O futuro das feiras de arte é local?

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Beta Germano

15 out 2026

Acima: Público na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

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13 de março de 2020. Faltavam poucos dias para a abertura de mais uma edição da SP-Arte quando o Brasil entrou em confinamento. De lá para cá, muita coisa voltou ao normal. Mas algo mudou (arrisco dizer, para sempre). Relatórios do Art Basel & UBS Art Market Report, de 2019, mostravam dados impressionantes: o mundo contava com quase 300 feiras contra apenas 55 em 2000 — o documento acrescentava, ainda, a existência de centenas de feiras menores, regionais e locais. Vivíamos um momento de expansão meteórica quando o Covid-19 paralisou o mundo. A chamada fair fatigue — a exaustão financeira e humana provocada por um calendário cada vez mais intenso de feiras — já era discutida pelo mercado antes da pandemia.


Mas, se o mood agora é “menos é mais”, como diria Mies van der Rohe, uma pergunta ressoa: se as galerias estão escolhendo melhor onde estar, quem está ocupando tantas feiras? E, ainda, quem está comprando nelas? Entre os anos de 2024 e 2025, Nova York apresenta números expressivos: 72 galerias novas abriram, 45 fecharam e 50 mudaram de endereço. Ou seja, apesar das dificuldades enfrentadas pelo setor, o mercado continua em movimento, com um saldo positivo de 27 novas galerias. Ainda de acordo com o Art Basel & UBS Art Market Report, 49% dos compradores atendidos na Art Basel eram novos clientes das galerias participantes. Entre as menores, essa proporção chegou a 60%.


A resposta, então, pode estar na renovação dos agentes e no fortalecimento de circuitos locais e regionais. O mapa não parece ter encolhido, ele apenas está sendo redesenhado.

Estande do projeto Novos Para Nós na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Estande do projeto Novos Para Nós na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

O futuro é local

Talvez por manterem uma relação muito próxima com a natureza e seus ciclos, chefs de cozinha tenham sido os primeiros a compreender a complexidade da hipermobilidade. Na gastronomia, isso aparece com força na defesa da sazonalidade, do produtor próximo, de cadeias mais curtas e de uma cozinha vinculada ao território.


Uma reflexão semelhante começa a atravessar o mercado de arte: é realmente necessário transportar obras e equipes por milhares de quilômetros para legitimar uma galeria ou encontrar um comprador?


Thiago Gomide, fundador da Gomide&Co, ressalta as consequências da impressionante conectividade digital dos novos tempos. A internet e as mídias sociais, claro, já eram ferramentas de trabalho das galerias de arte, mas o isolamento social transformou o mindset, e comprar qualquer coisa online virou parte do nosso cotidiano. “Isso não significa que as feiras perderam o sentido, mas suas dinâmicas e seus objetivos mudaram. As conversas e conexões podem ser feitas e reforçadas no mundo digital de maneira muito eficiente. A qualidade das imagens, por exemplo, é absurda, e o colecionador pode ver todos os detalhes da obra”, explica o galerista.


Em 2025, as feiras responderam por 35% das vendas das galerias — uma recuperação importante, embora ainda abaixo dos 42% registrados em 2019. “As feiras ainda são importantes, mas estão ficando cada vez mais regionais, pois a conta muitas vezes não fecha”, afirma Thiago. No mundo pós-pandêmico, em contraponto à alta conectividade digital, movimentar-se custa mais caro: há um desgaste financeiro, pelo custo de estande, transporte, seguro, viagens e hospedagem; humano, pelo tempo das equipes; ambiental, pelo deslocamento internacional constante de pessoas e obras; e até estratégico, porque participar de muitas feiras pode tirar energia e recursos do programa da própria galeria. São muitas variáveis colocadas na balança. Por isso, boa parte das galerias prefere concentrar energia e investimento no programa de exposições e ações para o mercado local.

Existe uma diferença importante entre visibilidade e relevância

— Antonio Almeida, Almeida & Dale

Estande da galeria Gomide&Co na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Estande da galeria Gomide&Co na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Antonio Almeida, sócio fundador da Almeida & Dale, reforça essa ideia: “Estamos vivendo uma mudança de lógica. Durante muitos anos, a internacionalização foi medida pelo número de feiras e pela expansão geográfica. Hoje, a pergunta não é mais em quantas feiras estar, e sim em quais contextos faz sentido construir presença. Existe uma diferença importante entre visibilidade e relevância”.


Na visão de Marco Antonio Lima, fundador da Lima Galeria, o cliente precisa entender e se conectar com o programa como um todo e, por isso, artistas e exposições precisam fazer sentido juntos. Os nomes representados pela galeria partem, portanto, não só de um território comum, mas também de um mesmo imaginário e de uma ancestralidade compartilhada. Prova disso foi a seleção apresentada na última edição da SP-Arte Rotas: a curadoria propôs uma leitura decolonial do Surrealismo e do Realismo Fantástico, reunindo trabalhos que sugerem a presença do fantástico nas cosmologias originárias e afro-diaspóricas como forma de existência, e não como fuga da realidade.

Estande da galeria Lima na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Estande da galeria Lima na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

A venda é consequência, antes é preciso conectar

Mas isso não significa que a Lima Galeria não esteja estudando possibilidades de atuação no mercado internacional. Feiras na América Latina, em Portugal e na Espanha fazem parte da estratégia de Marco Antônio, mas o objetivo não é exatamente a venda direta, e sim usá-las como vitrine para estimular diálogos com instituições. “O caminho é longo. Precisamos chamar a atenção dos museus primeiro para conquistar os colecionadores, pois eles acompanham de perto os programas das instituições”, revela.


Antonio concorda, enfatizando que as feiras continuam sendo fundamentais, mas hoje são apenas um entre muitos pontos de contato dentro de uma estratégia mais ampla de construção de relevância e de relacionamento com colecionadores, curadores, instituições e outras galerias. “O trabalho acontece de forma contínua, antes, durante e depois de cada participação. O valor do evento em si é grande, mas, além dele, é preciso ter a capacidade de transformar essa presença em projetos, exposições, aquisições institucionais e relações de longo prazo”, completa.

A expansão nasce da capacidade de criar conexões com profundidade

— Beta Germano

Estande da galeria Almeida & Dale na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Estande da galeria Almeida & Dale na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Muita calma nessa hora

O próprio relatório da Art Basel reconhece a incerteza em torno do comércio internacional e outro dado ressalta aos olhos: em 2019, as galerias participavam, em média, de duas feiras locais e duas internacionais, mas as duas internacionais geravam o dobro da parcela de vendas das locais: 30% contra 15%. Hoje, apesar das feiras internacionais continuarem dominantes, as locais representam mais de um terço das vendas em feiras e este número tende a crescer. Além disso, os custos gerais das galerias cresceram cerca de 5%, mas os gastos relacionados especificamente à participação em feiras subiram 9%, enquanto logística, embalagem e transporte aumentaram 10% e viagens/hospedagem, 6%. As feiras locais não estão substituindo grandes marcas como Basel e Frieze, mas definitivamente ganham força com a revalorização da produção local e por oferecer uma equação mais atraente.


Depois de uma década de expansão acelerada e da normalização do entusiasmo pelo universo digital, o encontro presencial voltou a ganhar importância. Mas presença tem outro significado. Não se trata mais de estar em todos os lugares, e sim de entender onde, como e por que estar. Se antes relevância e alcance quase se confundiam, hoje começa a ficar claro que estar em muitos lugares não significa necessariamente pertencer a eles. Nesta nova dinâmica, a expansão nasce da capacidade de atuar e criar conexões com profundidade: conversar, discutir, formar público, criar pontes entre artistas, colecionadores e instituições e fortalecer as cenas das quais se faz parte.


Beta Germano é formada em jornalismo na PUC-Rio, com pós-graduação em jornalismo da moda pelo Senac e em história da arte pela Faap. Trabalhou por 11 anos nas revistas Vogue e Casa Vogue escrevendo sobre cultura e lifestyle. É coautora do livro “Espaços de Trabalho de Artistas Latino-Americanos” (Cobogó) ao lado de Fran Parente e editora-chefe da Bazaar Interiors e colaboradora regular de veículos de comunicação.

Estande da galeria Apartamento 61 na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte

Estande da galeria Apartamento 61 na SP-Arte Rotas 2026. © Divulgação SP-Arte