A fotografia latino-americana e o legado de 1968

10.09.2018 – 10h41

Por Rodrigo Orrantia

 

Para quem acompanha a história da fotografia, não é novidade que, até a década de 1980, ela não era devidamente reconhecida como arte, pelo menos na América Latina. Quatro anos atrás, foi aberta uma grande exposição retrospectiva na Fondation Cartier Pour L’Art Contemporain, em Paris, para explorar a fotografia produzida no continente latino-americano a partir de 1960. A mostra “América Latina 1960-2013. Photographies” [América Latina 1960-2013. Fotografias] trouxe aos holofotes trabalhos de grande relevância para cada país da região, reunidos em um mesmo espaço pela primeira vez. Ela apresentou uma geração de artistas que atraiu interesse de historiadores e curadores de arte e forneceu um panorama esclarecedor a respeito da América Latina, trazendo um olhar para aqueles que sofreram a censura, desaparecidos políticos e marginalizados.

A exposição enviou uma mensagem para o mundo da arte global: a fotografia produzida na América Latina durante a segunda metade do século XX não só é valiosa, mas também indispensável para juntar histórias nacionais aparentemente sem conexão. As vertentes comuns entre trabalhos e artistas de toda a América Latina abriram meus olhos para uma história mais profunda e mais complexa, que tenho me empenhado em destrinchar e explorar desde então.

A noite de abertura da exposição “América Latina 1960-2013. Photographies” foi um marco ao reunir artistas que não se encontravam há mais de vinte anos, atraindo algumas das cabeças pensantes e autores de arte e fotografia do continente. O breve ensaio escrito por Luis Camnitzer intitulado “Imagination Redirected: Photography and Text in Latin America 1960-2013″ [Imaginação redirecionada: fotografia e texto na América Latina de 1960 a 2013] orientou a pesquisa que eu empreenderia nos anos seguintes. Pensando sobre a história política e social do continente durante o século XX, Camnitzer explica: “Não é coincidência que tenha havido uma onda de pensamento e atividade progressista nos anos 1960 e 1970, conforme o empoderamento e a liberação tornaram-se temas em muitas áreas culturais”. Ele destaca a emergência de teorias e movimentos revolucionários pela educação livre e autonomia das universidades e, mais importante, reflete sobre como a ideia de resistência espalhou-se pelo continente.

Essas duas décadas tornaram-se foco do meu interesse como historiador e curador de arte, não só por motivos acadêmicos, mas também devido ao sentido de conexão pessoal. Os artistas que trabalharam durante esse período têm aproximadamente a mesma idade de meus pais. Consigo reconhecer claramente sua influência em uma geração inteira – a minha geração – e como levaremos o legado deles adiante. A pesquisa parece ter ganhado ainda mais urgência nos últimos anos, pois muitos artistas importantes daquela geração faleceram recentemente – expoentes como Felipe Ehrenberg (1943-2017) e Graciela Sacco (1956-2017) – tornando mais importante do que nunca destacar sua visão e seu trabalho contemporâneo.

Este ano marca o aniversário de cinquenta anos do verão de 1968. O que começou como uma série de manifestações estudantis na França tornou-se um movimento cultural global que definiu toda uma geração. Os artistas nascidos na década de 1940 tinham em torno de vinte anos à época, e o impacto dessa experiência é evidente na maior parte de suas obras. Mapear o pensamento e o trabalho de artistas de mais de vinte países na América Latina abriu um empolgante caminho para pesquisa.



Recentemente trabalhei com o artista argentino Marcelo Brodsky, pesquisando e escrevendo sobre seus projetos “Buena memoria” [Boa memória] e “Tiempo de arbol” [Tempo de árvore], ambos realizados em resposta ao regime ditatorial da Argentina no final dos anos 1970. Encontrei-me com Brodsky para a instalação e abertura de seu último projeto – “1968: El fuego de las ideas” [1968: O fogo das ideias] –, em Paris, antes do início de uma turnê de um ano ao redor do mundo. Trata-se de um trabalho ambicioso, para lembrar e celebrar o espírito daquele verão agitado, no estilo que se tornou sua marca registrada. Ele passou anos pesquisando arquivos públicos e privados, jornais, bibliotecas e até leilões online, em busca de imagens originais das mais importantes manifestações ao redor do mundo disparadas pelo lendário levante em Paris e em toda a França.

Pedi a Brodsky para me contar mais sobre as fotos que encontrou no Brasil e a intenção de retratar o espírito de 1968. As duas imagens na série sobre o país foram feitas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e exibidas na exposição “Hiatus”, no Memorial da Resistência, na capital paulista, com a curadoria do renomado acadêmico Márcio Seligmann-Silva. A imagem do Rio foi encontrada no arquivo do Jornal do Brasil, com a legenda “Artistas de teatro na greve contra a censura, em 1968, na Baía de Guanabara, RJ. A ditadura censura as obras consideradas ‘políticas’”. Trabalhando com lápis de cor em reimpressões das imagens originais, Brodsky destaca fragmentos, permitindo que o observador leia o trabalho como um documento neutro e, ao mesmo tempo, como uma imagem em camadas, carregada de pistas, referências e histórias ocultas. A imagem de São Paulo segue a mesma técnica, fazendo referência à “Batalha da Maria Antônia”, um confronto que aconteceu em outubro de 1968 entre estudantes da Universidade de São Paulo, opositores da ditadura militar, e alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, muitos deles defensores do regime.

No último ano, vi mais exposições e mais interesse pelos artistas dessa geração do que nos dez anos anteriores, com mostras na Europa de grandes nomes como Paz Errázuriz (nascida em 1944), do Chile; Graciela Sacco (1956-2017), da Argentina; Oscar Muñoz (1951), da Colômbia; e Rosângela Rennó (1962), do Brasil, para mencionar apenas uns poucos. Esse interesse também possibilitou que eu acrescentasse novos nomes ao meu radar, de artistas como Mario Fonseca (1948) e Mauricio Valenzuela (1951), do Chile, e Adriana Lestido (1955), da Argentina.



Em maio deste ano, a Barbican Art Gallery de Londres abriu a exposição Another Kind of Life: Photography on the Margins [Um outro tipo de vida: a fotografia das margens], apresentando “Adam’s Apple” [Pomo de Adão] (1982-87), de Paz Errázuriz, ao lado de trabalhos de fotógrafos inovadores, como Mary Ellen Mark, Daido Moriyama e Larry Clark. Trata-se de um desenvolvimento entusiasmante, que reconhece nos artistas e trabalhos vindos da América Latina, especificamente nas últimas décadas do século XX, relevância global, no mesmo nível dos contemporâneos mais prestigiados.

Atualmente trabalho com uma nova onda de artistas, fortemente influenciados pela geração mencionada anteriormente. Um dos projetos mais recentes intitulou-se “Broader Implications” [Implicações mais amplas], de autoria de Lucía Pizzani, realizado para a Photofusion, em Londres. Seu trabalho Inventario personal [Inventário pessoal] faz referência à crise atual no país em que nasceu, a Venezuela, onde há escassez de medicamentos e produtos sanitários básicos em farmácias e hospitais. Para a exposição, a instalação de Pizzani foi colocada em frente a uma seleção de imagens de fotojornalistas trabalhando na linha de frente do conflito.

Como o poeta Nicanor Parra, que usou manchetes de jornais em seu trabalho, Pizzani também faz referência à imprensa em seu projeto. Perguntei a ela sobre o título da exposição, e ela disse que tomou emprestado Broader Implications de uma manchete de jornal sobre a Venezuela: “Queria buscar na mídia uma forma de expressar as ideias por trás da exposição, para ver como essa crise era apresentada ao mundo. Esta é a minha resposta à crise venezuelana”.

O legado de 1968 pode ser visto na arte e na fotografia, veículos de resistência, através de artistas com posicionamento político marcado e de obras impactantes e inteligentes. A exposição de Pizzani é apenas um exemplo, mas está claro para mim que uma nova geração na América Latina está desenvolvendo trabalhos elaborados pelo mesmo espírito da juventude de 1968. Eles aprenderam com a experiência daqueles que
vieram antes e sobreviveram a alguns dos mais violentos anos da história do continente. Cinquenta anos mais tarde, a arte e a fotografia ainda desempenham um papel-chave, em confronto com a injustiça social e a opressão.

 

Texto publicado na segunda edição da Revista SP-Arte, em agosto de 2018.

Rodrigo Orrantia é curador e historiador colombiano