
Existe uma árvore
Livia Debbane escreve sobre “Existe uma árvore”, exposição que acontece dentro do Setor Design na SP-Arte 2026. Nesta edição, a mostra aborda a marcenaria autoral moderna e contemporânea no Brasil como uma história das árvores do nosso território.
Capa: Cadeira baixa de Joaquim Tenreiro, déc. 1950. © Divulgação
“Ficamos maravilhados com a nobreza de uma árvore, sua paciência eterna, seu sofrimento causado pelo homem ou, às vezes, pela própria natureza, seu testemunho de milhares de anos da história da Terra, suas criações de beleza fabulosa. Ela só faz o bem, com sua prodigiosa capacidade de servir, liberando oxigênio em abundância enquanto absorve gases nocivos a outros seres vivos. Seus frutos nos alimentam. Seus galhos nos dão sombra e nos protegem. E, finalmente, quando o tempo e o clima a derrubam, seu tronco fornece madeira para nossas casas e nossos móveis. A árvore continua a viver.”
Este belo elogio às árvores foi feito por George Nakashima, um dos grandes designers e marceneiros do século 20, em seu livro "The soul of a tree" (A alma de uma árvore, em tradução livre). Com sua vida dedicada a transformar madeira em móveis, Nakashima enxerga-se como alguém que sopra novamente vida nos corpos com os quais lida – troncos, raízes, pranchas – legando ao design uma dimensão temporal que se assemelha àquela da árvore: de dezenas, centenas e até milhares de anos. A convivência íntima com essa matéria permite a Nakashima, bem como a qualquer marceneiro atento, perceber que cada rastro visível é indicação da vida pregressa da árvore: a espessura dos anéis indica as condições climáticas de cada ano – se houve seca, enchentes ou fogo (quanto mais largos, melhor foi ciclo de crescimento); os nós revelam se houve ventanias; as cores e suas gradações denotam a composição química do solo.
No livro "A revolução das plantas", misto de divulgação científica e ensaio, o botânico italiano Stefano Mancuso sustenta que a diferença fundamental entre a planta e o animal reside num aspecto: sua mobilidade. Plantas são fixas, bichos se mexem. Ao longo da evolução, essa limitação fez com que os seres do reino vegetal desenvolvessem mecanismos de existência e de sobrevivência que são muito diferentes daqueles presentes nos seres bípedes, quadrúpedes, alados ou dotados de nadadeiras. Dentre as plantas, as árvores, em especial, estão ancoradas na terra. Por meio de suas raízes, elas se sustentam, buscam água e minerais, e até se comunicam com a vizinhança, numa rede criada em conluio com os fungos. As folhas, sabemos, protagonizam a fotossíntese, retirando do ar os “gases nocivos” e devolvendo para ele oxigênio puro. Plantas, nos lembra Mancuso, têm uma lógica modular e suas estruturas distribuídas; funções vitais, portanto, não dependem de um órgão apenas, como nos animais, mas espalham-se em todo o seu corpo, por isso sua incrível capacidade de regeneração e de resiliência nas condições mais hostis. A árvore é a um só tempo um ser vivo e morto: nos troncos, as células adoecem do centro para a extremidade, transformando o cerne em canais de passagem de água e nutrientes, e em madeira.
Os argumentos para manter uma árvore em pé são óbvios. Elas só geram benefícios. Por que então defender um fazer que usa árvores derrubadas? É contra intuitivo afirmar que o design pode ser um agente de preservação. Contudo, a experiência prova que, quando conduzida da maneira correta, a extração não é inimiga da floresta. Os produtos da floresta, se bem manejados, garantem, pelo seu valor econômico, a sobrevivência dos biomas nativos.

Banqueta da Oficina Umauma, de Fernanda Barretto. © Divulgação
Um dos fatores que fez do design brasileiro moderno um dos mais valiosos do mundo foi o uso de madeiras nobres autóctones. Os anos 1950 e 1960, auge dessa produção por nomes como Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues, foram também o da exploração de espécies hoje raras; sobretudo a mais célebre delas, Dalbergia nigra. Popularmente conhecida como jacarandá-da-Bahia, seu tom chocolate, seus veios bem marcados e sua resistência deleitaram os designers do período. Mas a Dalbergia nigra conta também uma história de destruição. Nesse passado tão próximo quanto distante, aquela que parecia uma riqueza infinita foi usada à exaustão, dentro e fora do Brasil. Sua exploração, na região conhecida como Hileia Baiana, entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia – uma das mais biodiversas do planeta – coincidiu com a última fronteira de desmatamento da Mata Atlântica que, ao longo dos 500 anos da chegada dos portugueses, dizimou a floresta costeira de modo a reduzi-la aos atuais 12,4%, em diferentes estágios de degradação. A devastação veloz da mata no sul da Bahia foi o que Zanine Caldas condenou, a partir dos anos 1970, através de seus “móveis-denúncia”, no qual usava troncos que sobreviveram às queimadas. Os próprios designers puderam presenciar tal velocidade: se antes usavam o jacarandá maciço, já nos anos 1970 passaram a trabalhar com folhas, ou a migrar para espécies como o mogno, oriundo da região que logo se tornou a nova linha de frente da devastação, a floresta amazônica.
A história foi uma repetição do que já havia acontecido ou aconteceria no bioma atlântico com o pau-brasil (Paubrasilia echinata), o pinheiro (Araucaria angustifolia), a secular peroba rosa (Aspidosperma polyneuron), o jequitibá (Cariniana sp.) ou a imbuia (Ocotea porosa), por fatores que se distribuíram entre a agricultura e a exploração madeireira para carvão, construção civil ou mobiliário, e a pecuária. Maurício Azeredo, importante designer e estudioso, identificou que o fenômeno era decorrência da “ditadura da madeira única”, em referência às preferências do mercado consumidor por uma só espécie. Ainda em meados de 1970, como professor da Universidade de Brasília (UnB), juntou-se ao Laboratório de Produtos Florestais do Ibama, situado no campus, para pesquisar as inúmeras espécies subjugadas neste processo exploratório. Acontecia que, depois da retirada das "protagonistas” da floresta, ateava-se fogo no restante da mata. "Perdemos a oportunidade de conhecer incontáveis espécies, dizimadas sem nada se saber sobre seu potencial uso”. Desde então, Azeredo faz do seu mobiliário um veículo de divulgação da biodiversidade botânica de nosso território.

Banco "Ressaquinha", de Maurício Azeredo, 1988. © Divulgação
O designer chegou a usar 30 tipos de madeira em apenas um móvel, das cerca de 80 espécies pesquisadas da sua xiloteca, que baseou seu ativismo. Foi um dos pioneiros a concluir um dos pilares do manejo sustentável: a rotatividade da exploração. Grosso modo, as áreas de manejo são divididas em subáreas nas quais há um controle de quantas árvores de cada espécie podem ser derrubadas, bem como um revezamento entre essas subáreas. O princípio básico é manter a densidade e a diversidade florestal. Afinal, o tempo necessário para derrubar uma árvore – principalmente depois da motosserra – é infinitamente menor que o tempo que ela levou para produzir madeira. É um fator incontornável: a sucupira amazônica leva 90 anos para atingir sua maturidade, e o jacarandá, mais de 200 anos.
Outro importante caminho frente a essa realidade foi trilhado por Carlos Motta. O designer projetou seus primeiros móveis, nos anos 1970, a partir do encontro com troncos e tábuas trazidos pela maré em praias do litoral paulista, e do contato com a população caiçara, suas canoas, remos e construções vernaculares. A partir daí, seu trabalho defende o uso das chamadas “madeiras de redescobrimento”: o estoque de vigas, pilares e fundações de edificações antigas que foram destruídas, no qual, justamente, ele pôde reencontrar joias da Mata Atlântica.

Banco "Mandacaru", de Carlos Motta, 2010. © Divulgação
É impossível ser designer de mobiliário em madeira sem ter em conta a história das árvores no Brasil. O cenário hoje é outro, claro, apesar do desmatamento, serrarias e transporte ilegais que ainda ocorrem na Amazônia – seja em busca de árvores de alto valor econômico, seja visando a expansão agrícola e pecuária ou pela simples e nefasta grilagem de terras. Atualmente é mandatório possuir o documento de origem florestal (DOF), que explicita se as pranchas que chegam aos mercados locais são provenientes do manejo sustentável – como, por exemplo, aquelas que levam o exigente selo FSC. Madeiras de demolição ou árvores recém-caídas na cidade ou no campo são outra fonte legal de matéria-prima. Hugo França, por exemplo, produz apenas com estas últimas.
Todos esses temas profundamente tocantes e urgentes são o pano de fundo da exposição "Existe uma árvore", na SP-Arte 2026. Além dos designers já citados neste texto, veremos móveis de Etel Carmona, Claudia Moreira Salles, Marcenaria Baraúna, Morito Ebine, Rodrigo Calixto, Fernando Mendes, Ricardo Graham, Julia Krantz, Zanini de Zanine, Rodrigo Silveira, Guilherme Sass e Fernanda Barretto, produzidos em mais de 20 espécies brasileiras. Em comum, estes designers compartilham o fato de serem marceneiros ou terem suas trajetórias conectadas à marcenaria artesanal. Criadores cuja experiência ensinou a reverenciar aquela matéria-prima que, antes de tudo, foi uma árvore.
Participantes
Carlos Motta
Claudia Moreira Salles
Etel Carmona
Fernanda Barretto
Fernando Mendes
Guilherme Sass
Hugo França
Joaquim Tenreiro
Julia Krantz
Marcenaria Baraúna
Maurício Azeredo
Morito Ebine
Ricardo Graham
Rodrigo Calixto
Rodrigo Silveira
Sergio Rodrigues
Zanine Caldas
Zanini de Zanine

Poltrona "Serena", de Claudia Moreira Salles para Etel, 2012. © Divulgação