Carollina Lauriano, Daniel Lima e Hélio Menezes conversam com a SP-Arte

20 Dec 2018, 12:12 pm

por Barbara Mastrobuono e Marina Dias teixeira

 

Por ocasião do Mês da Consciência Negra, a SP-Arte conversou com diversos curadores negros sobre sua trajetória e como enxergam o momento artístico brasileiro atual. Não é porque novembro acabou que a reflexão em torno do assunto precisa parar! Leia aqui a segunda parte da série, com a curadora Carollina Lauriano e os curadores Daniel Lima e Hélio Menezes. Não deixe de conferir a primeira parte, com a curadora Diane Lima!


O que fez você decidir começar a trabalhar como curadora?

A possibilidade de criar novos campos de conversas a partir da arte.

Qual o foco da sua pesquisa curatorial?

A produção de jovens mulheres artistas na arte contemporânea.

Quais mudanças você identifica no cenário artístico de São Paulo nos últimos anos?

O levante de voz das minorias majoritárias e as grandes exposições temáticas ajudaram nas discussões sobre “inclusão”. E digo inclusão entre aspas, pois artistas negros, mulheres, queer, sempre estiveram produzindo seus trabalhos, mas sem o destaque merecido no mercado. Então acho que uma das grandes mudanças é o reconhecimento, mesmo que ainda dentro de uma segmentação.

Você tem artistas negros para indicar?

Tenho vários, desde os mais consagrados como Jaime Lauriano, Rosana Paulino, Sidney Amaral, até uma nova safra como Maxwell Alexandre, No Martins e o coletivo AEANFDC (Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural), que deram o que falar esse ano. Igi Ayedun e Samuel D’Saboia também são dois nomes que tenho acompanhado.

Quais as suas expectativas para o futuro?

Que toda discussão que já foi iniciada não se estagne, como se pensassem que já foi feita nossa parte. Com isso espero cada vez mais artistas dentro do cenário artístico do país.

 

Carollina Lauriano é formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Formada em Coolhunting (pesquisa em arte, design e moda) pela Central Saint Martins, atua como curadora independente desde 2017. Desde 2018 integra o time de curadoria e gestão do Ateliê397, um espaço independente de arte. Em suas pesquisas, interessa discutir a inserção das mulheres no mercado da arte.

 


O que fez você decidir começar a trabalhar como curador?

Eu sou artista formado pela ECA-USP e trabalho com artes visuais há vinte anos. A minha prática artística sempre se deu de forma conjunta, por meio da participação em diferentes coletivos artísticos, e isso me levou naturalmente ao caminho de curador. No caso, um curador artista, que insere a curadoria dentro de uma trajetória de pesquisa artística compartilhada com outros parceiros.

Qual o foco da sua pesquisa curatorial?

A minha pesquisa curatorial segue três eixos básicos: o trabalho com os coletivos artísticos de São Paulo, lidando com a questão da intervenção urbana, a arte e a cidade; a intersecção da discussão da arte a partir de uma perspectiva das questões raciais postas na América e no Brasil, ou seja, como as marcas do processo de uma colonização calcada na escravidão, no extermínio indígena e na perseguição religiosa formam as bases de representação da nossa sociedade, e como podemos criar contra-discursos a esse processo hegemônico; e, por fim, o eixo dos movimentos sociais que constroem hoje a resistência aos discursos totalitários presentes em nossa sociedade.

Quais mudanças você identifica no cenário artístico de São Paulo nos últimos anos?

Pela primeira vez na história, no Censo desse milênio a maior parte da população brasileira se reconheceu como afro-descendente. Isso significa que as instituições precisaram começar a pensar o seu papel em uma sociedade em que a maior parte da população se reconhece como negra, e como parte da história da escravidão negra no Brasil, levando a uma reflexão sobre os seus acervos e o tipo de representação que estão construindo, construíram e vão construir em termos de questionamentos raciais.

Você tem artistas negros para indicar?

Tenho vários, mas destaco a importância da Frente 3 de Fevereiro, do qual faço parte, que coloca, desde 2004, uma discussão focada em nossa história colonial, na história da escravidão, e nas marcas que imprimem até hoje na sociedade brasileira, criando questionamentos através da arte e por meio de uma linguagem poética, somando isso à uma investigação social.

Quais as suas expectativas para o futuro?

Eu acho que o nosso futuro está posto diante de duas forças em conflito. De um lado, temos um discurso fascista que toma corpo baseado no autoritarismo, na violência e em uma ideia de religião redentora; de outro, temos o surgimento de várias representações imagéticas e políticas surgindo de outro DNA social, excluído historicamente de nossa sociedade e que aparece agora com toda sua potência simbólica de contra-discurso. Essas duas forças estão em constante embate. O futuro, como nós sabemos, não está dado. Mas certamente está dado o embate dessas forças, no qual vamos precisar defender a ideia democrática para que esse tipo de conflito não se torne mais um conflito de sangue.

 

Daniel Lima é artista, curador, editor e pesquisador. Bacharel em Artes Plásticas, Mestre em Psicologia e doutorando em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo. Desde 2001 cria investigações-ações em pesquisas relacionadas a mídia, questões raciais, resistências coletivas, presente colonial e análises geopolíticas. Membro fundador de diversos coletivos, entre eles a Frente 3 de Fevereiro, tem em sua carreira mais de quinze prêmios. Participou de diversas exposições e festivais internacionais e desenvolveu projetos em várias cidades do mundo. Dirige a produtora e editora Invisíveis Produções. Seu trabalho pode ser encontrado em seu site: www.danielcflima.com


O que fez você decidir começar a trabalhar como curador?

Recebi um convite do Masp e do Instituto Tomie Ohtake para compor a equipe de curadores da exposição “Histórias afro-atlânticas” por conta da minha dissertação de mestrado, “Entre o oculto e o visível – a construção do conceito de arte afro-brasileira”. Nela, me debrucei sobre a produção crítica, intelectual e artística, e a construção de instituições museais voltadas à arte afro-brasileira. A partir da análise das curadorias alheias acabei me embrenhando na produção curatorial. Eu trafego no processo de deslocamento da pesquisa de cunho acadêmico para a atividade curatorial. Um trabalho de pesquisa não deve ficar encerrado nos muros da academia, mas deve atingir outros públicos.

Qual o foco da sua pesquisa curatorial?

O meu trabalho curatorial tem se voltado à produção de visualidades negras, especialmente no Brasil (embora não só), tanto pelo ponto de vista da autoria negra quanto pelo ponto de vista da representação de corpos e outros elementos e signos voltados à “cultura negra” de maneira mais abstrata e ampla.

Quais mudanças você identifica no cenário artístico de São Paulo nos últimos anos?

Vejo uma maior abertura para produções antes escamoteadas do mainstream da arte. É um processo de valorização ainda muito pontual, que deve ser ampliado para produção artística de sujeitos reincidentemente alijados dos centros de poder: artistas mulheres, de fora do eixo Rio-São Paulo, negras e negros, indígenas e de outras designações raciais, regionais e de classe. Esse cenário de mudança já indica uma relação íntima entre o cenário artístico e as discussões sociais que têm atingido o nosso país. As pressões por uma revisão da história, da história da arte e dos usos e abusos dos espaços museais e importantes galerias na cidade de São Paulo têm forçado esses lugares a olhar para outras produções. Encontro nelas uma fonte fecunda de renovação e de questionamentos sobre a própria estrutura artística na cidade de São Paulo.

Você tem artistas negros para indicar?

A Rosana Paulino é uma referência inescapável, não só pela sua produção de qualidade, sofisticada, por ser uma artista da maior importância e delicadeza, mas também por ser uma inspiração para uma série de artistas negros e não negros que vem lhe sucedendo. Outro nome é o No Martins, jovem artista da zona leste de São Paulo que conta com uma produção ainda pouco conhecida do grande público e especialistas, mas já robusta e de uma enorme delicadeza.

Quais as suas expectativas para o futuro?

Eu penso que vai ser um futuro de embate onde, por um lado, temos um cenário politico conservador, retrógrado, que visa submeter essas produções ditas minoritárias para baixo do tapete, para dentro das gavetas empoeiradas; e, por outro lado, um acumulo de lutas, estratégias e qualidade de trabalhos artísticos que já não mais se permitem submeter a um lugar que não seja de protagonismo. Gosto de apostar que esses movimentos por uma maior diversidade e pluralidade nas artes não vão dar passos para trás.

 

Hélio Menezes é antropólogo e internacionalista, graduado em Relações Internacionais e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, onde tornou-se mestre e é atualmente doutorando em Antropologia Social. Foi coordenador internacional do Fórum Social Mundial de Belém (Brasil, 2009), Dacar (Senegal, 2011) e Túnis (Tunísia, 2013). Trabalha como curador independente e tem desenvolvido pesquisas sobre arte afro-brasileira, relações raciais no Brasil, juventudes, antropologia da imagem, museus, arte e ativismo. Foi também um dos curadores da exposição “Histórias afro-atlânticas” (MASP e Instituto Tomie Othake, 2018) e da mostra de performances “E eu não sou uma mulher?” (Instituto Tomie Ohtake, 2018).