,Ovo

São Paulo, Brasil


Sobre

Desde que surgiram, há 21 anos, Luciana Martins e Gerson de Oliveira
fazem um trabalho situado no limite entre o design e a arte. Sem
medo de experimentar e de abrir caminhos, primam por uma criação
inteligente. Seus objetos têm o poder de conciliar a concisão com a
capacidade de surpreender.

Uma cadeira que se esconde num cubo preto e se revela apenas
ao receber o corpo do usuário; bolas de sinuca que são deslocadas
de sua função para servirem de cabides; planos que desenham
percursos múltiplos: são vários os exemplos de uma produção que
instiga e confunde a nossa percepção, fazendo com que o nosso
relacionamento com os objetos não seja de consumo (uso imediato
e tantas vezes alienado), mas de fruição (que não se estanca no
primeiro contato mas, antes, vai trazendo novas nuances à medida
em que o tempo passa).

É nessa capacidade de oferecer mais do que a função, de brincar
com a nossa percepção e nos fazer pensar, de mexer com nossos
parâmetros que, a meu ver, reside a pulsão artística do trabalho da Ovo,
tornando seus objetos e móveis algo para usar, mas também para ver
e para colecionar. Para guardar – naquele sentido original do verbo, de
preservar, manter, conservar.

Por mais instigantes que sejam à primeira vista, as peças se revelam,
no uso, perfeitamente funcionais – e esse acaba sendo mais um
elemento da surpresa; uma confirmação de que não abrem mão de ser
design. Elas em geral são mutantes. Permitem diferentes composições,
configurações e disposições, para desejos e necessidades que variam
ao longo do dia ou da vida. Em muitas, assiste-se ao desdobramento
da forma e/ ou da função. Podem estar no chão e subir pelas paredes,
e daí voltarem novamente ao chão, ganhando novas utilidades em cada
fase do percurso.

Cabideiros, prateleiras, bancos, mesas, cadeiras e sofás intercambiam
suas funções. São objetos híbridos, dinâmicos, flexíveis, que rompem as
fronteiras das classificações. A liberdade se manifesta também na escolha
dos materiais. Eles passeiam à vontade entre os metais (aço inox, alumínio,
ferro...), as madeiras (maciça, laminada, mdf), os tecidos, os vidros e os
acrílicos. E, se não abusam das cores, também não se furtam a elas.

Sem cair na assepsia do modernismo tal como foi lido por tantos,
como um grilhão a impedir vôos e poesia, os móveis e objetos
desenvolvidos por Luciana Martins e Gerson de Oliveira têm clareza
de pensamento e de construção; buscam a forma justa, sintética
e depurada da criação divina que escolheram para dar nome a seu
estúdio, como uma profissão de fé: ovo. Como haikais concisos
e surpreendentes, comunicam a contemporaneidade e ao mesmo me
parecem pré-destinados a transcender o tempo em que foram feitos.

Adélia Borges é crítica, historiadora de design e curadora. É autora de Design +
Artesanato: O Caminho Brasileiro, de 2011; e Designer não é Personal Trainer, de 2002, entre outros livros. Foi diretora do Museu da Casa Brasileira (2003 a 2007) e curadora geral da Bienal Brasileira de Design (2010). É professora de história do design na Faap e jornalista colaboradora de várias publicações.

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Gerson de Oliveira
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