Palco SP-Arte: mercado e internacionalização

Matheus Lopes Quirino
30 ago 2025
Acima: Convidados e público durante a mesa "Latin American Art in a Global Context". © Divulgação SP-Arte
Um painel composto por curadores de renome internacional debateu os desafios e estratégias para inserção da arte latino-americana no circuito global. "Latin American Art in a Global Context" reuniu quatro profissionais do mercado e da crítica para falar sobre como se dá o trânsito entre as culturas local e internacional, expor os dilemas do setor e pensar sobre o futuro das instituições.
Vivian Crockett, curadora brasileira radicada nos EUA, o poder do mercado americano ainda pauta as tendências artísticas e influência em escala global. Atuando no meio artístico do país, ela revela ter mais portas abertas. E observa uma disparidade no acesso e contatos em países da América Latina.
Em suas visitas a diversos cantos do globo, ela reforça a importância do tête-à-tête. “É preciso estar presente [com o artista] nas visitas a galerias, porque o entendimento sobre a obra se revela compartilhando uma xícara de chá ou conversando sobre livros na prateleira”.
Já o curador ganês-americano Larry Ossei-Mensah enfatizou a imersão cultural como método essencial para a formação de artistas, curadores e colecionadores. Ele defende que é crucial "vir [para o Brasil] com uma mente de iniciante, visitar o lugar, fazer coisas simples do dia a dia para ter uma noção do contexto, não se faz uma imersão em uma cultura em pouco tempo".
Para ilustrar a importância do diálogo e das trocas sócio-culturais, Larry comentou sobre os diálogos que teve com a artista mineira Sonia Gomes, experiência que o ajudou a descobrir narrativas particulares levando em consideração não apenas o trabalho pictórico, mas também o contexto e a linguagem – expressada pelo texto, mas também pela música, Larry citou o exemplo do samba em determinado momento para falar sobre imagens e identidades.

Retrato de Eugenio Viola, diretor artístico do Museu de Arte Moderna de Bogotá (Mambo). © Divulgação SP-Arte
Tente se conectar com a obra, porque ela fala além das palavras/linguagem
— Eugenio Viola
Margot Norton, curadora-chefe do Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive, argumentou que "é importante traduzir, mas também manter a língua nativa do artista para dar uma ideia de como ele pensa". "Tente se conectar com a obra, porque ela fala além das palavras/linguagem", sugeriu, Eugenio Viola, diretor artístico do Museu de Arte Moderna de Bogotá (Mambo), responsável por levar grandes nomes internacionais para a Colômbia.
Com base nas reflexões dos especialistas, ser artista Latinx transcende uma definição geográfica única, representando sobretudo um compromisso com a diversidade e uma conexão entre culturas diversas. Eugenio ilustrou com o exemplo de um artista que preserva uma identidade de Mapuche em vez de de se colocar como chileno – aqui, ele se referiu a etnia indígena do país, como tem acontecido, inclusive, no mercado brasileiro nos últimos anos. As aldeias estão conquistando cada vez mais espaços para espalhar suas vozes.
Como observou Vivian, a identidade Latinx é "sobre diversidade, não geografia", enfatizando ligações culturais que ultrapassam fronteiras nacionais.No contexto de mercado, esta complexidade exige uma expansão ativa de redes e um diálogo aprofundado. Uma livre circulação de ideias, algo que exige um processo de desenraizamento e colonização, além de se abrir a novas narrativas, novos horizontes.

Da esq. para dir.: Tiago Mestre, Brunno Silva e Edu Silva. © Divulgação SP-Arte
A visão do artista: estratégias e realidades da internacionalização
Na segunda mesa, o debate mudou para a perspectiva de quem produz a obra e busca inserção no mercado internacional. Sob o tema "Arte brasileira e internacionalização: a perspectiva do artista", o curador Bruno Silva mediou o encontro entre os artistas Tiago Mestre e Edu Silva.
Tiago, artista visual português radicado em São Paulo, cujo trabalho transita entre a pintura, escultura e instalação com uma base em arquitetura, partilhou a sua experiência dual. “Há momentos que me penso como artista brasileiro, há momentos em que me penso como artista português. Sobre internacionalização, vejo meu trabalho circulando pelo Brasil, isso, do ponto de vista europeu, é internacionalização”. Para ele, as residências artísticas são um dos principais vetores para este processo.
Já o brasileiro Edu Silva defendeu a necessidade de “criar uma estratégia mais concisa que mire uma constância [presença] internacional”. Isso para tornar a imagem do artista brasileiro mais perene no exterior, para além da participação em feiras e exposições.

Retrato do artista Edu Silva. © Divulgação SP-Arte
O ideal é compor uma espécie de estratégia que envolva colecionadores, curadores, instituições
— Edu Silva
Com passagem por instituições no Canadá, EUA e Itália, Edu tensiona a questão do colorismo em suas obras, sem ser retórico e apostando na abstração. “Cada espectador tem uma impressão diferente do meu trabalho, quero mais questionar do que afirmar”.
Edu trouxe como exemplo a sua série "Pacto", onde esculturas em mármore branco são sustentadas por frágeis estruturas de papelão, uma metáfora do "pacto narcísico da branquitude", segundo ele. "As feiras e instituições têm responsabilidade e poder de alcance. O ideal é compor uma espécie de estratégia que envolva colecionadores, curadores, instituições", defendeu.
Ambos concordaram que feiras internacionais são essenciais para apresentar trabalhos locais em contextos globais. Edu acrescentou que, embora a "exotização do artista ainda aconteça", ela pode ser rompida, e que a geografia física é superada pela criação de "nichos simbólicos" de interesse.
O painel concluiu que, embora os protocolos da arte contemporânea estejam globalmente disseminados, criar uma presença sustentada no exterior requer uma rede robusta e uma articulação fina que vai além de participações pontuais, demandando um esforço conjunto de curadores e instituições pensada em conjunto com mercado, agentes culturais, especialistas e, claro, os artistas.

Público assiste a conversas no Palco SP-Arte durante o Rotas 2025. © Divulgação SP-Arte
Matheus Lopes Quirino é jornalista e escreve sobre literatura e artes visuais. Foi repórter e editor-assistente do Aliás, suplemento de livros e ideias do jornal O Estado de S. Paulo.