Mestres artesãos do Brasil: dando forma a mundos imaginários

Mestres artesãos do Brasil: dando forma a mundos imaginários
A convite da SP–Arte, a Artesol nos conta sobre a origem do projeto que celebra seus 25 anos. A ONG ocupará o State (em frente à ARCA) com a Arte dos Mestres em paralelo a SP–Arte Rotas Brasileiras 2023 entre 30 de agosto a 03 de setembro. A Artesol é uma organização especializada na implementação, gestão e realização de projetos de fomento sociocultural e desenvolvimento econômico em comunidades tradicionais produtoras de artesanato em todo país.
“A Artesol se consolidou ao realizar um valioso trabalho de preservação das tradições do artesanato brasileiro. Há, portanto, uma enorme sinergia com o propósito da SP–Arte Rotas Brasileiras que, ao se debruçar sobre esse universo de criação artística, rompe preconceitos e cria novas perspectivas para a arte e cultura brasileiras”, afirma Fernanda Feitosa, diretora da SP–Arte.
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Há 25 anos, a antropóloga Ruth Cardoso (1930-2008) vislumbrou um cenário que, à época, parecia um sonho: transformar a realidade de vulnerabilidade de comunidades tradicionais brasileiras por meio de seu potencial criativo.
Atuando em um programa social focado nas populações que enfrentavam os desafios das secas prolongadas no semiárido do país, a então primeira-dama foi capturada pelo esmero e sofisticação de uma produção artística que nascia em povoados distantes dos grandes centros urbanos.

Máscara ritualística confeccionada em palha na aldeia Kaupuna, no Xingu (MT) para a cerimônia Atuxá - Foto: Theo Grahl
Entre os objetos feitos à mão com os quais Ruth se deparou em suas jornadas pelo Brasil estavam desde panelas de barro, bonecas feitas de retalhos e toalhas bordadas à beira do São Francisco até esculturas que davam forma à imaginação, como santos, ex-votos, bichos fantásticos, cerâmicas inspiradas na arte rupestre, pássaros criados a partir das formas retorcidas da caatinga, noivas com vestidos elegantes. A estética dessas peças traduz a relação dos autores com os biomas do país, com suas memórias e saberes ancestrais, com símbolos da sua fé, suas fantasias e seus afetos.
Foi daí que nasceu o desejo de Ruth de pesquisar, documentar e revelar essa produção criativa para o mundo para fomentar negócios de artesãos e artistas do Brasil afora. Muitas das obras que encantaram a antropóloga nasciam em palafitas nos rios amazônicos, ou casas de pau a pique sufocadas pelo calor do sertão, pelas mãos de artistas com pouca instrução formal, reconhecimento restrito, mas dotadas de talento, capacidade intelectual, criatividade e expressividade únicos.
“O que queremos fazer é mostrar que esse saber e essa arte existem, podem se expressar e fazer parte do mercado, não têm que estar excluídos. A gente nunca deve ver a arte popular como alguma coisa alternativa. Ela tem que fazer parte e estar integrada ao mercado”, afirmou Ruth em vídeo institucional da Artesol em 1995.

25 anos depois, a Artesol realiza a mostra Arte dos Mestres na capital cultural do país, unindo forças com a SP–Arte Rotas Brasileiras 2023, um dos maiores eventos de arte do Brasil.
“Quisemos trazer para São Paulo o saber, o fazer regional, a produção e a diversidade da cultura popular brasileira, protagonizadas por artistas que revelam as histórias de suas famílias, comunidades e culturas. Teremos a chance de fruir de uma arte afetiva e cheia de personalidade, por meio das formas, cores e temáticas de obras que reverenciam paisagens naturais, arquitetônicas e humanas do nosso país, com histórias contadas pelas mãos que repetem e reinventam técnicas e narrativas aprendidas com mães, avós e antepassados”, afirma Jô Masson, curadora do evento ao lado de Marco Aurélio Pulchério.
Um dos objetivos da mostra é promover o reconhecimento dos mestres do artesanato e sua arte, sua história de vida e a importância simbólica dos objetos, bem como o seu legado intelectual para as comunidades e para o patrimônio imaterial do país.

Mestre Luiz Antônio, ceramista de Caruaru (Pernambuco) - Foto: Theo Grahl

Mestre Jasson, escultor em madeira de Belo Monte, Alagoas, que cria móveis como cadeiras que mesclam animais, seres míticos, pessoas e outros elementos simbólicos - Foto: Theo Grahl
Reunindo 20 mestres, grupos e famílias de vários Estados, entre eles Alagoas, Ceará, Mato Grosso, Pernambuco e Pará, a mostra trará mais de 200 obras e proporcionará espaços exclusivos para que os artesãos possam apresentar com destaque seus trabalhos e interagir com o público, além de exibir documentários exclusivos que contextualizam o aspecto social, cultural e criativo em torno dos artistas.
Contar a história não só das obras, mas dos indivíduos e seus territórios nesse universo vasto e complexo do artesanato e da arte popular brasileira é, por si só, um gesto de descolonização, pois traz o protagonismo de artistas, muitos dos quais oriundos de comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas, na construção da nossa história e nossa identidade.
Em contraponto, a arte dita “popular” evidencia uma nova relação entre o campo e a cidade, o colonizado e o colonizador, o sagrado o profano, o útil e o belo, aproximando lógicas e mundos distantes, promovendo o intercâmbio entre diferentes camadas da sociedade.

Peça esculpida em madeira por mestre Cunha, de Jaboatão Dos Guararapes, Pernambuco. As esculturas de Cunha misturam máquinas, animais e formas humanas - Foto: Theo Grahl
Nesse contexto, os mestres de ofício, ou os mestres artesãos, têm um papel fundamental. Eles são reconhecidos por seus pares e por especialistas, não só pela sofisticação do seu trabalho, mas pela sua perspectiva criativa e provocativa do mundo e pela capacidade de transmissão de seus conhecimentos artísticos e culturais para toda uma comunidade. São, portanto, mediadores entre passado e presente, guardiões de memórias marcadas pela herança de antigas matrizes culturais e pela criação de novas técnicas.
“Para mim mestre não é só um título. É uma conquista. É ser aquele que leva informação, leva o saber, que perpetua, que conduz. É a comunicação por meio do ofício. Esse é o papel do mestre”, afirma Marco Aurélio, lembrando que o evento funcionará também como uma feira para a comercialização dessa arte genuinamente brasileira, tropical, ancestral e contemporânea.

Sil - Capela - Foto: Theo Grahl

Mestre Cornélio - Foto: Theo Grahl

Rosalvo Santana - Maragogipinho - Bahia - Foto: Theo Grahl