Um acervo de paixões: conversa com Edmar Pinto Costa

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25 ago 2023

Acima: Ex-votos | Coleção Edmar Pinto Costa

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Um acervo de paixões: conversa com Edmar Pinto Costa

O colecionismo de arte é uma prática antiga e que move paixões. Para além de adquirir obras, colecionadores muitas vezes se propõem uma missão mais ampla, de salvaguardá-las com cuidado, preservando histórias e culturas para a posteridade, com o sentimento de compartilhar como horizonte. O colecionador e pesquisador de arte Edmar Pinto Costa é um desses.


Campo-grandense radicado em São Paulo desde 2010, Costa foi fisgado pela arte ainda na infância, mas foi na capital paulista que o interesse em adquirir obras floresceu e tornou-se um hábito. Nesta entrevista, ele fala à SP–Arte sobre o surgimento da paixão pelo colecionismo, o esmero de suas pesquisas e suas opiniões sobre a arte brasileira.

Detalhe de obras de Irineia Rosa Nunes da Silva | Coleção Edmar Pinto Costa

Detalhe de obras de Irineia Rosa Nunes da Silva | Coleção Edmar Pinto Costa

Quando, como e por quê comprar obras de arte tornou-se, de fato, uma prática colecionista? Isto é, em que momento você percebeu que sua coleção tinha um foco?


Gosto de arte desde pequeno… Frequentei o ateliê da artista Lúcia Barbosa em Campo Grande, e isso foi importante para a formação do meu interesse. No início da vida adulta, comprei trabalhos de alguns artistas fundamentais do Mato Grosso do Sul: Humberto Espíndola, Ilton Silva, Jorapimo, Masahiko Fujita, além de artesanato local e da própria Lúcia Barbosa. Só depois de me mudar para São Paulo, já com 24 anos, passei a ter uma dedicação mais constante e um olhar mais atento, também em função da programação da cidade – todo tempo livre era dedicado a visitar museus e exposições.


A mostra “Teimosia da Imaginação: dez artistas brasileiros”¹, realizada em 2012 no Instituto Tomie Ohtake, foi um choque para mim. Ao ver reunidos Zé Bezerra, Antônio de Dedé, Aurelino dos Santos, dona Izabel e os outros artistas, fui tomado imediatamente. Vê-los na sua individualidade, de uma maneira não folclorizada, fez toda a diferença. Saí dali chacoalhado e comecei uma pesquisa para entender o que estava vendo. Ao perceber que podia comprá-las, este movimento passou a crescer sem que eu pudesse definir exatamente o porquê mas, desde então, foi ininterrupto.


Não sei se considero minha coleção tão focada assim… é tanta pluralidade, poderia passar dias falando sobre o assunto. Tanto as obras quanto os artistas são muito diversos!


¹Exposição com curadoria de Germana Monte-Mór e curadoria-adjunta do crítico Rodrigo Naves
Conceição dos Bugres | Coleção Edmar Pinto Costa

Conceição dos Bugres | Coleção Edmar Pinto Costa

João Manoel da Silva, Hudinilson Jr. e Amilcar de Castro | Coleção Edmar Pinto Costa

João Manoel da Silva, Hudinilson Jr. e Amilcar de Castro | Coleção Edmar Pinto Costa

Você já afirmou anteriormente que não acha o termo arte popular adequado. Como você define sua coleção? Quais são suas motivações?


Até hoje não encontrei designação melhor. Enquanto isso, seguimos usando esta, apesar de ser complexo. Isso basta para definir uma gama tão extraordinária de criações, uma diversidade infinita de técnicas, temas, interesses, repertórios? Porém, quando usada com cuidado é mais apropriado do que os termos “primitiva, ínsita, inocente, espontânea, bruta, do imaginário, não erudita…” todas estas outras mais excluem que agregam. Popular é pela origem social? O uso do popular antecedido por termos como “dita, chamada, entendida” suaviza e permite algum entendimento.


É curioso refletir sobre essa questão. Grandes artistas como Arthur Bispo do Rosário, Agnaldo Manuel dos Santos e Djanira da Motta e Silva em algum momento foram chamados de artistas populares e, à medida que a leitura sobre suas obras se expande e recebem reconhecimento institucional ou do mercado, o termo popular some e passam a estar mais associados à arte contemporânea ou moderna. Se hoje os artistas são tratados pelo nome, em vários momentos tratou-se a produção como quase anônima, sem nem tentar compreender sua complexidade e respeitar minimamente seus criadores.


Entendo minha coleção como sendo de arte brasileira, já que também tenho trabalhos contemporâneos e modernos, ainda que em menor quantidade. Cada colecionador dá sua colaboração na construção do que seria nossa arte, tento reunir alguns conjuntos de artistas que mais me interessam e ainda não possuem suficiente institucionalização. Ao longo do tempo percebo que, reunidos, ganham mais força, relevância e passam então a ser melhor compreendidos.

Ranchinho - Sebastião Theodoro Paulino da Silva | Coleção Edmar Pinto Costa

Ranchinho - Sebastião Theodoro Paulino da Silva | Coleção Edmar Pinto Costa

Qual foi a primeira obra que você adquiriu? Esse primeiro trabalho ainda faria (ou faz) sentido para sua coleção hoje?


De maneira consciente, foi uma escultura da ceramista Irineia Rosa Nunes, do Quilombo dos Palmares. Curiosamente, representa uma maternidade e é do estado onde minha mãe nasceu, Alagoas. A partir daí, reuni um significativo conjunto e fui conhecê-la junto ao seu marido, também ceramista, agora já falecido, Antônio. A obra segue em pleno alinhamento com a coleção, principalmente de esculturas brasileiras em madeira e cerâmica, mas que vêm incorporando cada vez mais trabalhos bidimensionais como pinturas, bordados, talhas, matrizes de xilogravura e desenhos. Com o tempo, percebi que as figuras encontram forte diálogo com outros artistas como Conceição, Mudinho e Geraldo Cabueta.

Detalhe de obra de Paulo Orlando da Silva-POS | Coleção Edmar Pinto Costa

Detalhe de obra de Paulo Orlando da Silva-POS | Coleção Edmar Pinto Costa

Sabemos que leva pesquisas a sério: quais são os aspectos que considera na hora de escolher a obra de um artista? O que te chama atenção em um artista que permite distingui-lo de tantos outros?


Como estamos falando de artes visuais, existe um aspecto formal que sempre é o primeiro a aparecer. A pesquisa, seja bibliográfica, seja de campo, é importante para compreender o contexto em que a obra foi concebida e acaba por permitir mais leituras e estabelecer relações que, às vezes, só o trabalho não consegue comunicar. Tento ver o trabalho antes e a biografia depois. Encontrar o artista pessoalmente é um outro momento, quando possível, fundamental. Os que mais me tocam são artistas que possuem consistência… percebo que é algo mais próximo do que hoje se chama de pesquisa: é quase como se um trabalho estendesse a mão para o próximo. Outro ponto que me atrai é a liberdade no uso de materiais, muitas vezes surpreendentes.


É estranha a ideia de que as coisas surjam subitamente, como parte de um grande inconsciente. Para mim parecem demandar um tempo, não necessariamente para a execução, mas para acontecerem. Lélia Coelho Frota destaca que muitos desses criadores só se manifestam com a idade mais avançada. É como se a ideia estivesse decantando antes de ser posta em prática. Os trabalhos são, obviamente, uma consequência de todas as vivências que o criador experienciou até chegar ali, e isso acaba aparecendo. No final, o dia-a-dia é que tira a teima. Depois de muito convívio, aquilo que é interessante continua a me instigar. Durante um tempo, colocava os novos trabalhos em um aparador no pé da cama, olhava ao dormir e ao acordar…

Detalhe de obra de Antônio de Dedé | Coleção Edmar Pinto Costa

Detalhe de obra de Antônio de Dedé | Coleção Edmar Pinto Costa

Você gostaria de compartilhar os artistas que tem acompanhado mais de perto?


Infelizmente, grande parte do que reuni é de artistas que já morreram, mas tenho olhado para uma geração mais jovem com atenção. Durante a pandemia, conheci Raylton Parga pela internet, um jovem artista do Pará que mora em Brasília e usa mídias diversas. Outros dois pintores, completamente distintos entre si, Rafael Pereira e Fábio Menino também me interessam bastante.



Quantas obras há nela atualmente? Como você cuida da sua coleção?


Mais de 600. A melhor maneira de cuidado é a observação. Como eu moro com elas, estou sempre de olho, imaginando novas percepções e cruzamentos. Fundamental é compartilhar, receber, permitir que as pessoas possam conhecer, sempre penso na circulação. Eu aprendi muito a partir da generosidade de outros colecionadores e instituições, a alegria em poder retribuir é enorme.

Detalhe de obra de Antônio Poteiro | Coleção Edmar Pinto Costa

Detalhe de obra de Antônio Poteiro | Coleção Edmar Pinto Costa

Consegue destacar algumas exposições com obras suas que guarda com carinho – seja pela obra, seja pela exposição?


Dentre as mostras com que pude colaborar, destaco a de Conceição dos Bugres no MASP, primeira individual em um museu de alcance internacional. Fundamental escultora brasileira, considerando a matéria, o tema e a lacuna que preenche. São poucos paralelos para essa obra. Emocionante a visita de sua família, a vendo ocupar seu lugar, bem como a equipe do museu que eu penso ter gostado da interação… Foram mais de nove meses em que a artista dividiu o espaço com Beatriz Milhazes, Erika Verzutti e Ione Saldanha, inesquecível.


A inauguração da nova sede do Museu do Pontal no Rio tem um lugar especial por mostrar pela primeira vez em um museu as aves do escultor João Manoel da Silva, artista que tive o privilégio de acompanhar por anos e sobre quem já escrevi mas que, apesar da força da sua obra, ainda foi pouco visto. Sua obra é extremamente sintética, silenciosa e em meio àquela enorme coletiva, se sobressaía.


Outros momentos importantes foram a Trienal no SESC de Sorocaba e a mostra em torno da escritora Carolina de Jesus no IMS, que deram especial visibilidade à Madalena dos Santos Reinbolt que também teve sua primeira individual no MASP.

Matrizes de xilogravura, Humberto Espindola, Zé Bezerra e Mestre Saúba | Coleção Edmar Pinto Costa

Matrizes de xilogravura, Humberto Espindola, Zé Bezerra e Mestre Saúba | Coleção Edmar Pinto Costa

Madalena Santos Reinbolt e Mudinho | Coleção Edmar Pinto Costa

Madalena Santos Reinbolt e Mudinho | Coleção Edmar Pinto Costa

Como você vê o colecionismo de arte brasileira hoje? Percebe mudanças ao longo dos últimos anos?


Se colecionar arte sempre esteve associado a uma posição de prestígio social, talvez esse entendimento esteja mudando lentamente, pelo menos a partir de uma tomada de consciência em relação a este papel, ainda que, claro, seja um lugar de extremo privilégio. É uma prática que esta posição permite, associada a uma grande satisfação pessoal, um aprendizado constante. Todos os dias aprendo coisas novas, troco impressões com outras pessoas, este é um prazer e uma dedicação que quem gosta de qualquer tipo de arte compreende. Acredito na importância das coleções particulares pela liberdade de pesquisa que possuem e por acabarem desenvolvendo um trabalho que instituições públicas nem sempre conseguem por, dentre outros motivos, carência de recursos públicos.


Minha coleção é bastante recente, não sei se consigo estabelecer uma diferença ao que historicamente já representou. Quando vejo a bibliografia, penso em coleções quase exclusivas de arte moderna e não é mais assim. Noto que o mercado cresceu muito desde que comecei, fácil de se perceber: o tamanho das feiras e a quantidade de galerias que abriram neste período apontam para um número cada vez maior de colecionadores. O foco das galerias também parece estar mudando, em forte sintonia com as instituições, raras são as que têm um perfil específico. Muitas fazem mercado secundário, resgatam artistas, apresentam mostras individuais de nomes antes tidos como “outsiders”… Por um lado, isso representa uma riqueza enorme, porque é um índice de que preconceitos estão sendo derrubados e isso acaba também por sinalizar caminhos para novos colecionadores.

Detalhe de obra de Madalena Santos Reinbolt | Coleção Edmar Pinto Costa

Detalhe de obra de Madalena Santos Reinbolt | Coleção Edmar Pinto Costa