Rose Afefé e a cidade feita com as mãos

Quem caminhar pelas ruas de Paris neste início de verão europeu, cedo ou tarde vai cruzar com o cartaz em que se lê, em um emaranhado de azul-verde-branco-vermelho-amarelo, “Brésil France 2025”. Duas décadas depois do Ano do Brasil na França, que apresentou diversas facetas da cultura brasileira em solo francês em 2005, ocorre a Temporada França-Brasil, que propõe uma programação cruzada trazendo eventos em ambos os países ao longo de 2025. Motivada pela celebração dos 200 anos de relações bilaterais, a iniciativa busca fortalecer laços históricos e culturais entre as nações a partir de três eixos temáticos: transição climática e ecológica; diversidade das sociedades e diálogo com África; e democracia e estado de direito.
No campo das artes visuais, nomes de diferentes gerações ocupam grandes instituições da capital francesa articulando os temas selecionados, como Ernesto Neto no Grand Palais, Lucas Arruda no Musée d’Orsay, Anna Maria Maiolino no Musée Picasso, Cildo Meireles na Orangerie du Sénat, Lygia Pape na Bourse de Commerce, e Laura Lima no Pantheon, além de coletivas como "Le Brésil illustré", em que 15 artistas releem a obra de Jean-Baptiste Debret na Maison de L’Amérique Latine sob a curadoria de Jacques Leenhardt e Gabriela Longman, e a coletiva "Horizontes – peintures brésiliennes", trazendo Agrade Camíz, Vinicius Gerheim, Antonio Obá e Marina Perez Simão no Grand Palais. A Temporada da França no Brasil será inaugurada em agosto em Brasília, com um fórum dedicado à juventude e à democracia.

Vista da exposição individual "A vergonha quase me tirou a memória", 2024, na galeria A Gentil Carioca. © Pedro Agilson/cortesia Rose Afefé e A Gentil Carioca

Vista da exposição individual "A vergonha quase me tirou a memória", 2024, na galeria A Gentil Carioca. © Pedro Agilson/cortesia Rose Afefé e A Gentil Carioca
Como parte do programa, também foram realizadas chamadas abertas para residências artísticas em cidades de ambos os países. Foi assim que a baiana Rose Afefé (1988, Varzedo, BA, Brasil), representada pela galeria A Gentil Carioca, chegou à Paris para passar três meses na Fondation Fiminco, finalizando o período de residência com uma exposição na Galerie du Jour, do La Fab. Studios. A mostra "Mémoires en re/construction" segue em cartaz até 27 de julho e traz obras inéditas produzidas na capital francesa. A seguir, trago destaques da conversa que tive com Rose a respeito da sua trajetória e do seu momento atual.

Rose Afefé, vista de "Terra Afefé". © Rose Afefé

Rose Afefé, vista de "Terra Afefé". © Rose Afefé
A terra do vento
Rose Afefé criou uma microcidade do zero na Chapada Diamantina, na Bahia, com técnicas de bioconstrução e muros de adobe. “Eu queria um terreno para fazer alguma coisa com pessoas, não sabia o quê. Com pessoas e terra, assim, junto”, conta. Nascida em Varzedo, pequeno município do Recôncavo Baiano, Rose havia migrado para Salvador, e depois São Paulo, para estudar e trabalhar. Passados doze anos, decidiu se reconectar com as suas raízes, e em 2018 os búzios a guiaram ao terreno que abrigaria o seu projeto, em Ibicoara. Na primeira visita ao local, ventava muito — era o vento de Iansã. Ela olhou ao redor e entendeu que seria ali. Não sabia bem como pagaria por ele, mas fechou o negócio. Quando voltou para casa e ouviu a canção “Afefé” na voz de Roberta Sá, encontrou o nome da sua Terra — e o adotou também como sobrenome artístico.
Rose buscou na sua história as referências para o seu projeto: “Lembrei de um desenho que fiz quando tinha dez anos. Nele, pensei em uma cidade que não existe, com umas casinhas, um mar e umas montanhas.” Operou, assim, uma reconciliação com a sua infância e a vergonha que sentia da casa de tijolo cru onde cresceu.

Retrato de Rose Afefé. © Clarice Lissovsky

Rose Afefé, vista de "Terra Afefé". © Rose Afefé
Eu queria um terreno para fazer alguma coisa com pessoas, não sabia o quê. Com pessoas e terra, assim, junto
—Rose Afefé
Ao estudar Artes em Salvador, foi aluna da única artista de Varzedo de quem já tinha ouvido falar: Ieda Oliveira, quem lhe descortinou o vasto mundo das instalações e dos ready-mades. Outro artista marcante no seu imaginário é Marepe, que vem de uma cidade vizinha: “Lembro do muro de Marepe saindo lá de Santo Antônio de Jesus pra ir pra Bienal de São Paulo. Mas, na época, eu não sabia nem o que era a instalação nem o que era a Bienal de São Paulo”, conta.
Foi a partir dessas figuras, que vinham de uma realidade próxima da sua, que Rose absorveu a ideia de arte para além da pintura na parede. Essa lição a acompanhou e ganhou forma em Afefé: um território ativado por pessoas que vivem ali por um tempo e experimentam outras noções de coletividade e criação. Como a própria artista diz, Afefé poderia ser uma pesquisa, uma tese, uma ong, um mecanismo de ativismo político, mas tomá-la como arte é uma escolha que preserva o caráter plástico desse espaço: “Gosto de me implicar nesses assuntos enquanto artista. Tomar a Terra Afefé enquanto obra de arte, acho que vem de um desejo visual, estético, sensorial.”

Rose Afefé, vista de "Terra Afefé". © Rose Afefé
A terra de toda parte
Apresentada na exposição em Paris, a "Terra do Pé Vermelho" é a versão itinerante da Terra Afefé. As pinturas abstratas que a compõem reinventam fragmentos de fachadas lavadas pelo sol e trabalhadas pelo tempo. Às telas podem se associar, ainda, objetos que Rose utiliza para dar vida a esse território nômade. Ela diz: “As casas [de cada fachada] têm números e têm esses habitantes simbólicos, às vezes imaginários, às vezes reais.” Assentada em diferentes lugares a partir da presença estruturante de um muro de adobe, seu nome remete ao gesto de pisar no barro: “A Terra do Pé Vermelho foi um jeito de unir vários trabalhos que gosto de fazer. A parede marca a sua construção por onde passo. Convoco o mutirão para fazer os adobes e construir a parede. Tem também a própria pintura, os objetos. Adoro construir objetos. Eu fiz essa mesa aqui” e aponta para a mesa que se vincula à fachada de um bar.

Mutirão para a "Terra do Pé Vermelho". © Renato Mangolin
Conceber a "Terra do Pé Vermelho" foi, ainda, o caminho que a artista encontrou para circular no sistema das artes sem se desvencilhar da terra e das pessoas. Mantendo um comprometimento ético com quem constrói junto e povoa a sua produção, Rose criou uma taxa que se acopla ao valor da obra e “resolve desejos de pessoas que habitam essas fachadas. Então, quando um trabalho é vendido, um desejo que está ali naquela tela é realizado”, explica.
Essa "Terra" nômade tensiona, ainda, as noções de fronteira e pertencimento ao constituir um território que pode estar em toda parte: “É como se fosse uma cidade que tem pessoas habitando e que essas fachadas, elas só estão espalhadas e fragmentadas. É como se eu estivesse construindo uma cidade em qualquer lugar, burlando essa coisa de ‘ah, Paris está aqui, Paris não pode ter uma outra cidade dentro da própria cidade’, sabe?”

Vista da exposição "Mémoires en re/construction" na Galerie du Jour. © Rebecca Fanuele

Vista da exposição "Mémoires en re/construction" com a obra "Haïti ne viendra pas, Owen et Imany", 2025, na Galerie du Jour. © Rebecca Fanuele
O lugar outro
A exposição "Mémoires en re/construction" abre com fotografias que mostram Rose Afefé recolhendo terra num canteiro de obras em Paris. Perto delas está à mostra o molde usado para fazer os tijolos de barro cru. Juntos, foto e molde remetem a etapas cruciais do processo criativo de Rose, que envolvem o deslocamento, o movimento, o esforço físico. Ela comenta: “Quando você faz com as mãos ou implicando o seu corpo, você cansa, você reflete, você erra. A máquina quase não dá essa possibilidade de erro. É tudo muito planejado e acho que o planejamento funciona para muita coisa, mas para aquelas que envolvem essa noção de corpo, de habitação, de pertencimento, isso vai se perdendo.”
Ao coletar a terra em lugares simbólicos na cidade, Rose busca “ancorar fisicamente a obra no território e levantar questões sobre posse, poder e redistribuição”, ela diz. Com essa coleta, produziu as obras chamadas de "Possession symbolique" (2025), situadas entre a pintura e a escultura de parede, em que uma massa formada por terra, gesso e areia foi distribuída em 21 caixinhas de madeira, recebendo, por cima, pinceladas de uma tinta acrílica fosca e esbranquiçada.

Rose Afefé recolhendo terra em um canteiro de obras em Paris. © Gabriel Moraes Aquino

Já com a fachada do "Marché d’Afrique" (2025), ela evidencia com qual canto de Paris se conectou na sua estadia: “Pensei nas fachadas e letreiros do bairro africano”, revela. O passado colonial francês reaparece em "Haïti ne viendra pas, Owen et Imany" (2025) em que uma caixa de correios acumula cartas supostamente enviadas pelo estado francês cobrando a dívida que recaiu sobre o Haiti após a sua independência. “O Haiti não vem buscar” foi o que escreveram crianças de origem haitiana quando a artista pediu que elas deixassem uma resposta sobre a caixa vermelha. A insubmissão da frase e das cartas acumuladas, combinadas ao gesto lúdico de integrar os desenhos e a intervenção infantil no objeto, dão o tom do engajamento de Rose, com uma obra que é política sem perder a ternura.
O que fica após entrarmos em contato com a obra de Rose Afefé é a sua capacidade de criar, não importa onde, um lugar outro, no sentido foucaultiano da heterotopia. Seja na "Terra Afefé" ou na "Terra do Pé Vermelho", uma vez ativados, esses espaços se tornam locais que projetam e acolhem um imaginário, indo de encontro ao sem-lugar da utopia. Rose Afefé transita criando contraespaços, encruzilhadas onde diferentes histórias convergem e se reescrevem.
O que fica após entrarmos em contato com a obra de Rose Afefé é a sua capacidade de criar, não importa onde, um lugar outro
—Fernanda Morse

Vista da exposição "Mémoires en re/construction" na Galerie du Jour. © Rebecca Fanuele

Rose Afefé, "Marché d’Afrique", 2025. © Rose Afefé
Fernanda Morse é escritora, pesquisadora, tradutora e curadora. Possui mestrado e graduação em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Atua na interseção entre as Artes Visuais e as Letras, trabalhando com pesquisa, crítica e projetos curatoriais. Tem especial interesse em processos experimentais e colaborativos, baseados na estreita interlocução com os artistas. Reside entre a França e o Brasil e vem se dedicando a criar elos entre as cenas artísticas de ambos os países.