Obras para prestar mais atenção na 35ª Bienal de São Paulo

Beatriz Almeida
09 nov 2023
Acima: Vista de obras de M’barek Bouhchichi durante a 35ª Bienal de São Paulo – coreografias do impossível © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Obras para prestar mais atenção na 35ª Bienal de São Paulo
Visitar uma Bienal e conseguir ver todas as obras é um desafio. Ver todas com atenção é ainda mais difícil. Por isso, depois de algumas idas à 35ª Bienal de São Paulo (que termina daqui a um mês), seleciono aqui algumas obras, que não estão necessariamente “escondidas”, mas que merecem um olhar mais reflexivo. São trabalhos que se destacam pelo resgate à ancestralidade ou são atos de resistência, que enfatizam contextos históricos e coreografias, todas apresentando diferentes perspectivas.
Na 35ª Bienal de São Paulo – coreografias do impossível, a curadoria não se limita a uma figura: é um grupo horizontal, formado pelos curadores Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel. A proposta dessa edição começa com uma pergunta: “Como corpos em movimento são capazes de coreografar o possível, dentro do impossível?” e convida os visitantes a imaginar o desconhecido e refletir sobre este questionamento. Se você ainda não visitou a exposição, pense sobre isso. Na minha experiência, a cada obra o visitante consegue enxergar as coreografias do impossível e se sentir, de alguma forma, inserido nelas. Além disso, observe o pavilhão da Bienal e como as transformações arquitetônicas propostas para essa edição te fazem coreografar pela mostra.
A programação pública continua com ativações até o final da mostra, em 10 de dezembro. Entre performances, exibições de filmes, workshops e visitas, as ativações do último final de semana contemplam também a colheita de milho da obra Kwema/Amanhecer, de Denilson Baniwa, as performances de Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. e de Ventura Profana e a desmontagem pública da obra Outres, de Daniel Lie. Confira a agenda completa aqui.
Sem mais delongas, vamos às obras para prestar mais atenção – seja na sua primeira, segunda ou terceira visita à 35ª Bienal de São Paulo.
![Woven Winds − The Making of an Economy – Costly Commodities [Ventos entrelaçados − A formação de uma economia – commodities custosas], 2016-2022, de Anna Boghiguian © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/OFB4FMySFZglPww00kpKMlcpguezgWtWwRtRSLdf.jpg)
Woven Winds − The Making of an Economy – Costly Commodities [Ventos entrelaçados − A formação de uma economia – commodities custosas], 2016-2022, de Anna Boghiguian © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Woven Winds − The Making of an Economy – Costly Commodities [Ventos entrelaçados − A formação de uma economia – commodities custosas], 2016-2022, de Anna Boghiguian
Andar azul
O visitante se depara com todas as paredes pintadas e frases escritas, como uma história em quadrinhos. No centro da sala, há uma instalação que faz referência a plantações de algodão. Em volta dela, desenhos são colocados em suportes espalhados pelo espaço. Anna Boghiguian, artista egípcia, convida a andar para entender parte da história de exploração, imigração e escravidão em torno comércio de algodão.
As descrições e desenhos levam o visitante a refletir sobre os Ventos entrelaçados − A formação de uma economia – commodities custosas, como ela mesma intitula. Boghiguian se formou em ciências políticas e tem como experiência pessoal as migrações, já que a artista, nascida no Egito, viveu também no Canadá e no México. Em suas obras, são abordados abusos e resistências negras e indígenas ao longo da história.
![Una voz para Erauso. Epílogo para un tiempo trans [Uma voz para Erauso. Um epílogo para um tempo trans], 2021-2022, de Cabello/Carceller © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/lAqAWmbcDP8TLt7WN7eRyLLWA5jogG2ueKzsWg4m.jpg)
Una voz para Erauso. Epílogo para un tiempo trans [Uma voz para Erauso. Um epílogo para um tempo trans], 2021-2022, de Cabello/Carceller © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

Una voz para Erauso. Epílogo para un tiempo trans [Uma voz para Erauso. Um epílogo para um tempo trans], 2021-2022, de Cabello/Carceller
Andar azul
Após ver obras históricas no último piso, o visitante encontra uma sala entreaberta. Em um vídeo, pessoas trans analisam a biografia de Antonio de Erausto com as lentes da atualidade. Erausto foi uma pessoa do sexo feminino que nasceu em 1592, Dona Catalina de Erausto, e entre 1625 e 1628, passou a se identificar como uma pessoa do gênero masculino. Antonio de Erausto foi aceito pela sociedade e pelo Papa da época.
Na obra de Cabello / Carceller, além de abordar a mudança de gênero de Erausto no século 17, os artistas debatem a história e a construção de sua identidade, e expõem assuntos que ficaram abafados, como o racismo declarado de Erausto, sua participação no genocídio dos povos Mapuche e outros tipos de violência relacionados a ele. Dividido em quatro partes, o vídeo analisa a figura de Erausto e a pintura de seu retrato feito por Juan Van Der Hamen y León em 1626. São questionamentos sobre a sua coragem de enfrentar o binarismo do século 17 em contraponto à sua postura de figura colonizadora.

Sumidouro n. 2 – Diáspora fantasma, 2023, de Diego Araúja e Laís Machado © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Sumidouro n. 2 – Diáspora fantasma, 2023, de Diego Araúja e Laís Machado
Andar roxo
Ao entrar na sala, o cheiro da palha da costa – material que carrega simbologias para as religiões de matriz africana –, utilizado para a produção da obra, cria a ambientação. Como uma dança, as grandes cortinas de palha levitam pela sala em uma coreografia ora sincronizada, ora autônoma.
A leveza e fluidez de cada movimento leva o visitante a caminhar pelo espaço para ver outras perspectivas dessa “dança” e também fazer parte dessa coreografia. São luzes, falas, cantos e ritmos. Diego Araúja e Laís Machado, artistas brasileiros, traduzem em sua produção a materialização das fantasmagorias entre a África e a afro-diáspora brasileira em Sumidouro n. 2 – Diáspora fantasma.
A obra foi dedicada à memória de Mãe Bernadete Pacífico, líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, Bahia, assassinada neste ano de 2023 em seu território.
![Samesyn [Comunhão], 2023, de Igshaan Adams © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/xBgJdQSBTRInzHnxbATrvhgDsHLNvAoWt0HpV7nl.jpg)
Samesyn [Comunhão], 2023, de Igshaan Adams © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

Samesyn [Comunhão], 2023, de Igshaan Adams
Andar roxo
Ocupando um grande espaço no pavilhão, Comunhão convida o visitante a caminhar entre os “territórios” dispostos no chão, com milhares de pedras, e a olhar para as “nuvens” suspensas, de aço, com pequenas miçangas entranhadas. Ao chegar no centro da instalação, um lustre no emaranhado de fios se expande de metros de altura até o chão. Os elementos e materiais usados na obra se relacionam com as memórias e referências culturais e religiosas do artista sul-africano.
Igshaan Adams reproduz, de forma abstrata, um mapa que faz referência às fronteiras geográficas da segregação racial em sua cidade de origem, Bonteheuwel, na década de 1960, durante o Apartheid. Na obra, uma “linha do desejo” atravessa o mapa imaginário, por onde, diferentemente do período histórico abordado, os visitantes podem caminhar livremente. As nuvens fazem alusão à dança Riel, considerada uma das danças mais antigas da África do Sul indígena, que levanta nuvens de poeira com o movimento acelerado dos pés.
![Killing us Softly... with their SPAMS... (Songs, Prayers, Alphabets, Movies, Superheroes...) [Nos matando suavemente... com seus SPAMS... (músicas, preces, alfabetos, filmes, super-heróis...)], 2023, de Kidlat Tahimik © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/vVbjWXkeOnyxYe4AzgSkpDUDQPDR5kM89FGAHwnh.jpg)
Killing us Softly... with their SPAMS... (Songs, Prayers, Alphabets, Movies, Superheroes...) [Nos matando suavemente... com seus SPAMS... (músicas, preces, alfabetos, filmes, super-heróis...)], 2023, de Kidlat Tahimik © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Killing us Softly… with their SPAMS… (Songs, Prayers, Alphabets, Movies, Superheroes…) [Nos matando suavemente… com seus SPAMS… (músicas, preces, alfabetos, filmes, super-heróis…)], 2023, de Kidlat Tahimik
Andar verde
É praticamente impossível chegar à 35a Bienal de São Paulo e não perceber a presença dessa obra monumental. São esculturas gigantes, como barcos, animais, foguetes, portais, figuras mitológicas, personagens e celebridades, que ocupam o primeiro piso do pavilhão. Conforme o título sugere, Nos matando suavemente… com seus SPAMS… (músicas, preces, alfabetos, filmes, super-heróis…), a obra do artista filipino Kidlat Tahimik carrega a crítica ao genocídio cultural.
O trabalho, praticamente todo talhado em madeira, retrata figuras mitológicas que foram apagadas, como Igpupiara, originária dos povos indígenas brasileiros, e Syokoy, dos povos filipinos, para dar lugar a personagens como Homem-Aranha, Capitão América e Mickey Mouse. O artista, que também é cineasta, entende o ato de esculpir como um processo cinematográfico. Tahimik mistura as culturas brasileira e filipina e as coloca em choque com a cultura pop imperialista.
![Nous sommes ce qui vous ne voulez pas voir [Nós somos aqueles que vocês não querem ver], 2023, de M’barek Bouhchichi © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/STYultRq0sNpb0oom6qa79QKyppctD8YFJ2zI42y.jpg)
Nous sommes ce qui vous ne voulez pas voir [Nós somos aqueles que vocês não querem ver], 2023, de M’barek Bouhchichi © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Nous sommes ce qui vous ne voulez pas voir [Nós somos aqueles que vocês não querem ver], 2023, de M’barek Bouhchichi
Andar azul
O artista marroquino M’barek Bouhchichi une diversas linguagens e suportes em suas criações. Comissionada para a 35a Bienal, Nós somos aqueles que vocês não querem ver, reúne cerâmicas com poesias gravadas, elevadas sob bases de madeira. Dispostas pelo ambiente, o visitante é instigado a andar entre elas, observar seus formatos únicos e ler frases gravadas em diversas línguas, incluindo o português.
Bouhchichi selecionou versos de poesias feitas por autores negros do norte da África, afro-brasileiros e afro-americanos, como um trecho do poema Os sonhos, de Conceição Evaristo: “Os sonhos foram moldados. a ferro e a fogo. e tomaram a forma do nada”. Para este trabalho, o artista se inspirou no ceramista estadunidense escravizado David Drake, que fazia peças como um ato de resistência, gravando poesias nelas e se arriscando diariamente, já que a maioria das pessoas escravizadas nos Estados Unidos eram proibidas de aprender a ler e escrever. Bouhchichi apresenta na Bienal uma homenagem a Drake e ressignifica seu ato de resistência.
![Nos quitaron la montaña, nos devolvieron cemento [Tiraram a montanha de nós, nos devolveram cimento], 2022, de Marilyn Boror Bor © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/IuAaR8QL5spGn9LDVf8RdKjQGpvkxaTuelEWU40F.jpg)
Nos quitaron la montaña, nos devolvieron cemento [Tiraram a montanha de nós, nos devolveram cimento], 2022, de Marilyn Boror Bor © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Nos quitaron la montaña, nos devolvieron cemento [Tiraram a montanha de nós, nos devolveram cimento], 2022, de Marilyn Boror Bor
Andar roxo
A obra da artista guatemalense Marilyn Boror Bor carrega críticas à colonização no continente americano, ao modelo de desenvolvimento econômico da Guatemala e ao extrativismo desenfreado com foco na cidade em que nasceu, San Juan Sacatepéquez. Em pequenos objetos tradicionais, a artista, que é de origem Maya-Caqchiquel, substitui o que seriam alimentos, como milho, água e ar, com cimento, questionando a indústria que mata o que é vivo.
Tiraram a montanha de nós, nos devolveram cimento, é o retrato da exploração do homem e do capitalismo sobre a natureza. Como o líder e filósofo indígena Ailton Krenak diz: “A grande diferença que existe do pensamento dos índios e do pensamento dos brancos, é que os brancos acham que o ambiente é ‘recurso natural’, como se fosse um almoxarifado onde você vai e tira as coisas, tira as coisas, tira as coisas”. É assim que os objetos que antes tinham vida agora tem cimento, perdendo a riqueza e o valor simbólico que carregavam.
![Una representación sonora a partir de Val del Omar [Auto sacramental invisível. Uma representação sonora baseada em Val del Omar], 2021, de Niño de Elche © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/TxPTMqk1APEnpFuzcjx7pu2uowlpjClm1nuNSovt.jpg)
Una representación sonora a partir de Val del Omar [Auto sacramental invisível. Uma representação sonora baseada em Val del Omar], 2021, de Niño de Elche © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Una representación sonora a partir de Val del Omar [Auto sacramental invisível. Uma representação sonora baseada em Val del Omar], 2021, de Niño de Elche
Andar roxo
Na iluminação baixa criada por Niño de Elche, o visitante é atraído para sentar-se em uma espécie de mini plateia, deitar-se no chão ou caminhar pelo espaço (a experiência que considero mais sensorial). Em cada lustre, um auto-falante emite sons e as luzes se alteram de acordo com cada uma das faixas, criando uma espécie de imersão sonora e visual.
São sons variados que se assemelham, de certa forma, ao cotidiano. Remetem às sonoridades de máquinas de escrever, de conversas, de cantos, de prazer, de tristeza. A obra é uma homenagem a Val del Omar, um cinemista (cineasta e alquimista) espanhol, e remete aos autos sacramentais – peça teatral religiosa alegórica –, que foi reformulada para expressar as obsessões do artista. A obra faz parte do acervo do Museo Reina Sofía, em Madri, na Espanha.

Identidade visual da 35a Bienal de São Paulo, de Nontsikelelo Mutiti © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Identidade visual da 35ª Bienal de São Paulo, de Nontsikelelo Mutiti
Andar verde
A artista e educadora Nontsikelelo Mutiti, nascida no Zimbábue, criou a identidade visual da 35ª Bienal de São Paulo. No térreo (andar verde), próximo a entrada da Bienal e no café do terceiro andar (andar azul), é possível ler coreografias do impossível na tipografia idealizada por Mutiti. A artista utiliza tranças e cabelos afro como símbolos de resistência e ancestralidade.
No primeiro andar, há outra instalação de Mutiti – essa mais difícil de desvendar. “Kusina Mai”, um ditado Chivanhu – uma prática espiritual tradicional no Zimbábue –, quer dizer: “você não vai aonde sua mãe não está”, e funciona como um aviso sobre ir para longe sem sua rede de apoio. A artista sabe bem o que isso quer dizer: há mais de dez anos é imigrante.
![Moving Backwards [Mover-se para trás], 2019, de Pauline Boudry / Renate Lorenz © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo](https://duik7wie869kf.cloudfront.net/image/original/sbY4IQPLvVdv1RvbxjcolwuBvlKu4YaZfdY26khF.jpg)
Moving Backwards [Mover-se para trás], 2019, de Pauline Boudry / Renate Lorenz © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Moving Backwards [Mover-se para trás], 2019, de Pauline Boudry / Renate Lorenz
Andar verde
A dupla Pauline Boudry e Renate Lorenz possui três trabalhos em exposição na 35a Bienal de São Paulo. No andar verde, duas telas estão em lados opostos de uma sala e fazem o visitante deslocar seu olhar de um lado para o outro conforme dois vídeos são exibidos em sequência. São eles: Moving Backwards [Movendo para trás], 2019, e (No) Time [(Sem) tempo], 2020, que reúnem corpos dançantes e performativos.
Em Movendo-se para trás, um vídeo de 23 minutos, a coreografia se inspira em guerrilheiras curdas que usavam seus sapatos virados para trás para caminhar nas montanhas nevadas, como se tivessem andado para o outro lado para enganar seus oponentes. No vídeo, coreografia pós-moderna e da dança urbana são abordadas como práticas de resistência dentro da cultura queer underground. Ao final, uma cortina de lantejoulas brilhantes fecha e depois se abre, encerrando e iniciando a dança.