por Ana Carolina Ralston
Olá, eu sou Ana Carolina Ralston, curadora e pesquisadora de artes visuais. Hoje estarei com vcs para uma visita pela SP-Arte 2026. Para isso, preparei um audioguia com meus principais destaques, seguindo um dos temas que move muito na minha pesquisa curatorial: a natureza e seus enlaces com a tecnologia e a ancestralidade.
Para iniciar nosso trajeto, convido você a desacelerar o olhar e a perceber algo que muitas vezes passa despercebido: a maneira como natureza, tecnologia e ancestralidade não existem como campos separados, mas como dimensões profundamente entrelaçadas da vida contemporânea.
Durante muito tempo, aprendemos a pensar a natureza como aquilo que está fora — distante, oposta ao humano e longe da tecnologia. No entanto, pensadores e botânicos contemporâneos como Stefano Mancuso têm comprovado aquilo que já sabíamos, que as plantas são organismos altamente sofisticados, capazes de perceber, reagir, comunicar e até mesmo tomar decisões, ainda que por meios radicalmente distintos dos nossos. A inteligência, nesse sentido, deixa de ser uma exclusividade humana e passa a ser compreendida como uma propriedade distribuída pela própria vida.
É a partir desse horizonte que as obras selecionadas para este audioguia podem ser vistas: não como representações de uma natureza distante, mas como expressões de um mundo em constante relação. Um mundo em que o tecnológico também é natural, em que o ancestral persiste no contemporâneo, e em que cada forma de vida carrega consigo múltiplos tempos.
Na obra de Renata Haar, apresentada pela Galeria Hollander Pappi, localizada no segundo andar, no espaço G11, a presença de uma grande pedra de mármore desloca a noção de escultura como forma estática e a aproxima de uma experiência temporal mais profunda. O mármore, matéria formada ao longo de milhões de anos, carrega em si uma memória geológica que antecede em muito a escala humana. Ao trazê-lo para o espaço da feira, a artista não apenas apresenta um objeto, mas ativa uma relação direta com esse tempo expandido, quase inacessível.
Há, ao mesmo tempo, uma tensão sutil entre natureza e intervenção: ainda que a pedra se imponha como elemento bruto e ancestral, sua inserção no contexto da arte a transforma em imagem, em superfície de leitura, quase como uma interface entre diferentes camadas de existência. Nesse encontro, a obra nos convida a perceber a matéria não como algo inerte, mas como portadora de história, energia e transformação contínua.
No estande da Galeria Luciana Brito, também no segundo andar, no espaço F3, o artista mexicano Bosco Sodi traz obras que ressaltam seu minucioso trabalho com a materialidade, relacionado à terra, ao pigmento e às fibras naturais. Essa relação com a materialidade se desdobra também em sua atuação fora do ateliê: na Casa Wabi, projeto fundado pelo próprio artista no México, Sodi criou um programa de residências que convida artistas de diferentes partes do mundo a desenvolverem pesquisas em diálogo direto com a paisagem, o tempo e as comunidades locais. Assim, sua prática expande-se para além do objeto, afirmando a arte como experiência compartilhada e como espaço de encontro entre natureza, cultura e contemplação.
A ancestralidade e a história da colonização das Américas é tema da obra da peruana Sandra Gamarra, destaque da Galeria Leme, localizada no segundo andar, no espaço D7. Atualmente com uma potente exposição no MASP, Gamarra é fundadora de um projeto incrível, o LIMAC museu fictício que evidencia as assimetrias entre centro e periferia, original e cópia, memória e apagamento. Sua obra, assim, não apenas revisita o passado, mas o reinscreve criticamente no presente, convocando o espectador a perceber que toda imagem é também um dispositivo político, atravessado por disputas de poder, identidade e pertencimento.
A radicalidade também está presente na obra de Kishio Suga, que você pode encontrar na Galeria Mendes Wood DM, no segundo andar, espaço E7. Integrante do movimento Mono-ha, surgido no Japão no final dos anos 60, Suga trabalha com materiais em estado quase bruto — pedra, madeira, metal, corda — organizando-os em disposições mínimas que não buscam transformá-los, mas evidenciar suas condições de presença.
Reflexões políticas e sociais ligadas à natureza permeiam a feira e podem ser encontradas na Galeria Marilia Razuk, no segundo andar, no G8. A série “Mercado de Águas” feita em cerâmica, investiga as dimensões mercantilistas e territoriais sobre a circulação da água e recursos naturais, tema importante e recorrente no trabalho da artista.
O ativismo também permeia a produção artística de outros nomes, como Frans Krajcberg, e Jaider Esbell, ambos expostos na Galeria Gomide, no segunda andar, espaço A2. Ao trabalhar com troncos calcinados e vestígios de queimadas, Krajcberg transforma a devastação em denúncia sensível, fazendo da matéria ferida um grito contra a violência ambiental. Já Esbell, a partir das cosmologias indígenas — em especial do universo Makuxi — reencanta o mundo ao afirmar a floresta como território vivo, atravessado por espíritos, narrativas e saberes ancestrais que resistem à lógica extrativista.
Entre eles, estabelece-se uma continuidade ética: ambos mobilizam a arte como forma de insurgência, propondo contemplação e também uma tomada de consciência sobre as urgências ecológicas e a necessidade de reimaginar nossas formas de coexistência com a Terra.
Coexistência é um dos temas de Ayrson Heraclito, destaque da Galeria Darzé, localizada no primeiro piso, no espaço C2. A obra de Heráclito articula matéria, corpo e espiritualidade em uma prática profundamente enraizada nas cosmologias afro-brasileiras, especialmente nos saberes do candomblé. Utilizando elementos como dendê, sal, carne e ferro, o artista cria ações e instalações que evocam rituais de cura, memória e transformação, onde o gesto artístico se aproxima de um gesto de restituição histórica.
Sua produção, marcada por uma dimensão sensorial e simbólica intensa, reinscreve no presente narrativas atravessadas pela diáspora africana, tensionando apagamentos e reativando vínculos ancestrais. Em 2026, ao integrar a Bienal de Veneza, Heráclito reafirma a potência de uma arte brasileira que emerge como força crítica no cenário internacional, levando consigo não apenas uma poética singular, mas também um posicionamento político que convoca outras formas de existência, memória e pertencimento.
Chegamos ao fim da nosso audioguia!
Espero que tenham gostado e que aproveitem a visita nesta edição da sp-arte!
