Quero uma Anita Silvia para presidente

24 Jun 2019, 6:01 pm

por joão turchi

 

A gente decidiu fazer uma cena. A gente decidiu fazer essa cena. Agora. Enquanto esse texto está sendo escrito, essa obra ainda não existe, talvez ela nunca chegue a acontecer. Não tem problema. A gente tá acostumada a ser apenas uma promessa.

Começava assim o primeiro texto que escrevi com o MEXA.

O MEXA é um coletivo formado por pessoas em situação de rua ou de vulnerabilidade, que não se declaram necessariamente como artistas, mas que se utilizam de práticas artísticas. Ele foi fundado por Anita Silvia, atriz e ativista trans, cadeirante, negra, analfabeta, após um caso de transfobia no albergue em que morava que colocou sua vida em risco. Lá, ela conheceu Dudu Quintanilha, artista visual que trabalhava como professor de artes do espaço. Depois de participar de audiências públicas que tratavam do tema e outras manifestações políticas, após tentativas de pressionar o Estado para a criação de uma casa de acolhida para mulheres trans e travestis, Anita concluiu que isso não seria suficiente. Que sua mensagem era polifônica demais pra ser emitida a partir de um só canal. Porque as vezes os pedidos são contraditórios, em outras eles são fictícios e na maioria dos casos aquilo que ela deseja nem foi ainda inventado. Ela me disse que só a arte não precisa ter um fim, ainda que muita coisa possa ser falada.

Eu começo, por isso, esse texto sobre arte queer pensando nela. Nas obras que ainda não existem. E sobre ser uma promessa.

Mandei uma mensagem de áudio a pouco para a Anita perguntando o que ela pensa sobre a expressão arte queer. Ela está sumida há algum tempo, talvez não me responda antes do prazo desse texto.

Na mensagem, disse que, para mim, queer tem a ver com estar à margem, com deslocar as categorias de gênero, nossas e da arte. Com fazer obras em zonas cinzentas em que nós, também em trânsito, possamos estar. Disse que arte queer é como um almoço de domingo com a família que você não vê há muito tempo, não o almoço em si, mas você nele, comendo em silêncio num canto, pode ser o pinheiro artificial de uma ceia de natal numa cidade quente, um autorretrato pintado com um rosto que não seja aquele que você vê no espelho, é aquele poema que a gente leu em um dos nossos encontros, Quero uma sapatão para presidente,[1] é aquela selfie sua e do Roberto comendo um sanduíche na calçada da Cracolândia ou as fotos de caras gostosos que a gente tira escondido pra mandar no nosso grupo de whatsapp. Citei também um trabalho do MEXA.

Em 2017, fizemos uma performance chamada Terminal 10 mg. A partir das vivências do grupo, traçamos um mapa da cidade de São Paulo. Os pontos identificados faziam referência a lugares centrais da história de cada uma, um ponto de prostituição, um curso técnico quase concluído, um açougue, um hospital de internação após uma tentativa de suicídio. A performance durava quase dez horas, durante as quais o público, o que veio e o espontâneo, era convidado a subir em ônibus de linha com a gente e desembarcar nesses espaços de relevância. Durante o trajeto, o ônibus se convertia em palco para um musical improvisado.

Fizemos, também, uma espécie de diário durante o tempo de elaboração desse projeto, em que contamos nossas experiências, tentando focar especialmente nos espaços que ocupamos durante cada uma delas. Era, por isso, também um diário da cidade.

Um dos textos dizia: “A cada trecho que a gente faz, matamos outros possíveis, por isso se locomover é também um assassinato”.

O termo arte queer é utilizado para uma série de obras que não apenas tratam de questões ligadas a gênero e sexualidade, porém cujos artistas situam sua prática à margem de categorias institucionais do sistema de artes, colocando seu próprio corpo e identidade como ponto central da criação. Em inglês, queer significa estranho e, ao invés da carga de ofensa que reside em sua gênese, nessas criações queer invoca o empoderamento do termo como libertação aos sistemas binários.

Desde o final dos anos 60, com a ampliação de movimentos sociais pleiteando direitos e afirmando minorias, podemos observar tanto no contexto social quanto artístico a proliferação de ativismos ligados a questões de gênero e sexualidade e a afirmação de políticas do corpo. No Brasil, a luta por direitos LGBTT+ ganha força por ocasião das repressões policiais dos anos 80, momento em que as marchas do orgulho gay começaram a ocorrer e publicações relevantes como o Lampião da esquina passaram a ser produzidas.

As fotos do artista Juca Martins durante as operações Limpeza e Tarântula, capitaneada pelo delegado José Wilson Richetti em São Paulo, voltadas a reprimir prostitutas, travestis e pontos de encontro LGBTT+ em geral, são um registro da repressão e resistência desse período.

Com a pandemia da AIDS e a difusão de teorias de gênero no final dessa década, há um aumento significativo das práticas artísticas que passam a ser categorizadas dentro de uma ideia de arte queer.

Podemos citar obras de artistas como Leonilson, no Brasil, que após seu diagnóstico produziu uma série de trabalhos com alusões à doença e Pedro Lemebel, com a obra Alacranes en la marcha, em que durante a Marcha de Stonewall saiu vestido com seringas na cabeça formando uma coroa, carregando um cartaz em que se lia “Chile retorna à AIDS”.

Anita não me respondeu ainda. Por acaso, encontrei agora Tatyane del Campobello, outra participante do MEXA. Contei para Taty sobre esse texto, perguntei o que ela achava de arte queer. Pelo que descrevi, ela me diz que o MEXA poderia se enquadrar nisso, mas ao mesmo tempo essa ideia de categorias lhe pareceu um pouco desnecessária. Ela se vê como artista em vários momentos, no MEXA, mas também quando cria personagens durante seus programas na rua. Arte é mais do que aquilo que a gente diz que é arte, ela falou.

E, pensando na ideia de queer, me contou de uma performance que quer fazer. Ela se imagina vestida de palhaço carregando um espelho, enquanto canta a música Sonhos de um palhaço. Em seguida, ela quer tirar toda a sua maquiagem, revelando ao final da música sua identidade travesti, que tem e não tem graça ao mesmo tempo.

Prometi a ela colocar a descrição dessa performance no final desse texto.

Espero que Anita goste desse artigo quando finalmente escutar meu áudio.

 

 

[1] Zoe Leonard, I want a dyke for president.


João Turchi é escritor, mestre em dramaturgia pela USP, trabalha com teatro, literatura e performance tanto individualmente quanto junto a coletivos, como grupo cinza, MEXA, Teatro do Concreto, entre outros.