Palco SP-Arte: o legado de Sergio Rodrigues

04 abr 2025
Acima: Fernando Mendes, Maria Cecilia Loschiavo dos Santos e Clarissa Schneider em conversa no Palco SP-Arte
Prestes a completar seu centenário, em 2027, Sergio Rodrigues (1927-2014) é celebrado nesta edição da SP-Arte como um dos maiores nomes do design brasileiro. Criador de móveis que transcendem a função utilitária para se tornarem ícones culturais, Rodrigues moldou uma estética que equilibra modernismo, tradição, luxo, informalidade, técnica e afeto.
Seu legado foi tema de uma conversa no Palco SP-Arte, mediada pela jornalista Clarissa Schneider com Maria Cecilia Loschiavo, professora titular de Design da USP e autora do livro "Móvel Moderno no Brasil", e Fernando Mendes, arquiteto, designer e presidente do Instituto Sergio Rodrigues — além de ex-colaborador e primo do homenageado.
Loschiavo, referência acadêmica no estudo do design nacional, abriu sua fala com uma afirmação contundente: "Sergio estava na contramão de seus contemporâneos. Enquanto muitos buscavam referências europeias, ele mergulhava na cultura brasileira, extraindo dela uma linguagem única". Essa abordagem, segundo ela, se materializou em peças como a Poltrona Mole, que impressionou designers europeus pois “não parecia apenas confortável, mas de fato era!”, destacou a professora, ressaltando que o móvel parte de uma experiência quase visceral “em que a pele humana toca a pele do boi".
“O Sergio colocou o Brasil no mapa do design na Itália, um país com tradição consolidada nessa área”, defendeu a professora. A Poltrona Mole, que conquistou o primeiro lugar no IV Concurso Internacional do Móvel, em Cantu, Itália, em 1961, marcou a carreira do designer brasileiro para sempre, tornando-se seu item mais conhecido. Para Loschiavo, o sucesso internacional da peça revelava uma ousadia tipicamente nacional: "Era uma resposta à austeridade da Bauhaus, uma celebração da nossa informalidade, do trabalho com a madeira e o couro".

Fernando Mendes , arquiteto, designer e presidente do Instituto Sergio Rodrigues
Já Fernando Mendes, que trabalhou diretamente com Rodrigues entre 1993 e 2000, falou com a autoridade de quem aprendeu "não apenas a desenhar móveis, mas a enxergar o design como um ato de entusiasmo". Herdeiro intelectual do mestre, Mendes ressaltou a centralidade do desenho no processo criativo do primo: "A espinha dorsal de toda a criação do Sergio era o traço. Ele desenhava com a liberdade de uma criança — fosse um cartão para amigos, durante uma viagem, como um projeto de design mais elaborado”.
Para Mendes, a persistência de Sergio Rodrigues mudou o rumo do design brasileiro. Ele também destacou a versatilidade do designer, que projetou desde móveis icônicos, como as poltronas Mole, Chifruda e Jangada, até linhas em que havia certa limitação nos materiais, como os móveis projetados para o Hotel Cuiabá, cuja famosa cadeira se tornou um exemplo do trabalho esmerado com madeira.

Maria Cecilia Loschiavo, professora titular de Design da USP e autora do livro "Móvel Moderno no Brasil"
Loschiavo enfatizou a relação simbiótica entre Rodrigues e os artesãos com quem conviveu: "Nos anos 1950-60, o Brasil recebeu marceneiros estrangeiros que trouxeram técnicas inovadoras. Sergio trabalhava com eles não como subordinados, mas como parceiros — havia um respeito mútuo". O bom humor, traço marcante da personalidade de Rodrigues, também foi ressaltado como grande marca também no trabalho do designer.
Desde criança, Rodrigues fazia seus próprios brinquedos com sobras de madeira que encontrava no ateliê do tio. “No detalhe que ele acrescentava, ele entendia que aquilo era design. A brincadeira não era só o objeto. Existe toda uma atmosfera que faz parte da criação. A arte do Sergio vai além do objeto, ela incorporou as brincadeiras que ele sempre fazia”, disse Mendes.
Um artista de vanguarda em seu tempo, Rodrigues hoje é também um dos mais importantes brasileiros a ressignificar as correntes modernistas – muito por conta de ter incorporado a filosofia em seu mobiliário. Para Loschiavo, hoje Rodrigues é unânime na seara do mercado, mas a atual valorização do artista muito se deve à maturação do campo do design no Brasil: "Hoje temos pesquisadores em universidades públicas e colecionadores criteriosos. Suas peças em museus não são acaso, mas reconhecimento de uma obra que dialoga com o mundo sem perder suas raízes".

Clarissa Schneider, jornalista