Design consciente: caminhos para um impacto positivo

Winnie Bastian
13 mar 2025
Acima: Detalhe da estante "Faquir", do Estúdio Campana. Foto: Fernando Lazslo
“Precisamos parar de degradar o próprio planeta com objetos e estruturas mal concebidos.” A afirmação, mais atual do que nunca, foi escrita por Victor Papanek no início dos anos 1970, no livro “Design for the real world”, que viria a se tornar um clássico do ecodesign.
Fato é que o bom design, além de responder às necessidades humanas (premissa básica), deve também estar em consonância com seu tempo, respondendo às demandas que se apresentam – e hoje, a questão ambiental é urgente.
Por isso, ao ser convidada pela SP-Arte para escrever este editorial, propus falar sobre esse assunto, porque chamar atenção da comunidade ligada ao design é fundamental para que possamos direcionar esforços e criatividade neste sentido: o de usar a atividade projetual para buscar reverter a situação atual, ou ao menos, criar com o mínimo impacto negativo possível.

Studio De La Cruz, linha de mesas “Alfaiate”. Foto: Lucas Rosin
Assumo aqui o risco de ser bastante óbvia, mas não posso me furtar a dizer: é cada vez mais improtelável pensarmos em formas de atender às necessidades atuais sem, no mínimo, comprometer as gerações futuras. E o design tem um papel importante nesse sentido. “É urgente passarmos da intenção à ação para promover impactos positivos em um ritmo mais acelerado. E uma mudança dessa magnitude não é possível sem o design”, defende a fundação Ellen Mac Arthur, respeitada instituição fundada pela ex-velejadora britânica de mesmo nome e que se dedica a promover a economia circular.
E se, como afirma o pensador, escritor e curador britânico John Tackara em seu livro In the bubble: designing in a complex world, “oitenta por cento do impacto ambiental dos produtos, serviços e infraestruturas ao nosso redor é determinado na fase de design”, boa parte da solução está na mão dos designers. Se nos anos 1970 Papanek culpava os designers pela situação do planeta, Tackhara argumenta que “nosso dilema é que pequenas ações de design podem ter grandes efeitos — muitas vezes inesperados — e os designers, assim como o restante de nós, só recentemente foram alertados sobre o quão incrivelmente sensíveis precisamos ser às possíveis consequências de qualquer passo que tomamos no design”.

Urna cinerária "Sail", design de Maurício Noronha e Rodrigo Brenner, de Furf Design Studio. Foto: divulgação
Em vez de sustentável, consciente
Depois de muitos anos de greenwashing e pouca ação efetiva (há pelo menos 20 anos ouço falar em “sustentabilidade”, boa parte deles com resultado aquém do esperado), tenho a impressão que o termo foi se desgastando e se esvaziando, tanto de força quanto de significado.
A despeito desse esvaziamento, o conceito original de sustentabilidade é bastante amplo e envolve uma visão sistêmica, que considera todo o ciclo de vida de um produto e suas implicações ambientais, sociais e econômicas. Por tudo isso, em vez de falar sobre design sustentável, prefiro adotar aqui o termo design consciente, no qual as decisões projetuais são tomadas com consciência ambiental e responsabilidade social, visando criar soluções que sejam benéficas para o planeta e para as pessoas.

Banco Estrada, de Domingos Tótora. Foto: divulgação
Existem muitos caminhos para o design consciente. Minha intenção, aqui, não é esgotar o assunto e sim propor um recorte bem específico, a partir do viés matérico – elemento crucial no processo de design. Essa escolha se deve basicamente a duas razões. A começar pelo impacto que eles têm: segundo dados da Fundação Ellen Mac-Arthur, a extração e o processamento de recursos naturais são responsáveis por mais de 90% da perda de biodiversidade e do estresse hídrico no planeta. O outro motivo é o interesse no tema, que vem de longa data: acredito que a busca pela inovação passa necessariamente pelos materiais (sejam eles próprios ou a forma de usá-los), e tanto minha prática jornalística quanto as pesquisas e leituras que realizo têm, até aqui, confirmado essa hipótese.
Vejamos, então, alguns casos que mostram como o projetar com consciência vem acontecendo no design autoral brasileiro e alimentam minha esperança no design como um agente de mudança positiva – sem deixar de lado o maravilhamento que esperamos. Observo quatro abordagens em relação à matéria-prima, que podem tangenciá-la ou ir direto em sua essência.

Alexandre Rögelin Prass, Filipe Saur Santos, Thomas Alberto Weirich e Fabricia Sandrin Zin (naE - Núcleo de Arquitetura Experimental), Cama “Kerecha”. Foto: Guilherme Jordani
1. Uso racional de matérias-primas habituais
O primeiro passo para um design mais consciente é questionar a utilização dos materiais já habituais. Isso inclui otimizar o uso da matéria-prima, reduzir desperdícios na fabricação e optar por insumos certificados ou provenientes de cadeias produtivas responsáveis. Aqui trago dois exemplos que mostram como a racionalidade no uso dos materiais pode resultar em produtos que geram menos desperdício, são mais fáceis de armazenar e também de transportar, reduzindo a pegada de carbono.
Um exemplo é a linha Alfaiate, do Studio De La Cruz, composta por uma mesa de centro e duas mesas laterais em diferentes tamanhos. As chapas de aço inox são entregues desmontadas, em embalagem flat; cortes precisos no material fazem com que os pés se encaixem facilmente ao tampo, enquanto percintas de poliéster com fivelas (normalmente utilizadas para alças de mochilas e acabamentos de vestuário) dão estabilidade ao conjunto e eliminam a necessidade de solda ou parafusos.
Outro caso que merece menção é o da premiada cama Kerecha, criada pelo Núcleo de Arquitetura Experimental (naE) em 2024 para atender a famílias afetadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul. O móvel foi pensado para maximizar o uso de uma única chapa de compensado naval, permitindo a fabricação de uma cama de casal ou duas de solteiro. Com estrutura leve, robusta e resistente à umidade, sua montagem é intuitiva, sem necessidade de ferramentas

Ana Neute, linha "Solo". Foto: Brejo

Giacomo Tomazzi, poltrona "Bo". Foto: Raul Fonseca
2. Resgate de materiais e técnicas antigas
Valorizar técnicas artesanais e materiais tradicionais é outra alternativa consciente, pois resgata saberes locais, fortalece comunidades e evita processos industriais de alto impacto ambiental. Muitas técnicas artesanais, como a tecelagem e a marcenaria tradicional têm menor pegada ecológica do que a produção industrial em larga escala.
É o que acontece com a poltrona Bo, de Giacomo Tomazzi, que recentemente ganhou uma edição limitada, apresentada na SP-Arte 2024, na qual foram considerados os ciclos de produção, uso e descarte de todos os materiais empregados. Nesta versão, a estrutura é de aço inox, o assento foi tramado artesanalmente com a fibra natural de carnaúba e o encosto é feito com o couro vegano Pinatex® (feito das fibras da planta do abacaxi).
O primeiro passo para um design mais consciente é questionar a utilização dos materiais já habituais. Isso inclui otimizar o uso da matéria-prima, reduzir desperdícios na fabricação e optar por insumos certificados ou provenientes de cadeias produtivas responsáveis.

Estúdio Campana, estante "Faquir". Foto: Fernando Laszlo
Solo, de Ana Neute é uma coleção que resgata a taipa de pilão, método vernacular de construção que consiste em comprimir a terra com golpes de pilão. Este processo de baixo impacto ambiental tem sido retomado na arquitetura contemporânea, e aqui serve à criação de mesas laterais, mancebo, vasos e castiçais. Com o apoio de Fernando Ogando da Artesania, foram produzidos blocos em taipa que formam a base das peças, os quais recebem, em contraponto, a delicada estrutura de madeira.
Outro exemplo é a estante Faquir, do Estúdio Campana, apresentada recentemente na Galeria Luciana Brito. Aqui, Humberto Campana e seu time recuperam o bambu como material construtivo e abrem mão de qualquer outro material, tirando partido da resistência e versatilidade dessa gramínea tão ecofriendly e ainda pouco explorada no design e na arquitetura brasileiros.

Hugo França, banco "Una". Foto: Tomas Vianna
3. Circularidade de materiais: reuso e reciclagem
A reciclagem e, ainda mais, o reuso dos materiais têm se consolidado como estratégias cada vez mais utilizadas para minimizar os impactos ambientais. Produtos feitos com materiais reaproveitados ou desenvolvidos a partir de resíduos da própria indústria, como retalhos de tecido, plásticos reciclados e sobras de madeira, evitam o descarte prematuro de recursos valiosos.
Um dos pioneiros no reuso de madeira no Brasil, Hugo França utiliza árvores caídas como matéria-prima para seu trabalho. Usando ferramentas manuais, ele transforma essas árvores em esculturas utilitárias, buscando ressaltar a beleza natural da madeira. É o caso do banco Una, que aproveita as raízes como elemento plástico.
Outra maneira interessante de reutilizar materiais valiosos é combinar várias partes de tamanho pequeno para formar um todo maior, como fez Giorgio Bonaguro com os bancos Guaíba, que reaproveitam sobras de mármore e raízes de árvores descartadas, coladas e depois usinadas, ou Lucas Recchia com a mesa Caco, feita da fusão de cacos de vidro.
Assumo aqui o risco de ser bastante óbvia, mas não posso me furtar a dizer: é cada vez mais improtelável pensarmos em formas de atender às necessidades atuais sem, no mínimo, comprometer as gerações futuras. E o design tem um papel importante nesse sentido.

Lucas Recchia, mesa "Caco". Foto: Romulo Fialdini

Giorgio Bonaguro, bancos "Guaíba". Foto: Claudio Fonseca
Ou como a linha Nu, do Assimply Studio, que utiliza alumínio reciclado e um mix de cerâmica, mármore bege Bahia e vidro de descarte incorporados a uma massa cimentícia, pigmentada com pó de tijolos.
Necessário mencionar, também, o trabalho precursor de Domingos Tótora, que há mais de 20 anos vem reciclando com maestria o papelão recolhido na cidade de Maria da Fé (MG) e arredores, fazendo o material à base de celulose “voltar a ser madeira”, como no belíssimo banco Estrada.
Também é possível tirar partido das matérias-primas recicladas combinando-as com outros convencionais, como no caso da mesa de centro Raízes (design Patricia Urquiola para a ETEL), em que a madeira encontra o Marwoolus –um composto de resíduos de mármore e fios de lã desenvolvido por Marco Guazzini –, que ganha destaque aplicado no tampo da peça.

Linha Nu, do Assimply Studio. Foto: divulgação
4. Experimentação e Desenvolvimento de Materiais Ecofriendly
A pesquisa de materiais inovadores tem impulsionado o design sustentável para além da reciclagem tradicional. Hoje, designers tiram partido de biomateriais derivados de algas, micélios (fungos), cascas de frutas e outros resíduos orgânicos. Esses materiais são biodegradáveis e, não raro, apresentam propriedades semelhantes ou superiores às opções convencionais.
O micélio (rede de filamentos do fungo, responsável pela absorção de nutrientes e crescimento) tem sido considerado um dos materiais mais promissores e vem atraindo o interesse não só de designers independentes como de empresas. O barquinho Sail, criado pelo estúdio Furf com o biomaterial da start-up Mush Eco, é uma urna cinerária que se dissolve naturalmente na água – biodegradável, ela oferece uma "última jornada" para as cinzas.
O mesmo Furf também assina o banco Primavera, que se destaca pelo revestimento de BeLeaf, um material com características similares à do couro bovino, mas feito a partir de folhas de Colocasia gigantea (conhecida como “orelha de elefante”) e tingido organicamente em vermelho.

Mariana Ramos e Ricardo Inneco (Estúdio Rain), luminárias da série "Ricino C". Foto: Winnie Bastian

Mariana Ramos e Ricardo Inneco (Estúdio Rain), detalhe de luminária da série "Ricino". Foto: divulgação
Ainda mais experimental é a série Ricino, criada por Mariana Ramos e Ricardo Inneco, do Estúdio Rain, desde 2018, tendo como principal matéria-prima uma resina vegetal à base de óleo de mamona.
Desenvolvido por pesquisadores da USP São Carlos, o material era usado na construção civil como impermeabilizante ou verniz; percebendo sua estabilidade térmica e capacidade de difusão luminosa, Mariana e Ricardo decidiram explorá-lo em uma coleção de luminárias. Em 2024, a pesquisa evoluiu e, no momento, a dupla investe na experimentação de materiais compostos, que incorporam elementos naturais como flores, frutas, raízes, algas, sementes e rochas, resultando em diferentes tonalidades, texturas e densidades, adaptáveis para diversos usos.
Como vimos, há muitos caminhos sendo trilhados, e a criatividade dos designers pode, de fato, ser uma força transformadora. Que as escolhas conscientes de hoje possam inspirar o design do amanhã!

Patricia Urquiola (ETEL), mesa de centro "Raízes". Foto: Fernando Laszlo

Maurício Noronha e Rodrigo Brenner (Furf Design Studio), banco "Primavera". Foto: divulgação