A força do design contemporâneo do Brasil, por Taissa Buescu e Winnie Bastian

13 jun 2016, 17h39

Uma produção múltipla e difícil de rotular. O cenário do design nacional – que em 2016 teve, pela primeira vez, um setor exclusivo dentro da SP-Arte – abrange um grande e rico leque de influências e tendências da área, o que tem rendido reconhecimento dentro e fora do Brasil.

Neste texto, publicado originalmente no catálogo da SP-Arte/2016 (confira a íntegra da publicação aqui), Taissa Buescu e Winnie Bastian – diretora de redação e editora de design da Casa Vogue, respectivamente – apresentam os principais nomes, vertentes e trabalhos do Design contemporâneo do nosso país, com foco especial nas galerias presentes à Feira deste ano. Confira!

 

Múltipla e miscigenada: a força da criação contemporânea nacional

(por Taissa Buescu e Winnie Bastian)

Não foi por acaso que Fernanda Feitosa decidiu inaugurar justamente agora, nesta 12ª edição da SP-Arte, uma área dedicada ao design. Vivemos um momento de ebulição do design nacional, com móveis, luminárias e objetos autorais chamando a atenção não apenas de insiders, mas do público em geral – e também da indústria. Testemunhamos a crescente participação do design brasileiro nos principais eventos do cenário mundial: o Salão do Móvel de Milão e seu Fuorisalone, a NYCxDesign, a Design Miami e a novíssima Maison&Objet Americas são alguns exemplos. Nossos criadores estão sendo mais conhecidos – e reconhecidos – aqui e lá fora, especialmente na última década.

Cada vez mais, os designers nacionais parecem se convencer de que seu verdadeiro poder está na inventividade e na criatividade para superar eventuais dificuldades – como a falta de recursos, especialmente no início da carreira – e limitações técnicas. Fernando e Humberto Campana são, sem dúvida, precursores desse movimento, tendo, já nos anos 1990, tirado partido de itens cotidianos como a mangueira de jardim, o plástico bolha e o ralo de chuveiro, deslocando-os para o universo do mobiliário e subvertendo sua natureza: de produto acabado, transformavam-se em matéria-prima. Surgia, assim, uma nova e poética linguagem, que viria a conquistar tanto a indústria quanto as galerias de design.

Mas a criatividade verde-amarela vai além dos projetos experimentais. Ao longo dos últimos anos, a indústria tem reconhecido o potencial do design como fator de competitividade e investido em criações originais. Um case emblemático de inventividade fomentada pela crise é o do ventilador de teto Spirit, criado por Guto Indio da Costa em 2001. Chamado por uma fabricante de fitas cassete prestes a entrar em falência já que seu produto se tornara obsoleto, Guto desenvolveu um projeto inovador que aproveitava o maquinário existente na empresa. Sucesso de vendas, o Spirit também conquistou reconhecimento internacional, com o IF Design Awards.

No campo do design de mobiliário autoral, os veteranos Gerson de Oliveira e Luciana Martins, com a sua OVO, vêm atuando de forma consistente na produção de peças de rigor funcional e um quê artístico, como os assentos modulares da linha Campo. Com estilo distinto, o jovem Jader Almeida tem se destacado por seu trabalho minucioso e sistemático junto à indústria, com excelentes resultados técnicos e estéticos que despertam o interesse do público mundo afora, graças à sua exposição em eventos importantes do setor, como a semana de design de Milão, e a prêmios internacionais como o IF, que em 2016 consagrou a cadeira Clad. E os próprios irmãos Campana, até pouco tempo atrás prestigiados somente por fabricantes estrangeiros, agora têm uma linha de móveis produzidos localmente em larga escala: a Estrela, da A Lot Of Brasil.

No entanto, como a valorização do design pela indústria e o efetivo investimento em projetos autorais ainda são uma realidade recente em nosso país, é natural que muitos designers – especialmente os mais jovens – acabem optando pela produção independente para viabilizar suas ideias. É o caso de Pedro Venzon, que cria móveis de ferro de grande leveza e elegância, produzidos com técnicas simples de serralheria. Também a dupla Marcelo Alvarenga e Susana Bastos, do estúdio Alva, opta pela produção independente de seus projetos, como os bancos Gui, com estrutura de madeira e assento de couro, apresentados durante o último Design Weekend, em São Paulo.

Muitas vezes, as produções independentes são um caminho para a aproximação com a indústria. Foi o que aconteceu com o veterano José Marton e sua conhecida série Entrelinhas, inicialmente feita pelo próprio designer e depois fabricada pela Allê Design. Hoje, vários criadores vivenciam essa realidade, como Ana Neute e Rafael Chvaicer, autores das luminárias Beijo, para a La Lampe, e Guilherme Wentz, que desenhou a arandela UM para a Lumini, ambos projetos também lançados no último Design Weekend.

A vertente mais artesanal, com envolvimento direto do designer na produção, continua bastante presente no cenário atual. Nesse âmbito, é visível o predomínio do trabalho com a madeira, também graças à herança – direta ou indireta – de mestres como Joaquim Tenreiro, José Zanine Caldas, Jorge Zalszupin e Sergio Rodrigues, que tinham nesta sua principal matéria-prima. Nas mãos de veteranos como Claudia Moreira Salles, Etel Carmona, Morito Ebine, Fernando Mendes e Marcelo Ferraz (com sua equipe da Marcenaria Baraúna), ou de designers da nova geração, como Ricardo Graham, Rodrigo Calixto, Guilherme Sass e Gustavo Bittencourt, técnicas tradicionais de marcenaria são usadas na construção de móveis com estética contemporânea. De início totalmente artesanal, a obra de nomes como Carlos Motta e Zanini de Zanine se estendeu à indústria, mas sem comprometer o calor do resultado, tendo atravessado nossas fronteiras e conquistado o Hemisfério Norte com a bossa do design nacional. E, ainda, Hugo França, que potencializou a beleza natural da madeira em seu estado bruto, elevando-a ao estatuto de arte internacionalmente reconhecida.

No contexto do handmade, há outros materiais explorados com maestria em nosso país – vale lembrar os trabalhos de Jacqueline Terpins com vidro soprado (e, mais recentemente, com o Corian), bem como os de Kimi Nii, Elisabeth Fonseca, Gilberto Paim e Heloisa Galvão com a cerâmica.

Independentemente do tipo de produção, criações experimentais também têm ganhado mais espaço. Parece haver maior compreensão por parte do público em relação a projetos conceituais que buscam questionar o status quo, em alguns casos chegando a flertar com a arte. Uma rica safra de criativos, como Rodrigo Almeida, Guto Requena, Brunno Jahara, Carol Gay e Leo Capote, tem, cada vez mais, tirado partido da experimentação, ora na exploração dos materiais (novos ou de reuso), ora na utilização de tecnologias inovadoras, sempre em propostas nas quais o instinto, o sentimento e a poesia são fios condutores.

O trabalho autoral, no entanto, não coloca o designer na posição de criador solitário. Na esteira da sustentabilidade, cresce o interesse dos profissionais brasileiros por desenvolver produtos de criação coletiva junto a comunidades ou artesãos que dominem antigas técnicas artesanais. Renato Imbroisi foi um dos primeiros profissionais a unir a expertise do design com o artesanato de raiz. Em 2015, com o projeto A Gente Transforma, Marcelo Rosenbaum e os designers do Fetiche (Carolina Armellini e Paulo Biacchi) e do Nada Se Leva (André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro) se aprofundaram nos saberes locais da comunidade de Várzea Queimada, no Piauí, e da tribo Yawanawá, no Acre, para dar forma a produtos contemporâneos executados em parceria com os nativos. Os próprios irmãos Campana enveredaram por esse caminho, e, no ano passado, viajaram a Nova Olinda, no interior do Ceará, para criar a coleção Cangaço com o mestre artesão Espedito Seleiro.

Difícil rotular a produção nacional, já que muitos de nossos criadores transitam por mais de uma – ou mesmo por todas – essas vertentes. E é justamente nessa multiplicidade que reside a força do design contemporâneo brasileiro: um grande e rico patchwork que reflete o próprio país, com sua diversidade e sua miscigenação cultural, em que tradição e vanguarda se misturam continuamente de forma criativa e poética.

 


Taissa Buescu é diretora de redação da Casa Vogue desde 2010. Formada em Direito, trabalhou como advogada até 2003, quando se mudou para a Itália. Ali viveu por sete anos e se apaixonou pelo design, tendo colaborado com revistas dos setores de interiores, design, arquitetura e lifestyle.

Winnie Bastian é editora de design da Casa Vogue desde 2011. Formada em Arquitetura, atua como jornalista especializada em design desde 2000. Foi chefe de redação da revista Arc Design e editora da revista L+D, além de ter colaborado com outras publicações da área no Brasil e no exterior.