Designers da 15ª edição da SP-Arte revelam suas inspirações nas artes

20 Feb 2019, 5:59 pm

A escolha das cores, os contornos, os materiais – tudo o que envolve a criação de uma peça de mobiliário também remete ao universo das artes visuais e da arquitetura. Os designers costumam acompanhar processos artísticos e eleger referências importantes na busca de uma linguagem autoral, levando a criatividade para além da harmonia entre forma e função.

Durante a SP-Arte, é possível perceber como os mundos das artes e do design caminham conjuntamente. Convidamos alguns dos participantes do setor Design no próximo Festival Internacional de Arte de São Paulo para revelarem suas inspirações. Com a palavra: Gerson de Oliveira, da Ovo, Mariana Ramos e Ricardo Innecco, do Estúdio Rain, Vera Odyn, do escritório inglês Form Bureau, e o designer Gustavo Bittencourt.

A SP-Arte 2019 acontece de 3 a 7 de abril, no Pavilhão da Bienal (Parque Ibirapuera)



“Quando penso em referências visuais sempre me lembro da trajetória pessoal de Tadao Ando. De família muito humilde, ele juntou todas as economias que conseguiu trabalhando em um pequeno comércio e partiu para a Europa com um caderninho na mão para visitar as obras referenciais da arquitetura ocidental. Assim iniciou sua formação como arquiteto. Uma curiosidade simpática sobre Ando é a dúvida que ele manteve durante um período: continuar sua carreira como lutador de boxe ou tornar-se arquiteto. Uma obra sua de que gosto particularmente é a ‘Igreja da Luz’.

Charles & Ray Eames também são uma inspiração para mim. Um ponto que me chama muito a atenção na obra do casal é a amplitude do repertório e do raio de atuação desta dupla que se transformou em um ícone do design. Eles ficaram célebres como designers de mobiliário, mas também foram arquitetos, fotógrafos, cineastas e colecionadores. Em suma, foram criadores e pensadores que reforçaram a inserção do design no campo da cultura. Filmes como ‘Powers of Ten’ e peças de mobiliário como ‘La Chaise’ nos mostram a potência de Charles e Ray Eames.

Por fim, a obra do italiano Alberto Giacometti mostra suas tentativas incansáveis de se aproximar da realidade. Nas esculturas, o excesso de trabalho resulta nas figuras finas, a matéria vai sendo retirada; nas pinturas, ao contrário, em diversas camadas de tinta. No livro ‘Um retrato de Giacometti’, ele diz ao retratado, James Lord, que nunca conseguiu reproduzir uma cabeça, e que se conseguisse apenas uma vez, pararia de trabalhar. Mesmo sem conseguir, diz que sua única opção é continuar tentando, sempre.



A atuação expressiva do nipo-americano Isamu Noguchi, que conseguiu manter uma linguagem única mesmo atuando em diferentes áreas artísticas como a arquitetura, o design, o paisagismo, a cenografia e a land art, faz de seu trabalho uma fonte farta de referências e estudos. Nos inspira ver o tratamento que ele dá aos materiais e a coerência na expressão, nos seduz as formas orgânicas, serenas e potentes do seu trabalho. Vemos uma simplicidade e uma objetividade em sua obra que são fruto de uma considerável sintetização formal e que alcançam um certo silêncio poético.

Nos interessamos pelo tratamento escultórico que a ceramista alemã Ruth Duckworth dá às suas peças e pela forma original de manipular o material. A obra dela é carregada de formas orgânicas e abstratas inspiradas na natureza e no corpo humano. Além disso, ela cria elementos bidimensionais, por vezes com chapas muito finas e delicadas. Isso nos interessa porque é uma abordagem original do material, usualmente trabalhado de forma tridimensional. Suas peças são sutis, precisas e aparentam muita fragilidade. Isso gera certa tensão na percepção delas e também dá força às obras.

Gostamos ainda dos projetos residenciais do escritório de arquitetura português Aires Mateus. A forma como ambientam as áreas internas é objetiva, precisa e essencial – referência para um de nossos objetos de trabalho. O uso que fazem de materiais orgânicos e naturais nos encanta. Seus trabalhos têm muito branco, espaços vazios, respiro, sugerindo uma calma que nos atrai. Nada parece sobrar. Há um projeto deles, em especial, que adoramos: a Casa no Tempo. É um projeto sublime: uma casa bucólica, concisa e tão sedutora. A ambientação interna também é impecável.”



“A moda é minha fonte de inspiração em todos os campos com os quais estou lidando – arquitetura, design, arte. A arquitetura é a ramificação ‘mais lenta’ da ‘árvore da arte’, por isso as mudanças não são tão perceptíveis e o resultado não é tão rápido. A indústria da moda se opõe à arquitetura em termos de tempo. É um espelho que captura e reflete todas as mudanças enquanto elas acontecem na sociedade.

Apesar de minha instalação para a SP-Arte ser totalmente preta, a cor é minha paixão. Procuro principalmente tons vibrantes e suas combinações para vida cotidiana. Posso mencionar especificamente três artistas que influenciaram a minha maneira de sentir a cor – Wassily Kandinsky, Mark Rothko e Joan Miró. Eu visito museus desde a infância graças aos meus pais e uma das minhas maneiras favoritas de passar o tempo era virar páginas de monografias de artistas ou catálogos de museus. Isso me influenciou muito. Mesmo sendo arquiteta, a arquitetura me influencia menos que a arte, a moda ou a música. Talvez porque eu preciso distrair-me do meu trabalho diário e olhar para uma direção diferente para obter novas impressões.

Outra figura que me inspirou muito foi um professor que tive na universidade. Ilya Lezhava faleceu no ano passado e foi um grande pesar para todos os seus alunos e colegas. Logo após sua morte, foi aberta uma exposição sobre um dos mais importantes feitos de sua vida: o grupo de jovens arquitetos chamado NER que sonhava em construir a cidade do futuro. Eles apareceram na década de 1960 e procuravam novas formas urbanas que fossem mais humanas.”



“Da arquitetura, o Oscar Niemeyer me inspira muito por suas formas limpas, elegantes, fluidas e pelo acréscimo das curvas – característica que geralmente não vemos no modernismo, marcado pelas linhas retas. Além disso, o arquiteto por vezes planejava uma estrutura enorme, porém não aparente, para sustentar a parte de cima de uma construção, fazendo com que as pessoas se perguntassem como seria possível equilibrar tudo aquilo. Eu trago muito disso para o meu trabalho. Sempre tentando propor alguma novidade, uma surpresa, sempre buscando a interação das peças com as pessoas. Acredito que criando uma relação entre elas, o móvel ganha alma, se torna mais que um móvel. Acaba fazendo parte da família e se tornando atemporal, para uma vida toda.

Nas artes plásticas, gosto muito de pintura, e principalmente esculturas. Gosto muito da Tomie Ohtake, pela simplicidade. Não é preciso muito para dizer algo.”

 

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