Se há futuro, ele é ancestral

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Luana Fortes

25 ago 2023

Acima: Chris Tigra, Irradiará III, 2023

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Se há futuro, ele é ancestral

Uma conversa sobre as nossas condições de futuro a partir dos trabalhos de Alice Lara, Bozó Bacamarte, Chris Tigra, Domingos Nunes, Kaya Agari e Rommulo Vieira Conceição.


É difícil vislumbrar um futuro hoje. Pensadores de diferentes áreas têm tentado trazer reflexões, sejam elas apocalípticas ou esperançosas, sobre o que se pode esperar do que há por vir. Em Saudações aos rios, publicado em 2023, Ailton Krenak afirmou: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”.


Mas há futuro a ser cogitado quando insistentemente matas queimam, animais morrem, memórias e tradições são apagadas e pessoas não conseguem se comunicar? Para qual tempo é necessário olhar para se garantir um futuro? Possíveis respostas, ou talvez não respostas, são iluminadas pelo trabalho de seis artistas contemporâneos que estarão em Rotas Brasileiras 2023 e que ajudam a pensar sobre quais as nossas condições de futuro.

Chris Tigra, Irradiará II, 2023

Chris Tigra, Irradiará II, 2023

Envolvimento como antídoto do desenvolvimento

“Não consigo pensar em futuro sem pensar em passado e presente”, foi o que a artista Chris Tigra (Albuquerque Contemporânea) escreveu quando questionada sobre o que seus trabalhos poderiam apontar sobre o futuro. “Os tempos se misturam, namoram, discutem, dançam entre si continuamente”.


É a partir dessa mistura que a obra de Tigra contesta o pensamento e comportamento colonizado contemporâneo. “O Nêgo Bispo, um dos nossos grandes pensadores, reafirma em seu mais recente livro A Terra dá, a terra quer (2023) que o ʽenvolvimento é o antídoto do desenvolvimentoʼ e me reconheço nisso, minha vivência, incluindo a artística, mora nesse lugar”, disse Tigra à SP–Arte.


Na série “Irradiará”, a artista realiza intervenções em fotografias dos séculos 19 e 20 com linha e resíduos têxteis. Chris Tigra passou a realizar esses trabalhos após se deparar com um decreto que proibia mulheres escravizadas de usar as rendas que elas mesmas produziam. Em seus trabalhos, faz uma homenagem a suas antepassadas pelo uso do bordado e tecelagem, que remetem a técnicas bastante antigas e que muitas vezes foram inferiorizadas.

Bozó Bacamarte, Listela da sete pontas, 2023

Bozó Bacamarte, Listela da sete pontas, 2023

Bozó Bacamarte, O quarteto fantástico de Tapariné, 2023

Bozó Bacamarte, O quarteto fantástico de Tapariné, 2023

Cachimbo é meu pincel

A obra de Bozó Bacamarte (Marco Zero) também trata de um olhar ao passado, ainda que mais recente. Um de seus pontos de partida é o Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna e lançado em 1970 no centro de Recife. Diverso em linguagens e expressões, o movimento buscava aliar as noções de cultura popular e arte erudita brasileiras. A literatura de cordel esteve entre as principais referências desse movimento e foi o que bastante alimentou os primeiros passos de Bozó Bacamarte no grafite, uma das expressões do hip hop.


O artista começou pintando paredes pelas ruas do Recife a partir de uma aproximação com o grafite e por consequência com pinturas bastante relacionadas a causas sociais. Trazia imagens do Movimento Armorial como o sol e as onças e também se relacionava com uma vontade narrativa fantástica. “O movimento me ensinou a estimular a imaginação pela sua relação com a escrita de histórias. Me fazia sonhar”, disse Bacamarte à SP–Arte.


Com o passar do tempo, o artista começou a incorporar referências da religião Jurema Sagrada, que é de matriz afro-indígena e tradicional da região Nordeste brasileira. Essas referências fazem-se notar em suas pinturas em símbolos como a estrela de sete de pontas ou o cachimbo, porque é por meio dele que se faz a ligação do mundo material com o imaterial por meio da fumaça. “É uma forma de sair dessa lógica cansativa que a gente vive hoje. Eu posso dizer que meu cachimbo é meu pincel”, afirmou.

Trabalho de Rommulo Vieira Conceição em andamento

Trabalho de Rommulo Vieira Conceição em andamento

Incompatibilidade de comunicação

De cores vibrantes e estruturas familiares, a obra de Rommulo Vieira Conceição (Aura) parece um parquinho infantil à primeira vista. Mas ali a brincadeira é difícil de acontecer do jeito que se espera. Interessa ao artista olhar para como os espaços, lugares e construções podem determinar comportamentos. Exemplos dessa capacidade podem ser vistos em edifícios religiosos, como uma Igreja Católica que tenha um altíssimo pé direito e te faz sentir pequeno diante de Deus.


A partir de apropriação e desapropriação, Rommulo Vieira Conceição usa elementos desse tipo de edifício para construir o trabalho “O espaço físico pode ser um lugar abstrato, complexo e em construção”, inaugurado em Inhotim (MG), em 2021. O artista mistura arcos de Igrejas Católicas romanas, arcos de Igrejas Mouras, frontões (que apareciam muito na arquitetura clássica greco-romana e agora reaparecem em Igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais), azulejos usados em fachadas de Igrejas evangélicas e Quartinhas usadas no Candomblé e na Umbanda.


Por meio da sobreposição e embaralhamento desses símbolos e características, o artista cria na realidade movimentos que se auto-anulam, pensando sobre quais diferenças são intransponíveis e quais podem conviver em alguma harmonia. Para Conceição, o avanço de dogmas tem levado a incompatibilidade de comunicação. “Quando a polarização permite discussão, todo mundo cresce”, afirmou o artista em entrevista à SP–Arte.

Kaya Agari, detail de Menxú (grafismo feminino), 2021

Kaya Agari, detail de Menxú (grafismo feminino), 2021

De geração em geração

A ampla e pungente atuação de Kaya Agari (Carmo Johnson Projects) como artista e ativista trata de compartilhar e salvaguardar tradições dos povos Kurâ-Bakairi. Seus murais e pinturas são feitas com grafismos de seu povo que são passados de geração em geração, dos mais velhos aos mais jovens.


“Acredito que hoje houve uma expansão tanto no Brasil quanto no exterior no entendimento de que existem diferentes povos originários e nossa resistência”, afirmou Agari. Para ela, o pontapé para dar visibilidade aos grafismos específicos dos povos Kura foi o grande desafio de seu trabalho enquanto artista. “Mas hoje em dia as pessoas sabem que existem vários grafismos tanto do Xingu quanto dos Kurâ-Bakairi. A diferença está em seus significados”, afirmou.


Um exemplo desses grafismos dos Kurâ-Bakairi é o padrão gráfico Menxu, que faz referência ao peixe mitológico Menxu Ene, dono das pinturas corporais e dos peixes. Como aponta a pesquisadora Isabel Teresa Cristina Taukane, “a água e tudo que está dentro dela, como os peixes, são imprescindíveis para a manutenção da vida e da cultura desse povo”.


Kaya Agari também co-organiza as atividades do Instituto Yukamaniru de Apoio às Mulheres Indígenas Kurâ-Bakairi, que busca incentivar o protagonismo e a inclusão social de mulheres.

Domingos Nunes, A grotesca, imponente e esplêndida castanheira, 2020

Domingos Nunes, A grotesca, imponente e esplêndida castanheira, 2020

Pela mata em pé

Registros da vida ribeirinha, indígena e quilombola aparecem com detalhes nas pinturas de Domingos Nunes, um dos artistas apresentados pelo projeto Arte Pará, que tem como objetivo apoiar artistas paraenses e estabelecer um diálogo do Norte brasileiro com o resto do país. Para o artista, é importante representar a cultura amazônica e as atividades em torno dela para mostrar e evidenciar as suas características, em especial à região sudeste do país.


O trabalho de Nunes especificamente reflete sobre as relações entre a Floresta Amazônica e as atividades econômicas desempenhadas ao seu redor. “É uma resistência, pois prezo e luto pela mata em pé. Para manter a floresta em pé e sempre verde”, disse o artista. Sua experiência com as artes teve início com o desenho e está bastante relacionada com o seu contato com o acervo da Fundação Casa de Cultura de Marabá (FCCM). Entre as imagens de pescadores, garimpeiros, quebradeiras de babaçu, entre outros, e as da fauna e flora local, como a da tão registrada Castanheira, uma coisa nunca muda: o cuidado e atenção com o alto nível de detalhe.

Alice Lara, Jacaré mirando, 2023

Alice Lara, Jacaré mirando, 2023

Força dos bichos

Logo após a grande tragédia que atingiu o Pantanal brasileiro com focos de incêndio em 2020, que levou à morte dezenas de milhões de animais, Alice Lara (Asfalto) foi à residência Projeto Pantanal Agora, que nasceu da urgência de reagir ao desastre ambiental sem precedentes. O que ela encontrou foi um território em recuperação e uma comunidade enlutada, em que balsas percorriam o rio repletas de bois e em que ativistas temiam conversar por receio de retaliação e violência.


Seu olhar voltou-se para os animais que encontrava pela fazenda onde ficou hospedada e lá deu encaminhamento para sua pesquisa que busca entender como é o mundo visto pela perspectiva dos animais. “Existe uma vida dos animais sem os humanos, uma vida em que não somos os protagonistas”, afirma Lara.


A artista-bicheira, como se auto define, procura uma admissão de crise ambiental por parte das pessoas para que se possa pensar num futuro. E esse futuro depende da força dos bichos e do coletivo, que se organiza e se torna manada, alcateia, revoada.

Alice Lara, Dois bezerros fugindo e vaqueiro, 2023. Foto: Arnaldo Saldanha

Alice Lara, Dois bezerros fugindo e vaqueiro, 2023. Foto: Arnaldo Saldanha