Conheça o escultor de uma das peças em destaque na exposição “Histórias afro-atlânticas”, no Masp

11.07.2018 – 14h42

Autor de uma das obras mais comentadas na mostra “Histórias afro-atlânticas”, que estreou no fim de junho no Museu de Arte de São Paulo e no Instituto Tomie Ohtake, Flávio Cerqueira (1983) flerta com a escultura desde os 16 anos, mas foi ao ver uma exposição do francês Auguste Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que o artista paulistano se apaixonou pelo bronze. Desse material é feita “Amnésia”, obra que traz à exposição o tema do embranquecimento da população negra: “O personagem simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro”.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Hélio Menezes, Ayrson Heráclito e Tomás Toledo, a mostra reúne representações das culturas afro-atlânticas, assim como trabalhos de importantes artistas negros de todo o mundo. São cerca de 450 obras de diferentes períodos, materiais e estilos em cartaz nas duas instituições de São Paulo, até 21 de outubro.

Confira a seguir uma entrevista com o escultor Flávio Cerqueira:

 

SP-Arte: Como você começou a trabalhar com escultura? Em especial, como foi a decisão de eleger o bronze como matéria-prima elementar?

FC: Eu comecei a modelar aos 16 anos. Eu trabalhava com massa epóxi, fazia bruxas, doendes, aqueles artesanatos hippies. Mas foi depois de ver uma exposição do Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que decidi que iria trabalhar com escultura e que o bronze seria minha matéria-prima.

SP-Arte: Como é o processo de desenvolvimento de uma peça? E a fundição, é algo que você acompanha?

FC: O processo de desenvolvimento de uma escultura em bronze é muito demorado e bastante trabalhoso. Consiste em modelar uma figura em argila, fazer um molde de silicone e gesso, tirar uma cópia em cera, cobrir essa peça com uma casca cerâmica, derreter a cera (por isso se chama fundição: pela cera perdida), derramar o bronze em estado líquido, soldar as partes fundidas e, por fim, fazer a pátina (processo de aceleração da oxidação do bronze que dá cor a ele, geralmente marrom, preto ou verde). No meu processo, eu não desenho ou faço esboço. Começo a modelar a figura e deixo que ela vá me mostrando o caminho. E acompanho o momento inteiro na fundição, isso é fundamental para o trabalho sair com o acabamento que eu desejo.

SP-Arte: Seu trabalho é composto a partir de cenas cotidianas e familiares, mas que muitas vezes passam despercebidas. Você se considera um observador atento? Como você escolhe as narrativas a serem trabalhadas?

FC: As cenas e narrativas compostas pelos meus trabalhos podem ser experiências pessoais, histórias ouvidas ou mesmo histórias inventadas. Eu me considero mais um contador de “causos” do que um observador atento.

SP-Arte: O que te chamou atenção na exposição “Histórias afro-atlânticas”? Teria alguma obra ou artista que você gostaria de destacar?

FC: Me chamou atenção o fato da mostra “Histórias afro-atlânticas” ser muito mais do que uma exposição de arte, dela ser um registro histórico em que os negros são os produtores e os protagonistas de suas próprias histórias. Gostaria de destacar o trabalho minucioso de pesquisa feito pelos curadores. Eu acho que cada obra tem sua importância na construção do todo – são peças fundamentais para que o conjunto seja harmonioso. Sem dúvida, essa exposição será uma daquelas que ficará para sempre em nossas memórias.

SP-Arte: A escultura “Amnésia” integra a mostra no Masp. Você poderia nos contar um pouco sobre a história da peça? Como ela foi concebida e como chegou a exposição?

FC: A escultura “Amnésia” fazia parte da minha exposição individual “Se precisar, conto outra vez” (2016). Essa mostra buscava narrar novas versões para a história oficial do Brasil e o trabalho “Amnésia” se relaciona com isso ao tratar do embranquecimento da população negra, um lado perverso da “mestiçagem”. O personagem da escultura simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro. Como o bronze sempre serviu para registrar um momento histórico, não seria diferente com esse garoto.

O Hélio Menezes, um dos curadores da exposição “Histórias afro-atlânticas”, acompanhou de perto a minha individual. Além disso, escrevi para Lilia Schwarcz para apresentar minha recente produção e para convidá-la à mostra . Ela avisou o Adriano Pedrosa, que também foi conferir meu trabalho. Logo, o grupo curatorial estava bem familiarizado com essa série e o convite para participar da exposição no Masp surgiu no início deste ano, quando as coisas já estavam bem encaminhadas.

SP-Arte: Essa mesma escultura também esteve na exposição “Queermuseu”. Como você enxerga a liberdade de expressão na produção de artistas?

FC: Estamos vivendo um momento muito sombrio na sociedade brasileira em todas as áreas, não apenas nas artes. Como artista, acredito que posso continuar falando sobre os assuntos que me são urgentes sem perder a sutileza e a beleza. Há milhares de formas de se falar de amor, você só precisa encontrar a maneira adequada para cada situação.

SP-Arte: Seu trabalho tem um tom político e social bem forte. Você acredita na arte como vetor de mudança?

FC: Eu não vejo meu trabalho como político, social. Busco ter uma produção que se comunique com todos, sem criar um barreira hierárquica de conhecimento, esse é o barato pra mim! Eu vejo mudanças na minha própria vida. Arte é muito mais do que um objeto de contemplação!

SP-Arte: Quais projetos você tem pela frente?

FC: Participo de algumas exposições nas quais se destacam “Resignifications – Black Mediterranean”, em Palermo, na Itália, organizada pelo nigeriano Awam Amkpa. Em julho, reabre a exposição “Queermuseu”, no Parque Lage (RJ), e, em agosto, “Open Spaces”, no Kansas City, Missouri (EUA), com curadoria do Dan Cameron.

 

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