A força feminina no design de mobiliário

6 abr 2019, 14h14

Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues, Michel Arnoult, Jorge Zalszupin, Oscar Niemeyer… na história do móvel moderno brasileiro não faltam nomes masculinos a serem citados. Há, claro, Lina Bo Bardi e Aída Boal, grandes representantes do design desse período a serem lembradas, mas citar apenas as duas demonstra a pouca expressão do feminino nesse universo também dominado por homens. No contexto contemporâneo, pode-se dizer que essa representatividade aumentou consideravelmente, mas, basta circular pelo terceiro piso do Pavilhão Bienal, onde está localizado o setor Design da SP-Arte, para constatar que as mulheres continuam sendo a minoria nesse campo de atuação.

No núcleo de Arquitetos, a carioca Lia Siqueira se destaca com uma série de protótipos desenhados para a Etel. “São peças que serão lançadas nos próximos meses”, conta ela. Com inspiração no minimalismo do Japão, país que Lia visitou no ano passado, a coleção prioriza a madeira em aparador, mesa de centro, cadeira e banquinhos. “O silêncio dos japoneses me marcou bastante. Quis trazer esse silêncio para alguns móveis, cujo desenho se restringe ao essencial”, afirma. Mostrar protótipos trouxe um exercício inesperado para a arquiteta. “A interação com o público foi fascinante e pude ouvir opiniões que poderão me ajudar no aprimoramento desses itens.”

Não muito distante dali, estão as designers da Plataforma 4 – grupo formado por Amélia Tarozzo, Camila Fix, Flávia Pagotti Silva e Rejane Carvalho. O quarteto fez parceria com a fábrica Líder, para quem desenvolveu a poltrona Areia, e convidou duas artistas, a gaúcha Inês Schertel e mineira Ana Vaz, para fazerem intervenções no móvel. “Quisemos trazer o industrial para o contexto da SP-Arte, e tanto Inês como Ana imprimiram esse viés da peça única ou de edição limitada para nosso mobiliário”, avalia Camila. Inês confeccionou uma manta de lã de ovelhas para sobrepor ao assento, enquanto Ana envolveu a peça com uma capa feita de restos de seda proveniente da indústria. Ela também criou outro modelo com cascas de tronco amarrados à peça com fio de cobre.

Na linha industrial, outra arquiteta expõe no terceiro piso: Patricia Anastassiadis compõe o lounge da Artefacto com os móveis lançados para a marca. Na recente coleção para a empresa paulista, ela demostra maturidade no traço autoral e no uso de diversos materiais presentes em mesas, poltronas e sofás. “Introduzi este ano o vidro e o granilite, que eu adoro e não canso de olhar”, diz. “As técnicas dos pequenos artesãos na produção da Artefacto tornam cada peça única”, considera.

Entre a arte e o design, sempre explorando os limites da matéria-prima, Jacqueline Terpins ambienta seu espaço na feira com o aparador U, de linhas minimalistas e disposto em balanço, e o carrinho de chá, Bar, com enormes rodas, além de sofá, poltrona e mesa de centro. Para esta edição, Jacqueline também trouxe a linha de objetos de vidro e uma gigantesca cultura com bloco de gelo circular, que batizou Tempo.

Convidada internacional, a russa Vera Odyn apresenta, em clima noir, prateleiras e espelhos na instalação Floresta. “Pesquisei o que o Brasil e a Rússia poderiam ter em comum e surgiu a imagem da floresta. A da Rússia, porém, é mais densa e escura”, afirma. Os itens, pintados de preto, têm desenho puro, porém, escultural.  Já Bianca Barbato expõe entre paredes tingidas de vermelho-sangue uma linha de móveis e objetos garimpados pela cidade. Moldou todos eles para depois derramar alumínio nas fôrmas, criando os exemplares prateados, às vezes reluzentes, às vezes opacos, para a coleção Sala das Virtudes Esquecidas. Livros empilhados transformados em banquetas lembram os autores favoritos da designer. “O alumínio a exultar o valor da prata, o vermelho a produzir tensão, o luxo a produzir contradição, o conforto a seduzir os sentidos, um conjunto estético a zombar da funcionalidade. A codificação do sentido desses elementos prateados, desviados para o vermelho, denuncia o lado estético de um mundo em choque em conflitos interpretativos entre design e arte”, escreve ela no texto sobre o trabalho, distribuído aos jornalistas.

Há também outras mulheres a serem citadas aqui: Luciana Martins, dupla de Gérson de Oliveira no estúdio Ovo, que este ano apresenta, além do sofá Paisagem e das mesas Praça, pinturas de sua autoria no estande; Suzana Bastos, irmã e parceira do arquiteto Marcelo Play na marca Alva Design, que traz para a feira uma linha de dez espelhos; Ale Clarck, companheira de Nuno Franco no estúdio Mameluca, cujos móveis sensoriais, dispostos ao centro do terceiro pavimento, despertam o interesse dos visitantes; e Etel Carmona, que, embora não esteja lançando nenhum mobiliário nesta edição, traz luz a vinte peças da Móveis Artísticos Z, de José Zanine Caldas, no ano do centenário do arquiteto e designer. São essas incríveis mulheres, cheias de personalidade, que deixam claro que o feminino nunca será o sexo frágil.


Regina Galvão é jornalista formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, com pré-MBA em Marketing pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) e pós-graduação em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Como editora, trabalhou em revistas como Casa Claudia, da Abril, e Casa Vogue, da Globo Condenast. Em 2018, participou da equipe de curadoria da mostra Brazilian Stones, Original Design, coordenada por Adélia Borges na Vitória Stone Fair, em Vitória, e foi curadora das exposições MoMA Design – Acervo Fiesp (2017), no D&D Shopping; Pensamento Circular (2014), no Museu da Belas Artes (Muba); entre outras.
Setor Design
Nesta 15ª SP-Arte, o setor Design chega a sua quarta edição. Voltado a mobiliário, iluminação e antiquário, o setor reúne os principais designers contemporâneos do país, assim como nomes clássicos do desenho brasileiro.

 

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