Ainda assim falo
Hoje é sabido que uma das maneiras de cercear os direitos femininos em determinadas épocas foi o de classificar as mulheres como mentalmente perturbadas, negando-lhes o direito ao livre arbítrio e obrigando-as a se submeterem aos desejos de seus pais e maridos. Caso não se encaixassem no modelo de vida imposto – muitas vezes sofrendo traições e violência doméstica – elas eram levadas para manicômios como forma de serem punidas e silenciadas.<br> Em uma de suas investigações – em hospitais psiquiátricos de Barbacena (MG), São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador – a artista se deparou com cartas que foram escritas e nunca entregues, entre os anos 1940 e 1980. Cartas que revelam de forma tocante a aflição, o horror, os maus tratos e a falta de humanidade tanto de seus familiares quanto daqueles que seriam responsáveis pelo seu “tratamento”. <br> Essa face obscura do patriarcado, por tanto tempo escondida e ainda hoje velada, é o mote deste trabalho de Juliana Sícoli, que justapõe sua própria imagem a retratos apropriados de outras mulheres, como uma forma de se colocar no lugar destas e traze-las para o tempo atual, uma vez que as tentativas de apagamento do passado ainda hoje reverberam. A artista criou uma série de obras únicas com várias tonalidades de roxo, cor da luta feminista por direitos iguais usada pelas sufragistas inglesas desde 1908, e também tom dos hematomas. Em algumas destas obras, frases pinçadas das cartas encontradas foram costuradas no verso, para que ficassem ilegíveis na parte frontal da obra e apenas se revelassem no seu avesso, como metáfora do grito que era comumente silenciado – gritos de socorro que não eram atendidos.

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