Ativismo da beleza

30.05.2018 – 15h38

Por Marcelo Rosenbaum 
Fundador do movimento e instituto A Gente Transforma

 

Somos uma ferramenta para captar financiamentos e potencializar projetos, entendendo o aprendizado como fator de troca e transformação. Atuamos como uma universidade de saberes, onde a vocação é o ponto de partida para a criação de relacionamentos e formas de trabalho que sustentem a autonomia e a liberdade das comunidades.

“O que importa é que a fábrica do futuro deverá ser o lugar em que o homo faber se converterá em homo sapiens sapiens, porque reconhecerá que fabricar significa o mesmo que aprender, isto é, adquirir informações, produzi-las e divulga-las” (FLUSSER, Vilém, O mundo codificado: Por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac&Naify, 2007, p. 43).

Meu trabalho é sobre a exploração das histórias, saberes e vocações dos lugares e pessoas que habitam o Brasil profundo. Não sou designer, mas acredito no design como processo. Não poderia falar que sou arquiteto, porque não sou formado, mas me considero um arquiteto que constrói pontes dentro do imaterial, entregando objetos que também podem ser espaços, uma família tipográfica ou um manifesto. Pratico o ativismo da beleza, conectando saberes e ancestralidade como um desbravador de vocações. O mergulho nessa cultura que não é estática, na vocação das comunidades, nos lugares mais distantes do Brasil é o que me move. Gosto de chamar esses lugares de universidades. Como não sou formado em nada, estou sempre aprendendo em alguma universidade diferente. A metodologia para realizar esse trabalho é o Design Essencial, fruto dos laboratórios e imersões que tenho realizado ao longo de oito anos.



Arqueologia Afetiva

Chamo de Design Essencial a forma de nos relacionarmos com os saberes e os conhecimentos ancestrais, materializando isso por meio da valorização do que é útil, do que não é excessivo. A metodologia que aplico no meu trabalho consiste em fazer uma arqueologia afetiva; escavamos memórias para entender os saberes dos lugares, suas necessidades e anseios. Por que não passar a construir com a comunidade algo que ela sabe fazer e que vai usar? Se em nossa memória escravocrata quem produz não pode usar, qual o impacto, por exemplo, de uma comunidade que produz os brinquedos para os seus próprios filhos ao invés de ganhar brinquedo quebrado de plástico vindo do assistencialismo? Acredito que um objeto produzido desta forma tem potencial de transformação e de cura. E trabalho para que ele chegue ao mercado sendo valorizado como tal e possa também ser percebido como um produto de arte.

 

Turning Point

Em 2010 se deu a grande transformação na busca do entendimento sobre como minhas ações estão relacionadas ao outro, ao mundo. Foi quando conheci uma pessoa que tinha muito menos privilégios que eu, mas trabalhava em algo que sempre desejei: impacto. Um dia, virei pra ela e disse que meu sonho era fazer o que ela fazia. Ela olhou pra mim com uma cara bem assustada e disse: ‘Ué, você não faz porque não quer!’. Num tom de voz sem julgamento, como se dissesse que não dava para entender essa minha apatia diante de um sonho. Fui pra casa e fiquei pensando: a gente não faz porque não quer, vive somente pra pagar conta, preso na ilusão de acreditar em tudo que construiu e que sempre vai faltar algo. Com o tempo, fui entendendo, anulando meus preconceitos e mitos, buscando entrar no fluxo da abundância da natureza.

Tudo sempre é muito intuitivo na minha vida e em tudo há o interesse pelo saber, pela forma como as pessoas nas comunidades que visito se ligam com seus ancestrais para se manterem vivas e resistentes. Sou um otimista incurável e busco por meio do trabalho provocar a beleza como ferramenta de transformação, conectando uma ciência mais cerebral e outra mais espiritual.

Gosto de pensar nisso como uma resistência silenciosa, onde cada pessoa envolvida representa uma resistência em favor da cultura, da tradição, da conexão com a ancestralidade. É uma luta silenciosa pela liberdade, pelo direito de se manter com dignidade em sua terra natal, respeitando os elementos da natureza. Me enche de alegria colocar meu dom e talento a serviço do propósito de manter viva nossa cultura ancestral.

Entendo que é urgente inserir nesse processo os colecionadores de arte, pois se arte promove reflexão, aqui se faz necessário o entendimento do ser humano como a arte da vida. Precisamos amplificar nossa rede de ativismo da beleza em prol do fortalecimento e longevidade dos negócios sociais, que por sua natureza transgressora, carecem de subsídios financeiros para fazer a roda girar. Sem subsídios, esses projetos morrem. Precisamos entendê-los como núcleos produtivos de continuidade e constância, não estáticos como qualquer empresa de sucesso. Conhecendo cada vez mais projetos sociais, 80% deles morrem. Só resistem os que têm subsídios.

Muito se ouve falar que os projetos subsidiados se tornam dependentes, por isso a nossa aposta é na criação de relacionamentos horizontais, onde haja treinamento e não capacitação. Capacitar é igual a catequizar. Se você capacita alguém, subentende que aquela pessoa não é capaz. Todo mundo é capaz, cada um tem sua vocação. A percepção da empatia e do entendimento desses valores me fez entender que nosso trabalho tinha que atuar numa outra dimensão.



Vocação e ancestralidade

Que valor o objeto tem senão o de comunicar? O objeto pelo objeto é vazio. Importantes são as relações construídas a partir dele. Nossa noção de trabalho hoje está em aprender a nos relacionar a partir das rupturas que aconteceram e que serão necessárias daqui pra frente sempre. Nosso fio condutor é vocação e ancestralidade. Não podemos ter como entrega somente o artesanato, por exemplo. A gente se conecta a partir da manufatura, do fazer com identidade, obviamente, mas o objeto não é o fim. Ele é o meio. E minha intenção sempre foi fazer essa ponte. Esse fluxo criativo pode começar com artesanato, comida, música, arquitetura, e vai construindo novas dimensões dentro de um relacionamento de aprendizado.

Acredito que o mais importante é mostrar que esses saberes estão fora dos livros e museus e colocá-los na roda da economia da ordem mundial. Um exemplo que muito me orgulha e que vai ao encontro dessa proposta é o de Várzea Queimada, típico povoado sertanejo no interior do Piauí, onde as mulheres que viviam com uma renda de R$ 115 por ano passaram a ganhar em média R$ 2.600 fazendo os mesmos objetos que antes (com palha e borracha), porém, agora, comercializados em diversos pontos do Brasil.

O baixo Índice de Desenvolvimento Humano é uma métrica que sinaliza lugares sem oportunidade e atenção, baseada somente no ensino formal, no desenvolvimento sem o envolvimento, no mito de que o homem para ter valor precisa de diploma, esquecendo os saberes ancestrais, que vêm da própria vida. Será que nessas comunidades não existe uma chavinha que pode ser muito útil pra gente? Coaching, mentoring, design thinking e cocriação nada mais são do que a vida em comunidade, onde se divide o que se tem de verdade e as pessoas com experiência são reconhecidas fontes de sabedoria.

 

A metáfora da águia

Será que o homem está preparado para o futuro com a possibilidade cada vez mais concreta da natureza finita? A águia, quando chega aos 40 anos, tem duas opções: viver o dobro ou morrer. As penas estão pesadas, as unhas estão tortas e já não servem para caçar. Ela precisa se desapegar disso tudo. Então, voa pro ponto mais alto da montanha, quebra todas as unhas, arranca todas as penas, passa frio e fome, fica na solidão e depois de reconstituída se lança no primeiro voo de sua maturidade. O voo de maior liberdade, com toda a experiência, mais leve e renovada.

Na natureza, as coisas não dão errado, elas se redesenham. Assim, enquanto as empresas e seus líderes não estiverem preocupados em abrir mão dos velhos privilégios, não avançarão no território da inovação para o futuro que já chegou.

 

Texto publicado na primeira edição da Revista SP-Arte, em abril de 2018.

 

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