O distanciamento social e o impacto nos processos digitais no mercado de arte

Caio Blanco
25 mar 2020
Acima: Online viewing room no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)
O distanciamento social e o impacto nos processos digitais no mercado de arte
A disseminação a passos largos da COVID-19, neste começo conturbado de 2020, obrigou o mundo inteiro a uma brusca desaceleração. Países inteiros fecharam as suas fronteiras, companhias aéreas cancelaram voos, governos baixaram decretos para o fechamento de serviços não essenciais e a população foi forçada ao isolamento: todas medidas necessárias na tentativa de achatar a curva de contágio do novo vírus e evitar o colapso generalizado dos sistemas de saúde.
O distanciamento social, embora medida poderosa na luta contra o novo coronavírus, irá trazer impactos profundamente negativos para a economia mundial. Anger Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, ou clube dos países ricos), afirmou recentemente em entrevista à BBC que o impacto econômico atual já é maior do que a crise financeira de 2008. De acordo com ele, um crescimento econômico global de 1,5% este ano já parece ser um cenário otimista demais. Para o Brasil, a situação não é diferente: segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, o PIB brasileiro pode recuar até 4,4% em 2020.
Com as expectativas econômicas desabando ao redor do mundo e um custo previsto de mais de US$ 2 trilhões de dólares à economia global, a pandemia tem assustado todos os setores do mercado que, rapidamente, buscam formas criativas de manter seus negócios ativos e minimamente saudáveis durante esta crise.
O mercado de arte, historicamente baseado nas relações pessoais e presenciais, passa a enfrentar grandes desafios: feiras de arte internacionais canceladas, exposições adiadas e uma retração da atividade dos colecionadores são algumas das dificuldades enfrentadas por galerias.
Para todos os verticais de negócios – e entre todas as alternativas sendo colocadas em teste para driblar a presente crise –, uma estratégia parece ser o denominador comum: a digitalização dos processos. Academias têm liberado treinos em formato digital para seus alunos, negócios de varejo têm fomentado ainda mais as compras online através de promoções e isenção de taxa de entrega, e escolas de idiomas disponibilizam hoje suas aulas via internet.
A pandemia tem assustado todos os setores do mercado que, rapidamente, buscam formas criativas de manter seus negócios ativos.

Online viewing room "Museu de novidades", individual de Marcelo Tinoco, no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)
Em um mundo de distanciamento social, em que todos estão separados fisicamente e unidos apenas pelo elo de conexão à internet de suas casas, parece mesmo ser a saída mais óbvia que as empresas que ainda não haviam se rendido ao universo da digitalização passem a investir nessa seara.
De acordo com o relatório da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com o Movimento Compre & Confie, desde o dia 24 de fevereiro até o dia 18 de março, houve um aumento de 111% nas compras online da categoria saúde, alta de 83% em beleza e perfumaria, e um aumento de 80% nas compras de supermercados, tudo isso quando comparado a um período semelhante de 2019 – de 25 de fevereiro a 20 de março.
Fato é que o mercado de arte sempre operou de forma autônoma e única em relação ao processo de digitalização. Muito embora tenhamos visto crescer o empenho de galerias de arte e de casas de leilão nas jornadas digitais – principalmente quando se trata de artistas emergentes e que apelam a um público mais jovem –, muitos agentes da arte estabelecidos ainda resistem em se entregar completamente ao online.
Mesmo com certa resistência, a última barreira do mercado de arte a caminho da digitalização precisará ser rompida para a sua sobrevivência.
A nova dinâmica imposta pela COVID-19 talvez esteja prestes a mudar este cenário contínuo de resistência: de acordo com dados preliminares do online viewing room da Art Basel Hong Kong º a alternativa virtual encampada pela feira após o cancelamento do evento – grandes galerias como Hauser & Wirth, David Zwirner e Gagosian reportaram vendas robustas a preços altos. Além disso, galerias menores puderam utilizar o espaço como uma oportunidade de explorar o conceito de uma online viewing room e de se conectar com novos compradores em potencial. Marc Spiegler, diretor da Art Basel, atestou que “embora nada possa realmente substituir a experiência de uma feira de arte física, os colecionadores ao redor do mundo também ficaram muito animados de encontrar todas as mais de 2 mil obras de arte em um único espaço digital”.
Isso parece demonstrar que, mesmo com certa resistência, a última barreira do mercado de arte a caminho da digitalização precisará ser rompida para a sua própria sobrevivência: com colecionadores estabelecidos e potenciais compradores impedidos de viajar, todos em quarentena, não parece haver outra saída a não ser investir nas negociações de obras de arte pela internet. E não há nenhum problema nisso: incluir procedimentos virtuais nos negócios da arte não significa exterminar o contato interpessoal ou a necessidade dos relacionamentos duradouros, que sempre foram a marca registrada da área. Significa apenas expandir as possibilidades de negociação, fornecer novas alternativas ao colecionismo e inserir-se em um processo orgânico pelo qual, hoje, o mundo inteiro passa.