Palco SP-Arte: Karola Braga e Vivian Caccuri

Matheus Lopes Quirino
29 ago 2025
Acima: As artistas Karola Braga e Vivian Caccuri participam do Talks SP-Arte Rotas 2025. © Divulgação SP-Arte
Em um mundo cada vez mais dominado pelas imagens que abastecem continuamente as redes sociais, as artistas Vivian Caccuri e Karola Braga propõem uma viagem sensorial para estimular os sentidos em Para além da visão, título da mesa de Rotas que aconteceu na última quinta, 28 de agosto, com mediação do pesquisador Felipe Molitor.
Dois nomes em ascensão no meio, Vivian e Karola são jovens afeitas à experimentação. Independentemente do formato, elas privilegiam a experiência empírica e produzem pensando na interação do espectador. “Quando pensamos em artes, a primeira imagem que vem é a de uma tela ou escultura no museu. Existe um silêncio, e meu trabalho propõe uma investigação do som, convidando os corpos ao movimento”, afirmou Vivian.
Para ela, a música sempre foi um campo de invenção. “Música é uma plataforma em que pessoas fazem coisas incríveis, o instrumento não é algo estranho pra mim, que venho de uma família de músicos”. Ex-clubber, a artista se envolve intensamente com a sonoridade, ressaltando a força de dispersão e conexão. “Há algo lindo de pensar como a música se dispersa no espaço... Trabalho quase sempre com parceiros e crio ideias para trabalhar com pessoas”.
O elo que une as artistas são as pessoas e seus sentidos primários. A frequência dos passos ritmados pela dança, os cheiros exalados no cotidiano, a narrativa invisível que seduz a audição, o odor que enfeitiça o olfato. Na obra de Karola, os trabalhos resgatam antigas sensações. Ao longo dos anos, as artistas testaram diversos materiais, como resinas, cera e fumaça, principalmente Karola. Já Vivian ficou conhecida por suas obras com tecidos, objetos têxteis e fragmentos.

Retrato da artista Karola Braga. © Divulgação SP-Arte
É quase impossível descrever um cheiro – a não ser para um perfumista
— Karola Braga
Mas como registrar o invisível? Perguntou o pesquisador. Vivian Caccuri, cuja pesquisa gira em torno do som e do ruído na arte brasileira, traçou um panorama histórico para contextualizar seu trabalho, destacando artistas que desafiaram convenções, como Hélio Oiticica (1937-1980), um dos pioneiros a incorporar narrativas sonoras em trabalhos. Outro nome formador que surge é Cildo Meireles, referência das duas. “Quando comecei a pesquisar sobre sons, conversei com o Cildo, que fez trabalhos com discos de vinil no passado”.
Outro trabalho do mestre marcou Karola. “Cildo tem um trabalho com cheiro, ele fez uma sala no Sesc Pompeia em que havia talco no chão, cheiro de gás, e uma vela. Havia um conflito entre o sentir e o perceber. Você só tem isso quando está de corpo presente. E é difícil registrar isso”. O ambiente foi elaborado pelo artista para a exposição "Entreventos", em 2019.
Karola conduz o público para a dimensão mais indescritível e ligada à memória: a do olfato. Desde as décadas de 1950 a arte passou por um processo de desmaterialização, privilegiando ideia, conceito e experiência, mas com um olhar contestador e visceral para os sentidos negligenciados. Oiticica é um dos exemplos mais notáveis na arte brasileira e Marcel Duchamp (1887-1968) com seus trabalhos disruptivos fizeram a crítica não olhar, mas experienciar uma obra a partir do envolvimento,
O tempo passa e novos suportes surgem para quebrar padrões estéticos, redefinir rotas e provocar. “Hoje, é possível fazer qualquer tipo de instalação sonora muito rápido. É fácil”, diz Vivian. Um de seus projetos mais ousados dos últimos anos foi feito na Arábia Saudita, onde a artista criou uma pista de dança no passeio. “[Foi um desafio por conta] do contexto religioso. Mas contei com a ajuda de um compositor sírio, e fiz uma pista onde as meninas cobertas estavam dançando. Esses corpos se deixaram modular pelo som”.
A artista expande sua pesquisa para outras mídias. “Bordo espectros sonoros nos fonogramas, como um fantasma que acompanha o som. Aí eu desenho essas ondas, bordo e depois eu pinto. Se na tela tradicional há um silêncio implícito, proponho uma gênese da escuta”. Vivian compara o techno a um padrão listrado e quadriculado, enquanto “na natureza, o som é muito mais imprevisível” – e é essa imprevisibilidade que a atrai, sempre com o celular pronto para gravar.

Retrato da artista Vivian Caccuri. © Divulgação SP-Arte
Hoje, é possível fazer qualquer tipo de instalação sonora muito rápido. É fácil
— Vivian Caccuri
Outros carnavais
“Como vou falar do cheiro [de uma pessoa] sobre o outro? A gente acaba falando sobre situações vividas para falar de cheiro, isso ativa a experiência de cada um... É quase impossível descrever um cheiro – a não ser para um perfumista”, diz Karola.
Um de seus trabalhos, “A lembrança dos bailes de Carnaval”, exibido no Paço das Artes em 2023, recriou a atmosfera dos Carnavais do início do século 20 através de aromas de cigarro e éter, o famoso lança-perfume.
Expostos em frascos, Karola conseguiu capturar a efemeridade do odor das festas glamurosas do século passado. E provocou: "O cheiro você não fotografa. Ele acaba. Quando você quer ter [uma obra], é preciso tentar controlar a materialidade, a premissa do [meu] trabalho é quase ele [o trabalho] ir embora. A minha resposta é quase não ter uma resposta. Meu trabalho é efêmero”. Felipe pontuou: “A rachadura, no trabalho de Karola, é um registro da finitude”.
Para Vivian, o som parte de um caos controlado. Esse agito é celebrado em festas em seu ateliê, que desfiguram seu espaço de trabalho ”Fazer as instalações e as festas é algo contra de sistematizar as coisas. A música registra esse caos”, complementou a artista, que expõe na galeria A Gentil Carioca nas próximas semanas.
Já Karola inaugura uma exposição no Museu da Cidade de São Paulo (Beco do Pinto) em dezembro, sobre a mitologia da vitória-régia, com “cheiros flutuantes”. “Estou entendendo com os laboratórios sobre esse processo”, adianta, mostrando que sua investigação sobre os limites da arte e dos sentidos está longe de findar. Juntas, Vivian Caccuri e Karola Braga demonstram que a arte não precisa necessariamente ser vista para ser sentida. Ela pode ressoar, impregnar o ar e, acima de tudo, despertar memórias e sensações que a visão, sozinha, pode não alcançar.

Público assiste à conversa entre as artistas Karola Braga e Vivian Caccuri. © Divulgação SP-Arte
Matheus Lopes Quirino é jornalista e escreve sobre literatura e artes visuais. Foi repórter e editor-assistente do Aliás, suplemento de livros e ideias do jornal O Estado de S. Paulo.