exagerar no verniz estético. Não seria errado indagar se tudo não se reduz a uma beleza de superfície, mas é perceptível um tipo de programa camuflado e dissolvido na bruxaria destes filmes. O que a mostra deixa sobressair é a habilidade do artista em construir histórias abertas o suficiente para citar outras tantas sem forçar o espectador a encontrar uma resposta nas afinidades destas imagens.

Há alguma reverência na sua maneira de referenciar esculturas e outras lendas dos anais da arte. Mesmo assim, parece que o artista gosta o suficiente de suas citações para não celebrá-las depositando ainda mais massa canônica; ao contrário, ele as anima, movimenta, coloca seus velhos debates e símbolos num trilho para o agora ou o futuro, implicando fatalmente então em outras abordagens e discussões urgentes – da arquitetura e das sociedades, dos corpos e seus gêneros, danças e gestos, da artificialidade da nossa noção de tempo. Neste sentido, podemos citar o encontro dançante entre a suntuosa “Recumbent Figure” (1938) do escultor Henry Moore, um dos ilustres do modernismo inglês, e a performer londrina Leigh Bowery, no filme “Modern” (2014), realizado por Roque durante uma residência na Delfina Foundation, em Londres. Além disso, em “O novo monumento” (2013), o artista banaliza e eleva, na mesma via, um corte-e-dobra clássico do Amílcar de Castro.

Dispostas pelo corredor circular infinito do MAC, cada obra solicita um suporte específico, reconfigurando a noção de campo/contra-campo tradicional. Feito cria do sul-coreano Nam June Paik, Roque assume o aparato eletrônico em convivência espacial com o visitante. Na escultura-tela inédita “TV” (2018), tudo joga com a falência de projeto moderno. Reluzente e lisa, a grande peça branca descansa no espaço como um L deitado, um ângulo reto que provoca a sinuosidade do ambiente. A antena é uma escultura de madeira, e o ecrã no chão exibe “Formas”, um dos vídeos mais antigos de Roque, que é uma espécie de screensaver que solta as formas geométricas que formam a bandeira nacional.

Luiz Roque lança olhares curiosos sobre corpos cuja performatividade se choca ou adere a um repertório mainstream da indústria cultural e da moda, construindo personagens anonimamente alegóricos. Nesta mesma direção, o recurso coreográfico dos videoclipes viram um “lacre” estranho nas obras do artista, pois é subvertido em artifício de veiculação simbólica, as figuras que surgem destoam do padrão normativo, de gênero definido. Acompanhamos com atenção os detalhes dos trejeitos engendrados pelos corpos, motorizados, fantasiados ou nus. Mímicas da boate e da vida, gestos sutis e penetrantes, imagens que não ilustram nenhuma canção, mas que ecoam com os ruídos. Somos capturados nas interrupções precisas: – QUEER, queer. Exclama, em duas poses e entonações fraturadas, o fake do teórico espanhol Paul B. Preciado no vídeo “Ano branco” (2013).

Sem fidelidade em retratos históricos e precisão nas projeções futuristas, os filmes suspendem a temporalidade e agem mais no campo da especulação e da hipótese. Em seu exercício redutivo, bastam apenas alguns minutos para que a imagem se desdobre. Parece descortinar de um tipo de coleção de imagens condensadas em experiências e reflexões, mais ou menos emotivas, mais ou menos irônicas. De qualquer forma, permite a quem assiste a fazer as conexões no close certo.


sobre o autor

Felipe Molitor é pesquisador independente formado em Jornalismo pela PUC-SP em cruzamento com Arte: história, crítica e curadoria na mesma universidade. Já publicou textos na Arte!Brasileiros, Harper’s Bazaar Art e Folha de S. Paulo. Tem atuado na direção e produção de vídeos e textos voltados ao circuito artístico.

 


*Este texto faz parte de uma série de reviews publicadas no site da SP-Arte. As opiniões veiculadas nos artigos de autores convidados não refletem necessariamente a opinião da instituição.