No Palco SP-Arte: os curadores discutem as Bienais

Ryan Inouye compara a montagem de uma grande exposição a uma coreografia lenta. Para o curador do Museu Carnegie de Arte, em Pittsburgh (EUA), o movimento em torno da composição de uma Bienal pode ser resumido pela definição de coreografia do jovem artista Malcolm Peacock: “Tudo pode ser feito em conjunto, entre duas ou mais figuras”.
“O trabalho deve ser lento, como uma forma de juntar as pessoas. Essa é a experiência de uma grande exposição de arte”, afirmou Inouye. Co-curador do principal projeto do museu de Pittsburgh, a Carnegie Internacional, onde desenvolve uma das mais longas pesquisas de arte contemporânea da América do Norte, ele conversou neste sábado, 5, com o também curador Raphael Fonseca no Palco SP-Arte.
A Carnegie Internacional é um dos principais acontecimentos do mundo da arte e frequentemente disputa atenção com eventos de peso, como a Bienal de Veneza. A grande mostra italiana, inclusive, foi a inspiração do filantropo e industrial Andrew Carnegie, que visitou o evento 1895 e depois constituiu um projeto nos moldes da Bienal para a cidade de Pittsburgh, cuja primeira edição ocorreu um ano depois. O evento acontece a cada quatro anos. A 59ª edição está sendo preparada para maio de 2026.
Segundo, Inouye, a Carnegie Internacional combina com a proposta do museu de ser “um ponto de encontro para Pittsburgh e o mundo”. Ele também afirmou que sua curadoria para o evento promove uma investigação sobre arte e ideias de nosso tempo, com a colaboração de curadores, artistas e parceiros internacionais que visam conectar essas experiências.

Os curadores Raphael Fonseca e Ryan Inouye. Foto: divulgação/ SP-Arte
Nesse sentido, o trânsito entre diferentes contextos, dinâmicas e geografias une a ideia de curadoria de Inouye à de Fonseca. Nascido no Rio de Janeiro e criado em Jacarepaguá, Fonseca hoje vive em Denver (EUA), onde é curador de arte moderna e contemporânea latino-americana no Denver Art Museum. Ele figura na prestigiosa lista da ArtReview como uma das cem personalidades mais influentes das artes visuais em 2023 e 2024.
Pesquisador da interseção entre curadoria, história da arte e crítica, Raphael Fonseca também é curador da 14ª Bienal do Mercosul, nomeada como “Estalo”, que chega em 2025 excepcionalmente carregada de expectativas – a Bienal foi inaugurada na semana passada em Porto Alegre – após ter sido adiada devido às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Do leque variado de artistas que compõem essa edição da Bienal do Mercosul, Fonseca destacou uma obra da artista estadunidense Christine Sun Kim, que pode ser vista na Casa de Cultura Mario Quintana como parte da exposição da Bienal do Mercosul. Kim, que trabalha com diferentes linguagens, como desenho, performance e vídeo, mostra um mural com enormes letras para marcar o espírito do tempo desta edição: “Minha língua/não é a língua/ do amor/ mas sim/ a língua da sobrevivência”.

Público acompanha a conversa entre os curadores. Foto: divulgação/SP-Arte
O curador comenta que a experiência da reconstrução de Porto Alegre não só promoveu deslocamentos, porque houve uma mudança nos espaços e na instalação de obras. Esses realocamentos, parte do processo que se deu na reconstrução da cidade depois do caos climático, redirecionou o trabalho dos artistas para novas ideias. “Causou um ‘estalo’ diferente, novas perspectivas”, comentou.
Para Fonseca, uma Bienal tem uma estrutura similar a grandes festivais de cinema ou de música. Ele cita, por exemplo, Cannes, Coachella e o Rock in Rio, mas “voltado para as artes visuais, é claro”, ponderou. Com recordes de público a cada edição, as grandes mostras de arte nacionais e internacionais têm atraído uma faixa etária cada vez mais jovem. O mesmo se aplica a feiras do setor, como a SP-Arte.
Durante a conversa, Inouye reforçou a importância de conceituar uma exposição internacional no atual momento político dos Estados Unidos: “É preciso criar um projeto para as pessoas locais e para os curadores, público e artistas de fora”. Inouye, que foi curador sênior na Sharjah Art Foundation nos Emirados Árabes Unidos, destacou o potencial da arte por meio de trabalhos focados no diálogo e na natureza. “Essas são grandes forças do contemporâneo”, defendeu.
Promover uma Bienal é também atravessar muitos desafios, lembraram os curadores. Fonseca acredita que é possível criar espaços para as pessoas estarem juntas, concordarem ou discordarem. Afinal, o principal ponto em comum de suas atividades é manter uma programação vibrante e sempre atenta ao diálogo com o outro: “Nós dois nos importamos muito com o público, temos uma visão vasta do que deve ser uma Bienal, não só para acadêmicos e colegas da arte. É preciso levar as pessoas a explorar a cidade e sua cultura”, resumiu Inouye.
Raphael Fonseca acredita que é possível criar espaços para as pessoas estarem juntas, concordarem ou discordarem
O trabalho deve ser lento, como uma forma de juntar as pessoas. Essa é a experiência de uma grande exposição de arte
— Ryan Inouye