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TALES FREY : O QUE PODE UM CORPO?

NL 365 (13.03) Dedicada Verve

 

Esta semana a Verve inaugura “O que pode um corpo?”, de Tales Frey, primeira exposição online pensada exclusivamente para a plataforma SP–Arte 365! Em resposta aos desafios do momento, que levaram as galerias a adotar modelos híbridos ao longo do último ano, a Verve, primeira galeria a representar o artista no Brasil, apresenta uma exposição que percorre os últimos dez anos de sua produção, acompanhados por texto crítico da curadora Pollyana Quintella. A pesquisa de Tales – que aborda questões da coletividade e do indivíduo e a importância dos encontros afetivos entre as diferenças, instigando convívios mais harmônicos entre distintas singularidades – é particularmente sensível à situação atual e tudo aquilo que nos falta neste momento de confinamento.

Confira abaixo uma seleção de trabalhos da mostra e colecione por aqui!

 

Acima: Tales Frey, “Veste única” (2019). Performance. Porto, Portugal. Foto: Duda Affonso.

O QUE PODE UM CORPO?
Por Pollyana Quintella

“Um corpo não é feito só de carne e osso. Nem mesmo só de matéria. Misto de máquina e instrumento, prótese e laboratório de experimentação, ele é sobretudo um conjunto de códigos, signos, imagens, tecnologias, protocolos e propriedades. Uma festa e um campo de batalha. Como nos ensina Paul Preciado, nosso corpo é um texto socialmente construído, e é através desse elemento sempre em disputa que o poder político se impõe.”


“É nessa direção que a obra de Tales Frey se trama. Estamos diante de uma pesquisa interessada em desafiar as convenções do corpo biomorfológico hetero-patriarcal, na busca de um organismo mais híbrido, de matéria elástica e formas múltiplas e transitórias. Não é raro identificarmos em seus trabalhos alguns procedimentos que profanam o corpo através de espelhamentos, duplicações e multiplicações, transformando-o temporariamente num dispositivo estranho e menos reconhecível, menos pautado por estigmas, padrões sociais e expectativas pré-estabelecidas. Tales joga ainda confundindo as marcas do feminino e do masculino, suspendendo a suposta naturalidade do contrato sexo/gênero, ao propor experimentações que chacoalham os signos convencionais como o vestido de noiva, o salto alto, o tule e outras vestimentas consideradas “coisas de mulher”, ou o terno e o sapato social, considerados “coisas de homem”. Suas ações questionam o binarismo como chave de leitura para o corpo social.”


“A radicalização desse gesto nos leva às obras mais interativas, que convidam o público a experimentar diferentes situações que exigem uma negociação de diferenças, situando o trabalho como um terreno democrático por excelência. O artista tem explorado o conceito de indumento, ao configurar dispositivos que funcionam como uma pele que conecta um corpo ao outro. São peças como luvas de boxe, roupas, tecidos elásticos e pares de sapatos que demandam que os participantes estabeleçam acordos diversos entre desejo e movimento, o que nos faz lembrar de certa tradição relacional da arte brasileira, interessada no binômio arte/vida. Interessa-me chamar essas obras de esculturas sociais, já que tensionam o individual e o coletivo; o pessoal e o político. Nessas operações, a relação eu-outro não é estável, mas intercambiável. Se não há consenso que reste, o trabalho pode ser o lugar de coexistência dos dissensos. Aliás, no Brasil de 2021, talvez seja esse o desafio mais latente para todos nós.”


“Mas resta algo mais. Ao olhar para essas obras, também constatamos que toda identidade é construída em contraste com uma alteridade, um outro de quem nos diferenciamos. Só somos algo em relação a um referente, o que significa que somos muitos, na medida em que mudam os nossos contextos. A estrutura de um corpo é a composição da sua relação; e a possibilidade de reconhecer a identidade como uma dança das cadeiras nos habilita a perseguir uma subjetividade menos subordinada às coerções sociais. Creio que reside aí a potência do trabalho de Tales Frey: reivindicar o sujeito como construção ficcional para compreendê-lo também (e necessariamente) como objeto. É nessa dupla condição que poderemos exercitar a nós mesmos como plataformas singulares, migrantes e transitórias — formas abertas, como a própria matéria da vida.”


Tales Frey (Catanduva-SP, 1982) é artista transdisciplinar, vive e trabalha em Portugal. Realiza obras amparadas tanto pelas artes visuais como cênicas, situadas no cruzamento entre a performance, o vídeo, a fotografia, o objeto, o adorno/indumento e a instrução. O corpo e a performatividade são motes de especulação tanto nas suas criações práticas como nas suas pesquisas acadêmicas. Seus trabalhos integram permanentemente importantes acervos públicos, dentre eles o do Museu de Serralves e Museu Bienal de Cerveira, em Portugal; do Instituto Municipal de Arte y Cultura de Puebla, no México; e no Brasil, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC-Niterói) e o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP).