SP–Arte 20 anos: No Arouche, uma estrangeira conversa com cinco artistes sulamericanes

No Arouche, uma estrangeira conversa com cinco artistes sulamericanes
Não vou falar do seu silêncio, da sua anatomia, do seu erotismo em bronze e granito. Não te acuso de nada, afinal, você é apenas uma estátua. É verdade que foi esculpida por um autor de monumentos, Victor Brecheret, e que foi friamente encomendada nos anos 1940, seguindo uma noção torta de embelezamento urbanístico europeu. Ainda assim, tem corpo de estátua e voz de estátua em pleno Largo do Arouche, onde todos muitos corpos têm vida e falam alto – local onde, historicamente, todos os corpos diferem. Por que penso em você como uma estrangeira? Não por você ser estranha ao Arouche, mas porque sua experiência é estática. Ao contrário dos corpos que te rodeiam, você não vibra, não transita.

Vista da obra "Depois do Banho" no Largo do Arouche, Victor Brecheret, 1940. Foto: João Quintela
A partir dessa conversa improvável com uma estátua e da vontade de especular sobre um território emblemático da cidade, é que inicio minha reflexão. Estaríamos hoje diante de um movimento de reavaliação da solidão comumente imputada à noção de estrangeirismo? A premissa da 60a Bienal de Veneza, que se inicia agora em abril, parece indicar que sim.
De origem italiana, Brecheret é um dos artistas imigrantes com naturalização brasileira selecionados para essa edição da mostra, intitulada “Foreigners Everywhere” (“Estrangeiros por toda parte” em tradução livre). Mais do que um tema, o título tem certo caráter axiomático, como um provérbio que descortina uma verdade já presente no ambiente cultural. O que se postula no eixo curatorial de Adriano Pedrosa é nossa suposta condição permanente de estranhos frente ao mundo – estranhos sempre, estranhos em todo lugar, mas não necessariamente perdidos, nem física ou existencialmente. A noção de estrangeiro proposta parece apontar não para o indivíduo apartado ou desterritorializado, mas precisamente o contrário, para um indivíduo que constrói estratégias para fazer comunidades e gerar pertencimento.
De um lado, o campo institucional da arte se esforça para fazer caber outras cosmogonias em si, e com a outra mão quer manter-se intacta enquanto indústria cultural. O desejo do poder é pela via da manutenção. Nesse impasse, tais incorporações do discurso curatorial correm o risco de servir a um propósito diluidor, assimilador talvez, do que subversivo. Se para Freud o estranho (ou estrangeiro) está na ambivalência do eu, no recalcado desconhecido em todos nós, o que encontramos na arte hoje passa pelo protagonismo do espaço, a (in)determinação do mundo, uma valorização da experiência e atenção para o eu que acontece com o mundo, e não no íntimo. Justamente nessa elasticidade que se dá a possibilidade de pertença.

Pavilhão Brasileiro na Bienal de Veneza. Foto: Marco Cappelletti / Cortesia Bienal de São Paulo

"Go tell it to the mountains", da série "Primeiro Beijo", 2023, de Rafael RG. Foto: Divulgação
Rafael RG
O que é então ser estrangeiro no próprio território? Em trabalho exibido no Palais de Tokyo em 2023, o artista Rafael RG chama atenção para as privações experimentadas pela comunidade LGBTQIAP+ em países da África e da Ásia como decorrências diretas do programa de imposição cultural colonial. Impedidos de demonstrar afeto em público, amantes tiveram que abafar gestos de amor em um território que era o seu, encontrando-se encurralados na condição de estrangeiros – não por serem de “fora”, mas por não atenderem às demandas do patriarcado.
Rafael RG põe em relevo outra fronteira: aquela onde a violência institucional delimita as condições da vida. Reunindo documentos e relatos de imigrantes vivendo na França sobre seu primeiro beijo, a obra Go tell it on the mountain (Se o disseres na montanha) apresenta uma espécie de dossiê histórico-afetivo que denuncia as restrições ao amor homosexual nos países que sofreram processos de colonização.
Parte da série Primeiro beijo, o trabalho é um inventário da ternura radical – o título de uma afável e acolhedora publicação de bolso encontrada na Casa do Povo organizada por Dani d´Emilia, Vanessa Andreotti & GTDF Collective –, como repertório de sobrevivência. Como diz o manifesto do coletivo Gran Fury, em exibição no Masp, “Beijamos como afirmação dos nossos sentimentos, de nossos desejos, de nós mesmos.” Seriam os lábios capazes de desfazer certas fronteiras? Diria que sim.
Cibelle Cavali Bastos
Ao telefone com Cibelle Cavalli Bastos, artiste que vive fora do Brasil há mais de vinte anos, ouço um ponto de vista menos otimista em relação ao estrangeiro, ainda que não totalmente descrente da potência da comunidade. É entre estrangeiros, desembarcando de um oceano de identificações, que encontra certa camaradagem. Cibelle percebe o que existe de burocrático e alienante nas dinâmicas pessoais na Alemanha, país onde vive, com a mesma agudeza com que o estrangeiro de Apollinaire de 1908 percebe o frescor e a beleza das obras de arte no início do século 20. A citação ao estrangeiro de Apollinaire aparece em texto do crítico e teórico francês Yve-Alain Bois, intitulado “Some Latin Americans in Paris”, parte do volume sobre Abstração Geométrica organizado pela Fundação Cisneros.
Em The sum of all and none (A soma de tudo e nada), Cibelle fala de uma subjetividade cindida que se sustenta a partir de fragmentos. Pedaços de tecido, manequins e sobras de materiais do seu ateliê se aglutinam representando essa tensão entre a recusa perpetrada pela nação de eleição e a via igualmente dilacerante dos afetos desenraizados. Se na modernidade o olhar estrangeiro contribuiu para forjar os cânones da arte, hoje, me pergunto com Cibelle como evitar a fetichização da alteridades que tende a neutralizar o corpo estranho. É possível sustentar o estrangeiro ao cânone?

“The sum of all and none", 2023, de Cibelle Cavali Bastos. Foto: Divulgação
Rosario López
No trabalho da artista colombiana Rosario López, a escultura é fruto de um exercício de cuidado, voltado para a conservação da maleabilidade dos objetos e da pluralidade de sua recepção, distante das ideologias da modernidade. Não à toa, em sua série Um mapa não é o território, ela viaja até São José de Guaviare, cidade localizada na Amazônia colombiana, para trabalhar com artesãs a partir dos pictogramas rupestres encontrados nas paredes dos Tepuis, nome dado a formações rochosas amazônicas de média escala.
Voltada para uma metodologia da reciprocidade, Rosario busca sustentar a predominância do tátil sobre o visual, da fabulação sobre a razão, que perduram nas práticas das mulheres artesãs de São José de Guaviare. O mapa aqui não existe como por solicitação de autoridades e não teria serventia alguma como ferramenta de dominação política ou geográfica. No fundo, todo mapa é estrangeiro ao território. Isso se dá pois o que o corpo verifica não pode nunca ser capturado, fixado e traduzido em sua totalidade. Todo mapa é, na melhor das hipóteses, uma ideia parcial do território, uma representação frágil da experiência.
Desfuncionalizar o mapa e torná-lo estrangeiro ao próprio conceito de mapa é, portanto, o modo que Rosario encontra para convocar outras noções de orientação que não as ocidentais tecnocratas. Através da recusa de uma aferição instrumentalizante do espaço, a artista se propõe a outras aproximações do território via o sensorial e o imaginativo.
A partir do processo de paz na Colômbia, que permitiu a circulação e acesso a regiões antes bloqueadas pelos conflitos entre o narcotráfico e o governo, zonas da Amazônia colombiana se tornam propícias a novos mapeamentos, menos cartesianos e mais imaginativos. Entrar com a arte é entrar às cegas, de modo sensível, para reimaginar um território antes inabordável.

Cortesia Resguardos indígenas El Refugio, Panure y La Fuga, Guaviare, Colombia, 2021-2022. Foto: Rosario López e Mavila Trujillo

"Capa Morada", 2003, de Cinthia Marcelle & Jean Meeran. Foto: Divulgação

"Capa Morada", 2003, de Cinthia Marcelle & Jean Meeran. Foto: Divulgação
Cinthia Marcelle
Em parceria com o artista sulafricano Jean Meeran, a artista mineira Cinthia Marcelle produziu uma série de fotografias intitulada Capa-morada (2003), que interrogam sobre a possibilidade de pertencer a um espaço que não é o seu. Nas quatro seções da série – tecidos, roupas, coisas e pessoas –, a dupla de artistas se lança a uma busca de integração radical ao espaço a partir da fusão do corpo da artista com o ambiente. Coberta por tecidos, vestindo figurinos alugados, se anexando a objetos expostos em mercados ou se amalgamando com as pessoas em um trem, Cinthia literalmente se camufla nesses contextos provando a sua total integração.
A vinculação com temas amplos da sociedade brasileira, como a herança colonial e o nosso histórico de tensões raciais, são recorrentes no trabalho de Cinthia e encontram aqui sua forma mais cáustica. Tal qual nosso comportamento social, Cinthia e Jean reproduzem, com inversão crítica, um determinado modo de lidar com nossa própria história, muitas vezes adotando atitudes evasivas. O jogo entre aparecimento e desaparecimento, entre omissão e inclusão, fica implícito nesse mecanismo de infiltração.
Seba Calfuqueo
Em sua série de pinturas chamada La voz del río, a artista chilena Seba Calfuqueo reverencia a história de resistência das irmãs Quintreman, duas anciãs mapuches que se opuseram, juntamente com outras mulheres, à inundação de seu território para a construção de uma hidroelétrica.
Ali onde a água foi forçada a cobrir a terra supostamente existia um cemitério indígena. Na cultura Mapuche, é comum enterrar uma pessoa com seus bens e com artefatos que carreguem alguma força simbólica para aquela respectiva história pessoal. A divisão entre as partes superior e inferior da tela faz referência aos objetos submersos como índice do que foi obliterado.
O projeto de desenvolvimento industrial ignorou toda e qualquer característica da área que não atendesse aos desejos extrativistas do governo chileno. A postura de viés xenófobo dentro da América do Sul é resultado da fanática cegueira capitalista que despreza tudo aquilo que não corresponde à epistemologia hegemônica.
A dimensão do sagrado aqui é colocada na posição de estrangeira ao programa industrial-capitalista. Assim como o Manto Tupinambá que ocupará o Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, a obra de Seba Calfuqueo se dedica a defender a tradição de povos originários frente a investidas coloniais.
Na era dos colapsos, quem é então o estrangeiro? É possível estabilizar esse conceito? Estabilidade em si já parece um conceito distante, ultrapassado. Almejado por muitos, mas cada vez mais fictício ou retórico. Já a noção de identidade parece desatar-se do que é constante para se filiar à transformação, à transitoriedade. A vida da escultura de Brecheret talvez nos conte sobre essa mudança. Em seu âmago, ela carrega a impossível tarefa de cristalizar a representação de uma mulher, mas veio parar no Arouche, passarela do disruptivo. Dali pode, então, nos demonstrar que a materialidade não dá conta de tudo. Em suas dimensões espirituais, afetivas, processuais e estéticas, os trabalhos aqui repertoriados juntam-se à Depois do banho no debate entre desejos e agonias do pertencer.

"A voz do rio. Cemitério indígena embaixo da água na Central Ralco", de Seba Calfuqueo. Foto: Divulgação
Obras de Cinthia Marcelle, Rosario Lópes, Seba Calfuqueo e Victor Brecheret podem ser vistas na programação da SP–Arte que acontece de 03 a 07 de abril no Pavilhão da Bienal em São Paulo.