Nara Roesler: 50 anos de trajetória

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Yan Catuaba

25 mar 2026

Acima: Retrato de Nara Roesler. © Cortesia Nara Roesler

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A atual década trouxe o cinquentenário de algumas das primeiras galerias de arte contemporânea do Brasil. Enquanto celebram o marco, os fundadores olham para trás e reconhecem como seus modelos construíram o mercado de arte tal qual conhecemos hoje no país. Em 2026, é a vez de Nara Roesler, galerista e fundadora da galeria homônima, realizar esse exercício retrospectivo e sacar da memória momentos e histórias que marcam o seu meio século de carreira.


Em uma conversa exclusiva com a equipe SP-Arte, ela percorre os bastidores de sua longa trajetória como marchande, desde sua primeira galeria, a Gatsby Arte, criada em 1976, no Recife, até o presente com a Nara Roesler, que ocupa endereços em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York. Com um sotaque pernambucano guiando sua fala, Nara conta como estratégia, dedicação, e também, afeto, orientam o funcionamento e o sucesso de uma das casas mais importantes do país.

Nara Roesler e artistas na praia do Leblon, Rio de Janeiro, na abertura da sede carioca da galeria, 2014. © Leo Aversa

Nara Roesler e artistas na praia do Leblon, Rio de Janeiro, na abertura da sede carioca da galeria, 2014. © Leo Aversa

Abrir o olhar, aquecer o coração


É com certo brilho nos olhos que Nara fala do primeiro artista que representou quando ainda atuava em Pernambuco, o pintor José Cláudio da Silva (1932-2023). Segundo ela, foi ele quem lhe despertou a vontade de se tornar galerista: “Ele me abriu a visão para coisas que eu nem olhava”, diz. Naquele momento, no final dos anos 1970, a ausência de um mercado de obras de arte estruturado fazia com que empreendimentos como a Gatsby Arte, a primeira galeria de Nara, encerrassem pouco após sua inauguração: “Há 50 anos, não existia o mercado. As últimas décadas marcaram a transição de um cenário movido por paixão e intuição para um mercado com processos globais, rigorosos, tecnológicos e profissionalizados”, conta Nara.

José Cláudio da Silva, "Nara", 1979. © Cortesia Nara Roesler

José Cláudio da Silva, "Nara", 1979. © Cortesia Nara Roesler

Foi diante desse cenário pouco favorável que ela deu o pontapé inicial em sua carreira. José Cláudio havia lhe aberto a visão e era justamente esse despertar do olhar que ela queria provocar nas pessoas. A partir de então, a galerista lançou mão de estratégias que pudessem movimentar e colocar a cena artística pernambucana em foco. “Eu convidava os críticos e acadêmicos para darem palestras. Era um desafio, mas também uma forma de fazer eles conhecerem a vitalidade da arte produzida em Pernambuco", relembra.


Tornar os artistas com os quais trabalha em figuras conhecidas é uma das funções de galerista que Nara domina como ninguém. Muitos daqueles que encontramos hoje em manuais de história da arte contemporânea brasileira ou em grandes coleções, tanto aqui quanto lá fora, passaram pelas paredes de espaços geridos por ela. Abraham Palatnik, Tomie Ohtake e Vik Muniz são alguns cujas carreiras Nara Roesler ajudou a construir.

Retrato de Nara Roesler e Tomie Ohtake. © Cortesia Nara Roesler

Retrato de Nara Roesler e Tomie Ohtake. © Cortesia Nara Roesler

A busca pela projeção dos nomes que se propõe a representar, no entanto, não se dá de maneira distanciada. Nara revela como seu trabalho é marcado por um relacionamento próximo e pelo envolvimento afetivo com artistas: “Eu adorava sair para ver José Cláudio pintando na natureza e acompanhei de perto os movimentos da escola de arte que ele ajudou a desenvolver junto a outros nomes, como Abelardo da Hora. Eu vivia em ateliês". Ainda hoje, mesmo com um time de mais de cinquenta nomes representados e com as relações entre galeria e artistas concentradas na figura intermediária do liaison, Nara Roesler faz questão de acompanhar tudo de perto: “Nesse momento, estamos tocando mais de duzentos projetos, e estou por dentro de todos eles".

Retrato de Nara Roesler e Vik Muniz. © Cortesia Nara Roesler

Retrato de Nara Roesler e Vik Muniz. © Cortesia Nara Roesler

“Minha paixão é comunicar e ensinar a ver"

— Nara Roesler

A persistência que marcou os anos iniciais de sua carreira ilustram como a primeira galeria serviu de ensaio para um império que Nara estava prestes a erguer. Em 1986, a galerista mudou-se para São Paulo e abriu a Nara Roesler, uma das casas que lançaram o modelo de galeria de arte contemporânea que hoje está disseminado pelo Brasil. Enfrentando os estigmas de uma mulher nordestina no sudeste do país, foi em terras paulistanas que Nara consolidou aquele que se tornou o seu projeto de vida: expandir o olhar. “De lá para cá, eu ajudei a criar e desenvolver muitas coleções de pessoas que não sabiam nem por onde começar. Minha paixão é comunicar e ensinar a ver".


Para ela, é na partilha e na difusão de saberes, bem como no acolhimento e na recepção afetiva, que estão os pilares da galeria. “O nosso trabalho é muito semelhante àquele que vemos em museus. Também é nossa tarefa preservar a memória, receber bem e formar pessoas a fim de expandir o reconhecimento dos nossos artistas", afirma. Isso se traduz em iniciativas bastante concretas como a editora Nara Roesler Books e as diretrizes que conduzem o dia a dia da galeria: “Nossa equipe de atendimento é instruída para acolher qualquer visitante que entra na Nara Roesler. Aqui eu tenho um jeito ‘mãezona’. Eu gosto de cuidar de pessoas".

Retrato de Nara Roeler com os filhos, Alexandre Roesler (à esquerda) e Daniel Roesler (à direita). © Cortesia Nara Roesler

Retrato de Nara Roeler com os filhos, Alexandre Roesler (à esquerda) e Daniel Roesler (à direita). © Cortesia Nara Roesler

A atmosfera familiar e maternal que Nara preserva no cotidiano vem, em parte, do quadro funcional do negócio, já que dois de seus sócios, Alexandre e Daniel Roesler, são também seus filhos. “Essa relação exige muito cuidado, pois as críticas podem ser interpretadas como desamor. Tenho que ser cautelosa porque, com eles, eu quero ser mais mãe do que sócia”, comenta. Aliás, é por meio deles que ela vislumbra sua continuação no mundo, não apenas biológica, mas ideologicamente: “Meu desejo é que a galeria sobreviva a mim e continue, com meus filhos e essa equipe maravilhosa, com esse DNA acolhedor".


Foi com seu jeito caloroso que Nara conseguiu ser a primeira galeria brasileira a ter uma sede em Nova York. Em 2016, um ano após ter expandido sua atuação no Brasil e ter inaugurado uma sede no Rio de Janeiro, a galerista conquistou o principal polo do mercado de arte dos EUA. “Foi o momento mais importante da minha trajetória. Nova York fez a galeria ser mais conhecida e respeitada. Lá, recebemos muitos diretores de museus, curadores e artistas importantes. Isso permitiu que instituições como o MoMA olhassem para artistas nossos”, diz, ao se referir ao momento em que um dos maiores museus dos EUA adquiriu uma obra de Tomie Ohtake, em 2024.


Fachada da galeria Nara Roesler em Nova York. © Cortesia Nara Roesler

Fachada da galeria Nara Roesler em Nova York. © Cortesia Nara Roesler

Obra de Tomie Ohtake, 1982, adquirida pelo MoMA em 2024. © Cortesia Nara Roesler

Obra de Tomie Ohtake, 1982, adquirida pelo MoMA em 2024. © Cortesia Nara Roesler

Mas nenhuma trajetória bem-sucedida alcança seu êxito sem passar por adversidades. Em 2021, a galeria conheceu aquela que seria a situação mais dramática de sua história: um incêndio atingiu o galpão que abrigava boa parte do seu acervo. “Foi bem no meu aniversário. Perdemos mais de duas mil obras. Cada vez que chegava a lista do que tinha sido queimado era como se eu estivesse na porta do necrotério reconhecendo o corpo. As obras são como pessoas”, diz Nara.


De fato, a destruição de uma obra de arte marca não apenas prejuízos materiais, mas também perdas culturais e simbólicas. “Eu me senti a própria fênix nesse momento”, afirma a galerista. O uso da figura mítica que representa o renascimento indica como a profissão que Nara executa há 50 anos exige reinvenção a todo instante : “É uma bronca gerir uma galeria, as pessoas acham que é só charme e glamour, mas tem muito perrengue”, desabafa.

"Aqui eu tenho um jeito ‘mãezona’. Eu gosto de cuidar de pessoas" — Nara Roesler

Detalhe de móbile do artista Julio Le Parc. © Cortesia Nara Roesler

Detalhe de móbile do artista Julio Le Parc. © Cortesia Nara Roesler

Mas é outra chama, acendida há cinco décadas, que incita a galerista a continuar: sua paixão por despertar nos outros o olhar artístico. Com um tom de satisfação e leveza, ela conta como esse fogo é alimentado, cotidianamente, por sua obra de arte favorita: “Eu tomo meu café da manhã todos os dias com um sol criado por Julio Le Parc. Eu olho para aquele móbile e sinto que ele esquenta o coração”.

Yan Catuaba integra a equipe de Comunicação da SP-Arte. É bacharel e licenciado em História pela USP e pesquisador nas áreas de Cultura Material e Cultura Visual.