São Paulo revelada. As versões de uma cidade através das lentes de quatro grandes fotógrafos

24.11.2017 – 9:56 am

“Percorro as ruas como se fossem páginas escritas”. Assim Marco Polo relatou a Kublai Khan, o soberano mongol, como eram as visitas às cidades de seu império. A citação, presente no livro “As cidades invisíveis”, de Italo Calvino, é também o lema de Cristiano Mascaro, um dos maiores fotógrafos contemporâneos a registrar São Paulo. 

Ler, decifrar e capturar as mensagens entranhadas nas esquinas de Sampa, e depois revelá-las para a posteridade como tesouros de sua história foi o que os fotógrafos da cidade fizeram ao longo do tempo.

A magia do cotidiano paulistano inspirou estes artistas e foi desnudada por eles ao longo dos últimos dois séculos. Nós escolhemos quatro nomes para fazer um recorte das mudanças pelas quais a cidade passou. Confiram!


Militão Augusto de Azevedo

Na segunda metade do século XIX, a expansão da lavoura cafeeira, das estradas de ferro e a chegada em massa de imigrantes estrangeiros provocaram uma transformação na cidade de São Paulo. Bairros, ruas e avenidas surgiam onde antes existiam chácaras e sítios. Militão Augusto de Azevedo produziu entre 1852 e 1887 um projeto artístico que sugeria um passeio pela cidade. O resultado foi publicado em sua obra mais celebrada Álbum Comparativo da cidade de São Paulo 1862-1887, até hoje uma das mais importantes contribuições para a formação da imagem moderna da cidade. Apesar de ter criado um material tão rico, Militão acabou caindo no esquecimento, pelo fato de suas fotos não serem assinadas. Mas ao longo do século XX, a larga utilização dos seus trabalhos em álbuns e livros trouxeram à tona novamente o nome do autor.


Alice Brill

Filha de um pintor e uma jornalista, Alice Brill nasceu na Alemanha e chegou ao Brasil em 1934, com apenas 14 anos, fugindo do nazismo. Em São Paulo fez amizades com grandes artistas da época como Alfredo Volpi, antes de se mudar para os EUA onde aprimorou seus estudos de fotografia. Entre os anos 1940 e 1960, já de volta ao Brasil, Alice produziu mais de 14 mil imagens de São Paulo para um projeto do então diretor do Masp, Pietro Maria Bardi. Hoje seu acervo está sob os cuidados do Instituto Moreira Salles. Para este trabalho, ela foi além do centro e das casas luxuosas, voltando suas câmeras também para a periferia, os barracos pobres e os moradores da cidade durante as atividades cotidianas.


Cristiano Mascaro

Professor, arquiteto e fotógrafo, Cristiano Mascaro começou no fotojornalismo, mas poucos anos depois passou a se dedicar aos registros da cidade. “Sempre fotografei a cidade pensando em uma grande reportagem. Além das cenas de rua, inevitavelmente fotografava as pessoas caminhando de um lado para outro até que comecei a me aproximar dos personagens que encontrava pelos cantos da cidade”, conta Cristiano, que produziu retratos em um período em que as pessoas na rua ainda eram receptivas à abordagem de um fotógrafo. “Hoje tenho me dedicado sobretudo a fotografar a arquitetura da cidade na medida em que a considero um retrato nítido do desenvolvimento do conhecimento humano. Desde o tempo das cavernas até os dias de hoje podemos, ao observar a arquitetura, compreender a evolução do domínio da técnica e da capacidade criadora do homem”, conclui.


Felipe Morozini

Do alto de uma cobertura no 10º andar da avenida São João, nada escapa às lentes de Felipe Morozini. O lugar onde o ex-advogado decidiu viver é também o ponto de observação perfeito para olhar São Paulo sob uma ótica bastante peculiar. Nos terraços, sacadas, janelas e apartamentos está o seu foco. O trabalho de Felipe mistura a intimidade, uma suposta privacidade com a imensidão da cidade. “Estou impregnado de barulho e fuligem deste lugar. E isso faz minha arte não ser apenas observativa nem com olhar estrangeiro. Eu me sinto parte de minhas imagens e pensamentos. Sou mais uma peça deste sistema, desta cidade. Eu me vejo nos outros”, reflete.