Teresinha e Valeska Soares: desejo que se reproduz

Eis o embate que todos nós conhecemos: o que assimilar e o que rejeitar daquilo que nos foi transmitido por nossos pais? É comum fugirmos, buscando traçar nosso próprio destino. No entanto, há sempre um elemento misterioso da nossa linhagem do qual não somos capazes de nos desfazer. Pois bem: é essa força telepática que circula entre uma mãe e uma filha que poderá ser capturada no projeto que apresenta, pela primeira vez, o trabalho da artista Teresinha Soares em diálogo com o de Valeska Soares no estande da Gomide&Co na SP-Arte Rotas 2025.
Com uma produção artística relativamente breve, concentrada em cerca de dez anos, Teresinha Soares (1927, Araxá) abriu caminhos na paisagem da arte brasileira. Atuando entre 1966 e 1976, absorveu a ebulição daqueles tempos contraculturais e a trouxe à tona no seio da alta sociedade mineira. Não sem alarde, vide manchetes de jornal da época: “Pintora que escandaliza ‘society’ vai expor em SP”; “A pintora Teresinha não tem medo do ‘tabu sexual’”; “A arte ousada de Teresinha Soares”; “Ela ganha todas as bienais de excentricidade”; “Teresinha Soares e a arte como um vulcão de Eros”; “Quem tem medo de Teresinha Soares?”

Retrato de Teresinha Soares, 1968. © Cortesia Gomide&Co e Atelier Teresinha Soares
Em uma, o corpo, o desejo e o erotismo foram escancarados; em outra, a dúvida e o mistério imperam
— Fernanda Morse

Teresinha Soares, "Um homem e uma mulher I", 1967. © Filipe Berndt/cortesia Gomide&Co
Longamente adormecido, o vulcão Teresinha foi reativado de alguns anos para cá, com obras voltando circular em importantes coletivas, como "The World Goes Pop" (Tate Modern, 2015); “Radical Women: Latin American Art, 1960–1985” (Hammer Museum / Brooklyn Museum, 2017; Pinacoteca de São Paulo, 2018); com uma panorâmica no Masp (2017) e, mais recentemente, individual na galeria Gomide&Co. Tendo explorado meios como a pintura sobre tela e madeira e a serigrafia, além de realizar performances, happenings e afins, Teresinha Soares encontrou na gestualidade, nas retorções, deformações e acomplamentos de corpos uma forma de reorganizar os afetos e o lugar da mulher no seu tempo, libertando-a da condição de objeto para torná-la sujeito.
Valeska Soares (1957, Belo Horizonte), por sua vez, conta ter se tornado artista “no susto”, já que não escolheu a carreira inicialmente. “Crescendo, você nunca quer ser igual a sua mãe, né?”, explica. Estudou arquitetura, e foi exercendo a profissão que passou a se interessar pela faceta poética desse ofício de construir e ocupar espaços, o que a conduziu à arte. Começou no final dos anos 1980, produzindo escultura, e desde então transitou por diferentes meios, como instalação, pintura e vídeo. Costuma dizer que não tem apego a técnicas ou materiais específicos, deixando-se guiar pelo que o trabalho pede na sua concepção.
Por cerca de 30 anos, Valeska morou em Nova Iorque, e hoje vive e trabalha em São Paulo. Em 2009, inaugurou um pavilhão no Instituto Inhotim com “Folly”, videoinstalação anteriormente apresentada na 51ª Bienal de Veneza, em 2005. Entre 2017 e 2018, contou com exposições que revisitaram toda a sua produção, realizadas pelo Phoenix Art Museum e pelo Santa Barbara Museum of Art, nos Estados Unidos, e pela Pinacoteca de São Paulo, no Brasil. Em breve abrirá uma individual na Fortes D'Aloia & Gabriel, galeria que a representa em São Paulo.

Retrato de Valeska Soares, 2025. © Eduardo Ortega/cortesia da artista e Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro
A força criativa que se transmite de uma mãe para uma filha é a história de um desejo que se reproduz
— Fernanda Morse

Valeska Soares, "Unhinged (Part 2)", 2017. © Eduardo Ortega/cortesia Gomide&Co e Fortes D’Aloia & Gabriel.
“A intimidade era teatro”
À primeira vista, o caráter frontal e narrativo das obras de Teresinha parece destoar da maneira sutil com a qual Valeska desenvolve o seu trabalho. Se em uma, o corpo, o desejo e o erotismo foram afirmados e escancarados; em outra, a sugestão, a dúvida e o mistério imperam. São retóricas distintas: o corpo presente em pernas, braços e entranhas nas obras de Teresinha se manifesta por meio da linguagem no universo de Valeska, com as “pernas” da cadeira, o “pé” da mesa e a “cabeceira” da cama introduzindo a paisagem doméstica.
Enquanto uma enfoca os personagens, a outra faz falar o que seria o décor da cena. Trata-se, aqui, de diferentes maneiras de abordar a intimidade. De repente, elas conversam: “Comecei a perceber umas familiaridades que eu nunca tinha percebido, porque nunca tinha colocado um trabalho do lado do outro para olhar dessa forma”, comenta Valeska a respeito do projeto.

Retrato de Teresinha Soares com a obra "Ela me deu a bola (Camas)", 1970. © Cortesia Gomide&Co e Atelier Teresinha Soares
Em meio às linhas sinuosas da série “Eurótica” (1970) e os contornos das cabeceiras em “Unhinged” (2017), a sensualidade do corpo se prolonga nas bordas da cama. Seios que são bocas, bundas e falos. Será que passaram por ali? O que teria acontecido em cada uma dessas camas das quais só vemos as cabeças? “A cama é onde você nasce, morre, faz filhos, faz amor, descansa e sonha...” diz Teresinha em entrevista, ao comentar o trabalho “Ela me deu a bola (camas)” (1970), em que instalou camas no chão do espaço expositivo.
Os interiores são trabalhados tanto por uma artista que também foi atriz e dramaturga, quanto pela artista que é também arquiteta, em uma reinvenção do que acontece entre quatro paredes. Para a poeta Ana Cristina Cesar, no livro “A teus pés” (1982), “A intimidade era teatro”. Voilà uma linhagem que, através da encenação da intimidade, subverte as ordens da esfera doméstica, esse domínio supostamente feminino.

Retrato de Valeska Soares, 2025. © Eduardo Ortega/cortesia da artista e Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro
Do discurso amoroso
“Eu gosto de dizer que ela fala de sexo e erotismo e eu falo de amor”, Valeska pontua. Se, de forma superficial, esse contraste leva a pensar que a filha abdicou de certa radicalidade presente no trabalho da mãe, basta lembrar do que diz Roland Barthes no verbete “O obsceno do amor” em seus “Fragmentos de um discurso amoroso” (1977), para intuir o contrário. Afinal, o amor pode ser ainda mais obsceno do que o sexo, mais pertubador e penoso de ser colocado em cena do que o encontro sexual.
Por outro lado, é claro que Teresinha também fala de amor. Há ternura tanto na “box-form” quanto na versão em pintura da sua “Caixa de fazer amor” (1967), uma ternura lúdica, unindo jogo e prazer, “sexo” e “sorte”, como se lê na tela. Já “Unhinged” traz em cada cabeceira de segunda mão o indício de um antigo ponto de encontro. Destituídos da sua função, os objetos já não sinalizam mais um local de fazer amor, mas se conectam evocando memórias a um só tempo íntimas e coletivas. O título, por sua vez, contrasta com o encadeamento contínuo da obra: em inglês, o termo indica um estado de descontrole emocional, o ponto em que as conexões são rompidas. Penso no estágio de desamor de uma história.
Por fim, há amor no diálogo. A força criativa que se transmite de uma mãe para uma filha é a história de um desejo que se reproduz, uma forma de conexão que transcende as tensões e desafios das relações familiares. E perdura: vide a produção da jovem artista Isadora Soares Belletti, neta de Teresinha, sobrinha de Valeska. Que possamos, então, celebrar mais essas linhagens, ter espaço para especular e confabular com e sobre as mães — as reais e as eletivas.

Retrato de Teresinha Soares com gravuras da série “Um homem e uma mulher”, 1967. Cortesia Gomide&Co e Atelier Teresinha Soares
Fernanda Morse é escritora, pesquisadora, tradutora e curadora. Possui mestrado e graduação em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Atua na interseção entre as Artes Visuais e as Letras, trabalhando com pesquisa, crítica e projetos curatoriais. Tem especial interesse em processos experimentais e colaborativos, baseados na estreita interlocução com os artistas. Reside entre a França e o Brasil e vem se dedicando a criar elos entre as cenas artísticas de ambos os países.