Xiloceasa: o coletivo artístico dos 'Crias do Ceasa'

Xiloceasa: o coletivo artístico dos 'Crias do Ceasa'
É fundamental iniciar este texto sobre o Xiloceasa passando pela história do Acaia. Em 1997, na região do Ceasa, a artista Elisa Bracher recebia crianças das favelas do 9, da Linha e Cingapura Madeiriti para oficinas de arte e marcenaria. Ano a ano as atividades foram se expandindo. Passaram a ser realizados também atendimentos psicológicos, oficinas de culinária, de música e de capoeira paralelamente à oferta de assessoria jurídica às comunidades e de cursos pré-vestibular. O ensino formal começou em 2014, primeiro com educação infantil, e, em 2017, com educação fundamental 1 e 2, com aulas em período integral e atividades de pintura, música, marcenaria, costura, tipografia e xilogravura. O ateliescola destaca a importância do acesso à educação em sua missão: “Queremos provar que toda criança, independente de sua origem ou contexto socioeconômico, é capaz de enfrentar os desafios da vida se tiver uma escola plural e de qualidade, com condições de aprendizagem e bem-estar para fazer boas escolhas”. O Acaia é uma daquelas instituições que nos brilha os olhos e nos dá esperança de dias melhores, com menos desigualdade social. Imagine como seria se tivéssemos mais modelos de escola como este, espalhados pelo país inteiro?

Parte dos integrantes do Xiloceasa: Danilo Juliano, Mateus Carneiro, Igor dos Santos, Fernando Mariano, Ramon Santos, João Lucas e João Amorim.
O Xiloceasa surge em 2005 como um coletivo de alunos dentro do ateliescola acaia, idealizado pelos artistas Fabrício Lopez e Flávio Capi (Flávio Castellar). Com produções focadas em xilogravura, tipografia manual e muralismo, eles criam desde matrizes de grandes dimensões até cartazes informativos para a comunidade. Além do trabalho no ateliê, os artistas atuam como arte-educadores e desenvolvem ações com crianças e jovens. No início do projeto, o coletivo fazia inscrições em editais e projetos para melhorar a infraestrutura do espaço e começar a se posicionar no mercado de arte. Como uma ação de fortalecimento do grupo, criou-se um sistema de bolsas do Acaia: participantes recebiam uma quantia mensal em dinheiro como ajuda de custo e incentivo para permanência no grupo.
Hoje, 18 anos depois, o coletivo é autogerido por suas participações em feiras, vendas de obras e cursos ministrados. Ao longo dos anos, intercâmbios foram realizados em outras instituições, como na London Print Studio, em Londres. O coletivo também produziu diversas publicações em colaboração com artistas como Arnaldo Antunes e Alice Ruiz.

Detalhe de obra de Igor dos Santos
Atualmente, o coletivo – por onde já passaram mais de 30 participantes – é formado por 14 artistas: Beatriz Lira, Danilo Juliano, Denis Araújo, Fernando Mariano, Gabriel Balbino, Igor dos Santos, João Amorim, João Lucas, Kawanny Barbosa, Luiz Lira, Mateus Carneiro, Ramon Santos, Santidio Pereira e Vitor Valentino. Segundo Fabrício Lopez, coordenador do ateliescola acaia, a história do coletivo pode estar apenas no começo se levarmos em conta a magnitude do projeto e a influência que os jovens artistas têm na comunidade. Alguns dos integrantes do Xiloceasa cresceram e se desenvolveram junto com o projeto, tiveram contato com a xilogravura ainda na infância e seguem parte do grupo até hoje. Eles são os “Crias do Ceasa”. É assim que Fernando Mariano, artista e coordenador do coletivo, os chama.

Obra de João Lucas
São muitas as semelhanças de realidades vividas pelos artistas do coletivo. Em sua grande maioria, são jovens que vivem na região do Ceasa, de famílias que migraram do nordeste do país para a capital paulista, e que levam essa bagagem familiar para suas obras. Eles se inspiram uns nos outros e buscam referências em novos artistas, caso do carioca Maxwell Alexandre, que, em suas pinturas, retrata figuras negras em posições de ascensão e poder.

Obra de Fernando Mariano
Pude ter contato com alguns integrantes do coletivo durante a minha visita ao ateliê. João Lucas me apresentou xilogravuras de pássaros inspirados em espécies que ele via ao redor de sua casa, no Piauí, onde nasceu e viveu até os 11 anos de idade. Já João Amorim usa elementos da natureza, como representações de plantas com sobreposições e um jogo de direções com a mesma matriz com impressões em lados opostos. Igor dos Santos tem como referência animais das mais diversas espécies, entre baleias e onças. Além da fauna e da flora, integrantes do coletivo também costumam retratar a vida cotidiana na favela, suas vivências e figuras do dia a dia nas quais se inspiram. Fernando, coordenador do coletivo, está no Xiloceasa desde os 6 anos, e possui como referências a música, memória e o cotidiano. Danilo Juliano e Mateus Carneiro têm, entre outros, o grafite como inspiração.

Detalhe de obra de Igor dos Santos

Obra de Mateus Carneiro
O conceito de coletividade é quase palpável no ateliê. Ali é onde todos se desenvolvem juntos, ajudam, inspiram e apoiam uns aos outros. É revigorante ver o cuidado, a união e a força que os artistas têm em grupo. “A gente não ensina a cavar madeira, a imprimir, a gente ensina a ser ético um com outro. A gente está aqui numa formação ética mesmo, de companheirismo”, diz Lopez, um dos idealizadores do projeto. O Xiloceasa, como ouvi diversas vezes durante a visita, é família.
Apesar das dificuldades encontradas no cotidiano opressor das favelas, tanto do tráfico quanto da polícia, os artistas persistem em encarar também o desafio de ser artista, nutrir amor pela prática e não abandoná-la. O intuito do Xiloceasa é ser um lugar seguro e acolhedor, ajudando os jovens a encontrar sentido na prática artística e, pelo que vi, o intuito é alcançado pouco a pouco, com cada jovem que passa por lá. O coletivo se orgulha em dizer que já é possível ver a mudança da realidade da comunidade. Segundo eles, a grande maioria dos moradores da região sabem o que é xilogravura, grafite, lambe, muralismo. As crianças encaram a prática da xilogravura com facilidade e têm os artistas do coletivo como referência. O grupo realiza uma gráfica comunitária para comunicar reuniões de moradores, campeonatos de futebol e campanhas de vacinação. Desta forma, a própria comunidade vê o potencial artístico que existe naquele espaço. A referência da xilogravura na comunidade é tão perceptível que ex-alunos usam elementos de suas experiências no Xiloceasa na vida prática. Um deles criou a identidade visual de sua lanchonete na Favela da Linha com elementos da xilogravura.

Obras de Danilo Juliano

Obra de João Amorim
Apesar da longa caminhada, os integrantes sentem que o coletivo está sendo reconhecido por outros artistas, por instituições e pelo mercado de arte, e que eles passaram a ser respeitados nos eventos por onde passam. Segundo o integrante Mateus Carneiro, o Xiloceasa é uma porta de entrada e revelação de novos talentos.
O estande do Xiloceasa na SP–Arte Rotas Brasileiras 2023 apresentará a produção histórica do coletivo com painéis compostos por matrizes produzidas ao longo dos anos. Segundo eles, o intuito é apresentar a força geracional do momento histórico dos anos 2000 pensando no território do macro para o micro: Brasil, São Paulo, Zona Oeste, Ceasa, Xiloceasa.

Ateliê de xilogravura do ateliescola acaia. Do lado direito da imagem, o mapa da região da Vila Leopoldina