
Mirante
Curadoria de Bernardo Mosqueira
Texto escrito pelo diretor artístico da SP-Arte Rotas 2026, Bernardo Mosqueira, sobre o setor Mirante desta edição.
(Acima: Amadeo Luciano Lorenzato, Sem título, 1900-1995. © Cortesia Gomide&Co)
Primeiro estudo: sobre a paisagem
Mirante é uma seção da SP-Arte Rotas que apresenta uma exposição com curadoria do diretor artístico, reunindo obras excepcionais apresentadas por diferentes galerias participantes da feira. Nesta edição, cerca de setenta obras produzidas ao longo de mais de um século por mais de cinquenta artistas brasileiros e de outras regiões da América Latina nos convidam a questionar e expandir a própria ideia de paisagem, revelando a extraordinária diversidade de modos de viver, conhecer, sentir, imaginar e inventar o mundo que caracteriza a produção artística do continente.

Eleonore Koch, Deserto do Arizona VI, 1996. © Cortesia Almeida & Dale
As obras aqui reunidas experimentam a paisagem de maneiras muito distintas. Mais do que um gênero da representação artística, ela aparece como um campo de imaginação e pensamento sobre as relações entre os seres e seus entornos. Longe de reduzi-la a um simples cenário para a ação humana, essas obras apresentam a terra, a água, a cidade, o campo, a floresta, a noite, os sonhos, os animais e os seres humanos como agentes igualmente vivos e participantes de mundos compartilhados. Aos poucos, a paisagem deixa de ser a representação de um espaço observado à distância para questionar a própria ideia de distância, afirmando relações de continuidade, interdependência e coexistência entre diferentes formas de vida.

Rafael Chavez, A mesma estrela que brilha aqui, brilha lá III, 2026. © Cortesia Casa Triângulo / Filipe Berndt
Diante de uma paisagem, somos confrontados, sobretudo, por nossas próprias maneiras de perceber. Podemos nos perguntar tanto sobre o que ela nos mostra quanto sobre aquilo que torna imperceptível. Em um tempo marcado pelo agravamento da crise climática e pela crescente concentração de poder e recursos, questionar a paisagem é também interrogar os pressupostos modernos que nos conduziram a este ponto crítico. Esta reunião de obras procura provocar uma reflexão sobre as formas pelas quais aprendemos a separar natureza e cultura, humano e mundo, eu e outro. Afinal, reconhecer-se como parte da Terra talvez também exija imaginar como a própria Terra percebe a si mesma.
Bernardo Mosqueira
Diretor artístico, SP-Arte Rotas

Santiago Yahuarcani, El puente de los espíritus. © Cortesia Flexa